O que esperar da temporada dos Spurs?

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Pré-temporada


No inverno (verão, lá) de 2008, o Tottenham montou um time que viria para brigar pelo ‘top 4’ depois de conquistar a Copa da Liga. Um jovem craque croata, uma joia do Barcelona e a maior promessa britânica da época vinham para compor a equipe que queria fazer frente aos maiores times do país.


A pré-temporada foi um sonho. O time de Juande Ramos venceu todos os amistosos de julho e agosto com requintes de crueldade, mostrando um futebol organizado e atraente. A sequência de bailes foi fechada com chave de ouro com uma goleada imponente sobre a Roma; 5-0, com Darren Bent mostrando frieza à frente do gol e David Bentley jogando como Maradona.


Foram 2 pontos nos primeiros 8 jogos da Premier League. Os Spurs ficaram na zona de rebaixamento até a 12ª rodada e terminaram o campeonato na oitava colocação, sem poder reclamar muito.


O que isso significa? Significa que é só a pré-temporada, poxa. Uma série de jogos que, na prática, não importa. Todos estão voltando das férias naquele ritmo que a gente sabe como é. Estas peladas são basicamente um exercício de relações públicas e/ou marketing. Nem a comissão técnica, nem a diretoria e nem os jogadores estão atrás de cobranças antes do início das verdadeiras competições.


E, veja lá, a pré-temporada atual do Tottenham nem está sendo tão ruim, principalmente se futebol fosse, sei lá, jogado sem placar. E é claro que ainda falta aquela derrota por 3-2 para a Juventus (Murillo Moret, da blogueiro da Velha Senhora, apostou em 1-1) em pleno Wembley pra fazer a gente já começar o campeonato com o coração na mão. Mas nem as presepadas contra a Roma, nem a apatia frente ao Manchester City, nem as desatenções contra o PSG são motivo para dor de cabeça agora. A temporada competitiva é outra história e as expectativas devem estar como no fim da última campanha: lá em cima.


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Inquilinos


Perdemos oito dos últimos nove jogos disputados no gramado que teremos que chamar de ‘nosso’ durante a próxima temporada. Nestes oito (e de certa forma, até na única vitória), por mais que não houvesse espaço para mais nenhuma alma nas arquibancadas, nenhum dos torcedores presentes viu o mesmo Tottenham que estavam acostumados a ver no White Hart Lane.


Não adianta brigar contra os fatos: a gente tem sérios problemas com o Wembley. Quando tive a oportunidade de conhecê-lo, deu pra entender, em partes, quais são os motivos (que todo mundo já sabe): torcida longe da cancha, campo de visão mais aberto, maiores dimensões do gramado e aquela acústica que só é ótima quando o som sai de amplificadores num palco dentro do círculo central. Além disso, é um estádio que bem recebe todos os times, mas que não se identifica com absolutamente nenhum (por mais que o retrospecto recente de outros clubes seja positivo).


A catedral do futebol inglês, em resumo, é um gigante de concreto que fede a história, mas não inspira nem cativa quem está lá dentro. Será preciso derrubar outro grande obstáculo e promover mais um grande exorcismo (depois do Etihad, do Manchester United, da defesa sólida etc) para que o progresso tenha continuidade.


Digo isso pois, mesmo longe de casa, um ano ruim seria capaz de reduzir a pó todo o planejamento arquitetado pela diretoria e comissão técnica. O Tottenham não é como o Manchester United, por exemplo, que foi capaz de recrutar jogadores brilhantes mesmo vivendo anos frustrantes longe do topo da tabela e fora da Champions League. Uma temporada de fracasso já é o bastante para instaurar um clima de insegurança difícil de se desvencilhar.


Dessa vez, não basta só esperar que as coisas sejam diferentes dentro do Wembley. O acaso só ajuda quem persevera. Já saiu o aval para que o gramado seja diminuído para as dimensões antigas do White Hart Lane e os órgãos responsáveis já liberaram a capacidade máxima do estádio para todos os nossos jogos da temporada. O trabalho será duro para não decepcionarmos.


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Elenco


Por mais que eu não acredite, é possível, sim, que cheguem reforços nessa janela - seja Ross Barkley ou algum moleque francês que a gente nunca ouviu falar. O que importa é que, de um jeito ou de outro, o elenco dos Spurs já é bom o bastante para brigar lá em cima. O time base é o mesmo que terminou a campanha passada, mas a pressão e a cobrança serão ainda maiores na atual temporada. E como sempre, o que falta ainda são alternativas.


Como já disse em outras oportunidades, o que o clube precisava era que seus melhores jogadores não fossem vendidos. Dos grandes nomes, só Kyle Walker foi embora (e vai fazer falta, de certo), mas é bom lembrar que a titularidade no flanco direito já tinha guarda compartilhada com Kieran Trippier no fim da última campanha - e, não, Trippier definitivamente não é melhor que Walker, mas pode nos servir tão bem quanto.


Nkoudou mostrou na pré-temporada que consegue ser útil, Lamela está voltando a treinar, Winks aparenta ser profissional em alto nível há dez anos e Janssen já não parece mais o novo Soldado. Do outro lado, Carter-Vickers ainda deixa muito a desejar no miolo de zaga e Walker-Peters não parece pronto para assumir responsabilidades maiores. Pochettino terá dores de cabeça.


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Antonio Conte



“Se eles [Tottenham] não forem campeões, não será uma tragédia. Se eles não se classificarem para a Champions League, não será uma tragédia. Se eles saírem da Champions League na primeira fase, não será uma tragédia. Se eles forem eliminados também na Europa League, não será uma tragédia. Essas circunstâncias seriam trágicas para o Chelsea, Arsenal, Manchester United, Manchester City e, sei lá, até o Liverpool.


Você precisa entender o status do seu time. Todo clube deve definir suas ambições. E se as ambições são, por exemplo, vencer a Premier League ou a Champions League, você precisa comprar jogadores caros - caso contrário, você se mantém no mesmo nível. É simples. Minha questão é essa: quais são as expectativas do Tottenham?”


- Antonio Conte (26/07/2017)



Só teve um time melhor do que os Spurs na última temporada. E até dá pra argumentar que o Chelsea foi tão bem porque não teve compromissos além-mar para se preocupar, já que ficou de fora das competições da UEFA na última temporada, mas não é possível tirar o mérito dos Blues pela sólida campanha.


O Tottenham não deve se vangloriar por ter terminado a temporada *só* pressionando o líder, mas o vice-campeonato é um feito grandioso para um time construído com 30% do investimento dos principais concorrentes - e, por isso, a equipe e o clube merecem algum respeito.


Antonio Conte, outra vez, se refere ao único time que lhe botou na roda e apertou o cerco com desdém e certo desaforo. E é óbvio que as palavras do italiano podem fazer parte daquela estratégia mourinhista de desestabilizar o psicológico de um adversário com cutucões apimentados, mas por que um treinador faria isso com um time que, de acordo com suas próprias palavras, não está no páreo, nem tem ambições tão grandes como as suas?


Na coletiva que serviu como réplica, Pochettino riu. “Eu dei risada, sim. Não sei porquê as pessoas estão tão focadas no meu time e nos meus jogadores”. E é bem simples, na verdade. O Tottenham incomoda, irrita, assombra, mas não é fácil dar o braço a torcer. E, assim como em muitos momentos na vida, é mais fácil negligenciar o medo, ironizar a apreensão, tentar colocar na cabeça que o receio é irracional e menor do que você. Mas quanto mais a porta do quarto bate sozinha, maior vira o temor, e ele só aumenta até virar uma obsessão. Racionalize enquanto é tempo, Conte.


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Preto no branco


O lado pessimista diz que a quarta colocação na Premier League não será mau resultado. O lado otimista quer taças e sabe que pode conquistá-las. O lado razoável não quer nada além de solidez - ficar entre os quatro primeiros, fazer bonito na Champions League e correr atrás de alguma taça de copa caso venha a calhar, bem como foi na última temporada. As palavras que resumem o que os próximos meses devem ser são continuidade, progresso e segurança.


Digo, o Tottenham dificilmente vai levantar taças ou protagonizar grandes épicos jogando no Wembley, mas é imprescindível que o trabalho seja bom o bastante para manter o nível bem alto até nossa nova casa ser erguida - e lá, sim, tentar alçar voos mais altos.


Todo o planejamento está sendo seguido à risca e o treinador vêm publicamente pedindo para que a torcida lhe dê confiança. Nesse caso, seja o que Poch quiser.