Danny Rose se diz insatisfeito e mostra o outro lado do projeto do Tottenham

“Eu não quero desrespeitar ninguém, mas preciso dar voz às minhas opiniões”. Danny Rose não pediu para ser transferido, mas cutucou o vespeiro não apenas numa hora inoportuna, mas também num contexto bastante delicado.


A três dias da abertura da Premier League, o melhor lateral esquerdo do último campeonato concedeu uma entrevista polêmica ao The Sun, esclarecendo suas reflexões do tempo em que esteve contundido e dizendo o que todo mundo já sabe sobre os Spurs, mas que ninguém esperava ver algum jogador do próprio time declarar.


Abaixo, alguns trechos da extensa matéria de capa publicada hoje (10/08):



“Eu já tenho 27 anos. O tempo está acabando e eu quero conquistar títulos. Eu não quero jogar futebol por 15 anos e não ganhar nada. Esse não sou eu, eu não seria feliz com isso. Eu quero ganhar algo.


Ficar contundido me fez pensar em muitas coisas de dentro e de fora do campo. Vários “e se?” passam na sua cabeça. É difícil de lidar. Mas uma coisa é certa: eu sei o quanto eu valho e eu vou conseguir ganhar o quanto eu mereço.


Eu não tenho jogado tão bem para não receber o quanto eu penso que eu valho. Em muitos momentos da vida, eu paro e penso “por que se contentar com menos?”. Se eu realmente estou no nível que eu cheguei na última temporada, eu devo correr atrás de ganhar o que eu mereço. Eu não sei por quanto tempo eu vou me manter nesse nível, então não serei estúpido o bastante para não correr atrás do máximo que eu posso ter entre prêmios, troféus e salário.


Eu não estou dizendo que quero sair, mas se algo concreto chegar a mim, eu não teria problemas em expressar minhas opiniões e vontades para ninguém dentro do clube.”


“Minha relação com Pochettino é ótima, de verdade - até me chamam de “filho do técnico” -, mas as pessoas falaram muito mal de mim antes do Mauricio chegar. Ninguém entende que ter uma temporada meia boca não te faz ser um jogador ruim. Eu também era bom antes do Pochettino chegar, mas de fato ele me fez melhorar ainda mais e ser mais consistente, mas eu nunca vou me esquecer como parte da torcida reagiu à minha renovação de contrato. Eu quero que essas pessoas saibam como eu me sinto em relação a isso.”


“Eu vi alguns jogadores dizendo que nós não precisamos de grandes contratações, mas, desculpem, eu não sou obrigado a concordar. Eu não consigo acreditar na ideia de que não contrataremos ninguém. Eu assisti o jogo contra o Manchester City na pré-temporada e conversei com alguns companheiros. Eles tiraram Agüero, Touré e Sané do banco. Isso é gritante para mim. Quando jogamos contra o Chelsea na semifinal da FA Cup, o Chelsea tirou Fàbregas, Hazard e Costa do banco e eles mudaram o jogo. Com isso, eu pensei "seria possível a gente jogar de igual para igual contra um time grande e só depois tirar Kane, Alli e um bom zagueiro do banco?". Não quero ser desrespeitoso, mas nós não conseguiríamos fazer isso hoje.


Eu até tenho uma boa competição pela minha posição [com Ben Davies], mas por que nem todos no time têm essa concorrência? Eu quero ver grandes jogadores chegando para que todos tenham que brigar muito pelo seu espaço.


Eu não estou dizendo para contratarem dez jogadores, mas eu adoraria ver dois ou três bons reforços - e que não sejam jogadores que você tenha que procurar no Google para saber quem são. Me animaria demais ver um grande jogador chegando aqui, como foi quanto trouxemos o Van der Vaart, por exemplo.”


“Também achei que vender o Walker, o melhor lateral direito da liga, para um dos favoritos ao título foi duro de ver. Eu não esperaria que Daniel Levy me dissesse como jogar futebol, então eu não pretendo dizer a ele como gerenciar um clube, mas eu não queria ter visto Kyle sendo vendido.”


“Tem outra coisa: eu gostaria de jogar no norte [da Inglaterra]. Eu não sei quando, mas quero voltar para o norte e jogar em algum lugar. Eu saí de casa [Leeds] aos 16 anos. E eu sei que tenho amigos aqui que saíram da Argentina ou da Coréia do Sul, mas eu não vejo a minha mãe com frequência há onze anos. Voltar para o norte será minha prioridade antes de me aposentar.”


“Eu sou feliz no Tottenham, eu amo meus companheiros e os torcedores têm sido ótimos nos últimos três anos, mas eu sofri bastante antes do Mauricio chegar. Agora eu só quero ganhar coisas e estar no time titular da Inglaterra na Copa do Mundo. E eu sei que se eu tiver outra ótima temporada, essas coisas serão consequência.”



 

Getty Images
Getty Images

Qual será o próximo passo de Rose?


As colocações de Rose foram duras e é difícil pensar em qualquer outra motivação para o jogador ter dito tais coisas além de forçar uma transferência - ainda mais considerando o fato do atleta ter pedido para ser entrevistado pelo The Sun. A impressão que dá é que foi um exercício de relações públicas, com o intuito de fazer o público se solidarizar e entender exatamente por que ele poderia sair, justificando de antemão sua possível debandada.


O clube o apoiou durante quase onze anos, e em pelo menos seis ou sete deles, Danny não foi exatamente um bom jogador. Se o camisa 3 hoje é o melhor jogador em sua posição no país, a “culpa” é do Tottenham e principalmente de Pochettino. As declarações, por mais que não tenham difamado o clube ou o treinador, não são dignas de alguém que deve tanto à instituição.


Porém, por mais que o instinto queira, não há como refutar a maior parte do que o lateral esquerdo declarou na entrevista. O Tottenham realmente paga bem menos do que a média dos grandes clubes ingleses e de fato deve ser frustrante passar toda a carreira jogando em alto nível sem levantar um troféu importante - a honestidade de Rose, inclusive, é de espantar, mas assuntos dessa proporção deveriam ter sido discutidos nos bastidores ou em particular com os responsáveis, mas nunca em público.


Acontece que Daniel Levy não “paga mal” seus jogadores porque quer. Sua folha salarial é menor porque é disso que ele pode dar conta por hora - ou você acha que Van der Vaart saiu lá atrás por deficiência técnica?


É justamente por isso, inclusive, que precisamos do novo estádio: para conseguirmos aumentar a folha de pagamentos de forma sustentável, sem excessos e sem loucuras. Mas até lá, é preciso que todos no clube tenham um mínimo de comprometimento - coisa que Rose fez questão de deixar claro que não quer ter.


Getty Images
Getty Images

Há menos de um ano, Danny Rose, visivelmente acorrentado e com as mãos presas à mesa, assinou à força um contrato que lhe obrigava a ser mal pago (£65mil por semana)

Só injetar dinheiro num time é muito fácil, mas como se manter em pé caso os investimentos não dêem certo e o investidor abandone o barco? Você lembra do Leeds United? Do Portsmouth? Mais da metade dos times da Premier League estão jogando seu jogo com as cartas de terceiros e qualquer colapso financeiro e/ou estrutural que aconteça com algum deles poderá ser considerada uma tragédia anunciada. O Tottenham simplesmente tenta remar para longe da correnteza.


As palavras de Danny são o outro lado da moeda deste projeto que o clube está tentando implantar. O crescimento orgânico é um sonho, mas é importante lembrar que nem todos os componentes são obrigados a se sujeitar à ideia. Se suas crenças e aspirações vão contra o que está acontecendo dentro do núcleo em que você está inserido, a porta da frente estará aberta para que você encontre outro lugar que melhor as acomode - como aconteceu com Walker. Rose, infelizmente, só escolheu bradar em direção à porta dos fundos. 


Agora, a dúvida é como a comissão técnica deve reagir. Será mais sensato vendê-lo para quem oferecer mais dinheiro, deixá-lo encostado de castigo no cantinho do pensamento como o Southampton recentemente fez com Van Dijk ou tentar fazer seus desejos virarem realidade, oferecendo-o um salário maior e contratando reforços dignos de briga pelo título?


De qualquer forma, como disse o ídolo Graham Roberts, o escudo na frente da camisa sempre será maior do que qualquer nome atrás. Com ou sem Rose, o Tottenham segue firme.