David Ginola: muito talento, poucas glórias

“Acredite, ele era fora de série”, disse um tal de Johan Cruyff. E, tudo bem, ele não era Zidane, Ronaldinho ou Messi. Seu talento extraordinário, diferente dos destes outros, não contou com muitos troféus ou medalhas para ser representado, mas David Ginola foi um daqueles jogadores que puxavam os holofotes para si.

Holofotes, aliás, sempre interessaram o francês, até depois de pendurar suas chuteiras. Não à toa, tentou se tornar ator, aparecendo e fazendo carão em filmes como “The Last Drop” e o seriado “The Young and The Restless” - as más línguas dizem que Ginola chegou até a estrelar até filme pornô no meio dos anos 2000, mas não há evidências em documento ou em vídeo. Talvez por isso suas aparições nos gramados fizessem jus a qualquer blockbuster da época; uniforme solto, olhar de predador, cabelos ao vento e sempre deixando para trás uma trilha de destruição da qual Jean-Claude Van Damme certamente se orgulharia.


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Um ícone cult que ficou no passado


Sagaz e habilidoso, o atacante era imparável no um contra um frente aos zagueiros adversários. Bola colada no pé, sem olhar para o chão, com um footwork inconfundível e uma velocidade de raciocínio invejável. 


Posicionado quase sempre atrás de um centroavante ou aberto na beirada esquerda, Ginola era do tipo que errava muitos gols fáceis só para compensar a frustração marcando pinturas inesquecíveis. Ainda tinha um ótimo senso para o “último passe”, auxiliando seus companheiros com lançamentos e cruzamentos precisamente letais.

Essa descrição poderia se aplicar a vários outros craques, mas o que difere o francês é sua série de negativas quando o assunto são títulos ou glórias pela seleção. Sua maior medalha na estante é a do campeonato francês de 1994, conquistado sob as cores do PSG. Outros quatro títulos de copa (duas Coupe de France, uma Coupe de la Ligue, uma FA Cup e uma Copa da Liga) completam sua lista, que acaba por aí - e considerando o talento do jogador, deveria ter sido mais.

Outro ponto que distancia Ginola de nomes inesquecíveis é a falta de memórias pela sua seleção. A França não estava vivendo bons tempos no começo dos anos 90, sem ter conseguido se classificar pra Copa de 1990 e passando vergonha na Eurocopa de 1992. Mas com Ginola, Cantona, Papin, Deschamps e Blanc, as esperanças para 1994 se renovaram. Infelizmente, para a França (e especialmente para Ginola), o sonho de se reestabelecer na Copa do Mundo não chegou nem perto de se concretizar.


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A seleção francesa só precisava de um empate em casa contra a Bulgária para garantir sua vaga na Copa. Os búlgaros, por sua vez, precisavam vencer para se classificar e tirar Les Bleus da jogada. Cantona abriu o placar no primeiro tempo, Kostadinov empatou e o jogo brigado se encaminhava para um empate dramático. Com o resultado, o trabalho da equipe francesa nos últimos minutos era segurar a bola no campo de ataque - fazer cera, em bom português - até o apito final. No último lance de jogo, Ginola recebeu uma bola perto da bandeira de escanteio; a redonda praticamente pedia para que o atacante simplesmente a escoltasse dos adversários para queimar tempo. Ao invés disso, o atacante tentou encontrar 'King Eric' na área com um cruzamento. A bola só encontrou o ala-esquerda búlgaro, que encaixou um contra-ataque letal com Kostadinov e o atacante se fez carrasco dos franceses com um gol heróico no apagar das luzes. 


O técnico Gerard Houllier não passou nenhum pano para o erro de seu convocado, mas culpou-o publicamente e inúmeras vezes pelo fracasso francês - história que rendeu 20 anos de ameaças, alfinetadas e até processos judiciais. Assim, Ginola foi pintado de vilão nacional e, sob a alcunha de “assassino do futebol francês”, não vestiu mais a camisa da seleção. Em 1998, assistiu ao título mundial de seus compatriotas sozinho no sofá de casa. “Provavelmente a pior sensação da minha vida”, declarou meses depois. 

Por causa do episódio, inclusive, é que o craque forçou sua saída do PSG para se juntar ao Newcastle em 1995. A transferência, aliás, poderia ter sido para a Espanha, já que Johan Cruyff, admirador assumido do futebol do francês e treinador do Barcelona na época, tentou sua contratação, mas o limite de estrangeiros por elenco na liga espanhola impediu a concretização do negócio. Bobby Robson tentou outra vez no ano seguinte, mas Kevin Keegan (técnico dos Magpies) se negou a vender sua grande estrela depois de já ter se desfeito de Andy Cole.


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'He's supersonic in his white and blue!'


Há males que vêm para o bem. Depois do pesadelo na França, foi na Inglaterra que o craque encontrou sua melhor forma. No Newcastle, chegou muito perto de vencer a Premier League duas vezes, em 1996 e 1997, mas nas duas ocasiões o Manchester United de Alex Ferguson levou a melhor. 


Já em 1999, vestindo a camisa de um Tottenham que amargava anos medíocres no meio da tabela, David levou para casa o prêmio de melhor jogador do ano, tanto na eleição da federação quanto da imprensa, superando as estrelas do United que haviam acabado de conquistar a tríplice-coroa. Dá pra imaginar o tamanho do talento.


Ginola deixou saudades por onde passou - exceto pela seleção, é claro - e definitivamente não tem o reconhecimento que seu talento sugere. É mais um dos grandes futebolistas esquecidos que alegra a memória de quem procura se lembrar.