Kyle Walker no Manchester City: o bom negócio e o mau negócio

A demora pra tocar no assunto - juro pra você - não foi por preguiça. Na verdade, desde que subiram o anúncio oficial, tentei racionalizar ao máximo a saída de Kyle Walker para o Manchester City ao invés de sair cuspindo ressentimento. A ficha caiu, a poeira baixou e o fato é que, no fim das contas, não encontrei nada a ser racionalizado: £50m não valem nada na Premier League e o Tottenham perdeu um ótimo jogador que não será facilmente substituído.


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Vai ser difícil se acostumar com Walker vestindo outras cores


Tem quem escolha enxergar como um ótimo negócio, e existem bons motivos para fazê-lo. No final da última temporada, apesar de ter sido o grande nome do campeonato na posição, Walker sequer era a escolha unânime para a lateral direita do Tottenham. Seu concorrente, Kieran Trippier, teve uma média de gols sofridos por partida menor e o mesmo número de assistências registradas com quase 20 jogos a menos.


Produto bruto de uma grande evolução nas mãos de Pochettino, o camisa 2 encontrou seu auge aos 26 anos, depois de ter toda a organização da equipe funcionando de acordo com suas principais características. Sua técnica e inteligência de fato nunca foram primorosas, mas sua capacidade física monstruosa, somada a uma notável melhora no aspecto defensivo, compensaram. Em dois anos, aquele bagre que tinha ficado marcado por coberturas bisonhas na marcação se tornou o melhor lateral direito do país, sem dar margem pra discussão.


Além do mais, na prática, 50 milhões de libras são 50 milhões de libras. Mesmo num mercado inflacionado como o atual, esse valor é mais do que o bastante para recrutar um jogador de alto nível para essa posição que seja tão bom quanto ou até melhor do que Walker.


Enfim, se o clube abriu mão de um jogador tão importante, é porque existe um plano para preencher sua lacuna. Em outras oportunidades, Eriksen, Vertonghen e Dembélé não foram negociados justamente porque suas ausências afetariam negativamente o desenvolvimento da equipe. Se você acredita no projeto do Tottenham, basta respirar fundo e tocar o barco.


Esse é um jeito de ver as coisas.


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Como um bom negócio pode ser um mau negócio?


Do outro lado, porém, há uma voz áspera que incomoda, dia sim, dia não, lá no fundo da cabeça, dizendo sempre num tom claro: “ele não podia ter ido embora por valor nenhum”. Não se vende o melhor jogador da posição no campeonato para um concorrente direto do mesmo campeonato.


Quer dizer, tá certo que Trippier é até melhor tecnicamente, se posiciona com mais inteligência e cruza que é uma beleza, mas Walker tem aquele algo a mais que faz qualquer consciência limpa balançar. Além disso, o Manchester City não comprou *aquele* jogador que corria pro lado errado e jogava de canela dura, com quem tivemos que lidar durante pelo menos cinco anos. Guardiola investe num defensor muito bem desenvolvido e acostumado com a competição, e numa bolha como é a Premier League (onde um clube grande faz £50m em dois meses de ócio produtivo), atletas assim não tem preço.


Mas é só contratar alguém!”. De fato. Danilo, Ricardo Pereira, Aurier, Gaspar, Weiser, Sidibé… Opções não faltam. E seria simples assim em qualquer outro lugar, mas Pochettino não quer comprar craques; quer fazer craques. Ou seja, a esperança é que o trabalho que o argentino fez com Kyle seja reeditado com Kieran (e por que não com o outro Kyle, Walker-Peters). Mas será que vai dar?



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A tranquilidade e segurança conquistadas nos últimos dois anos valem muito mais do que 50 milhões de libras, e o fato de um adversário direto ter tomado posse de um bem tão precioso e querido faz a razão e o otimismo se esconderem atrás de incertezas, preocupações, desconfianças e ressentimento.


O ressentimento, aliás, é sempre maior do que a razão. Porque não foram poucas as oportunidades que o dito cujo aproveitou para dizer à torcida, imprensa e companheiros de equipe que permaneceria nos Spurs, além de muitas vezes ter declarado publicamente seu imenso carinho pelo clube em seus oito anos de White Hart Lane e vinte e sete de vida.


O lateral escreveu uma narrativa graciosa com a camisa lilywhite. De um jeito ou de outro, Walker e Tottenham estarão para sempre conectados, mas nessa história o noivo correu do altar antes de trocar as alianças. Se o encontrasse na rua, lhe daria um abraço carregado de gratidão, mas não pediria autógrafo ou fotografia. Deixo no passado o que pertence ao passado, e foi nele que Kyle escolheu ficar.