Pochettino quer transformar o Tottenham no 'Ajax inglês'

Ontem, Pochettino concedeu uma entrevista discreta à ESPN FC americana. Muito questionado sobre a inatividade quase letárgica dos Spurs na janela de transferências, o argentino esclareceu de uma vez por todas - mas pela primeira vez mais tão claramente - quais são suas intenções com a equipe.


Esqueçam as contratações exuberantes, os times milionários e as folhas salariais absurdas. Esqueçam Isco, Kovacic, Mahrez e companhia. O Tottenham quer ser um tipo de Ajax inglês - um grande diferente dos grandes.


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Pochettino não quer comprar sucesso, mas sim construí-lo de forma mais orgânica





Idealista, progressista e seguro de suas convicções, Poch arranhou muito o inglês para deixar suas ideias perante o clube extremamente claras. Separei abaixo algumas declarações do treinador durante a entrevista que merecem destaque:



"Acho que, no futebol, o dinheiro pode te ajudar a montar times melhores ou a trazer bons jogadores, mas o sucesso não depende só do dinheiro. Você também precisa ser criativo, inteligente, astuto. É claro que a próxima temporada vai ser difícil, mas temos confiança no modelo que implantamos e no jeito que jogamos."


"Os outros grandes, como vocês estão vendo, estão investindo muito dinheiro e tentando contratar novos jogadores para melhorar seus elencos, mas nós estamos tão quietos exatamente porque acreditamos na nossa equipe, acreditamos nos jovens que estão subindo. É claro que poderemos, contratar novos jogadores, talvez, mas estamos calmos pois acreditamos muito no grupo que já temos."


"Antes as coisas não eram assim, o clube estava funcionando de um jeito diferente, mas essa é a nossa filosofia agora. Se você é jovem, tem 16, 17, 18, 19 anos, é bom o bastante e consegue nos provar que é bom o bastante, com certeza é o momento certo de jogar no Tottenham. É desse tipo de jogador que estamos correndo atrás."


"Essa filosofia não é só minha, ela vem da diretoria. Eu e Daniel Levy temos um ótimo relacionamento e temos uma ideia clara do que precisamos fazer no futuro. É um momento excitante para o Tottenham, mas é verdade que agora estamos numa sintonia diferente dos outros grandes, queremos construir algo diferente."


"Depois de um tempo trabalhando com eles [atletas da base], você nota que eles conseguem sentir que estão prontos para jogar no time principal, e nossa comissão técnica trabalha com carinho para tentar dar a eles essa oportunidade. É claro que eles também sabem que é difícil chegar no nível que queremos, mas nós queremos ajudá-los."


"Dizem que o Tottenham atualmente não tem time para ser campeão da Premier League, mas também disseram isso ano passado quando ficamos em segundo. O Chelsea foi de fato o melhor time, mas eles não jogaram nenhuma competição continental durante a temporada. Agora, com todo o 'top 6' nas mesmas condições, vamos ver como serão as coisas."



A entrevista foi um pouco (positivamente) chocante até para este que vos escreve. A tentativa de priorizar o produto interno e o desenvolvimento de novos talentos em detrimento da contratação de atletas de peso já era bem nítida, mas o nível de empenho e dedicação para fomentar essa filosofia é de cair o queixo.


A ideia, em suma, é investir pesado no crescimento orgânico, de dentro para fora - marca registrada do Ajax, por exemplo. Mas na Eredivise, sem dúvidas, é muito mais simples (ou menos difícil) ter sucesso sob diretrizes tão particulares. Ou seja, com Pochettino e Levy, o Tottenham faz um pacto com um projeto tão ousado quanto arriscado. 


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Confiante no treinador, boa parte da torcida do Tottenham apoia a filosofia progressista do clube


Juan Foyth, zagueiro de 19 anos do Estudiantes (que estava reportadamente acertado com os Spurs, mas agora parece estar a caminho do PSG), foi só um exemplo do tipo de contratação que a torcida pode esperar nas próximas janelas; jovens que estão longe dos holofotes, mas que tem um potencial imenso pronto para ser explorado em alto nível.


Ambição não tem nada a ver com abrir os cofres e esse é o Tottenham que terão que engolir. Viva la revolución!