Do que o Tottenham precisa nessa janela?

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Olhar pra dentro antes de olhar pra fora é o mantra que Pochettino leva nos Spurs


Raio-X

No último final de semana, a seleção inglesa levou pra casa seu primeiro troféu desde a Copa de 1966. E, tudo bem, foi um troféu no mundial sub-20, não é motivo para se gabar, mas o cidadão inglês e sua imprensa vivem numa bolha futebolística que não deixa ninguém largar o osso de suas raízes. Foi um título do torneio sub-20 em 1964 que abriu alas para a conquista da Jules Rimet dois anos depois.

Agora, é claro, a Inglaterra sequer chega perto de ser favorita para a levar a Copa do Mundo do ano que vem (ano que vem!), mas convenhamos, também não era uma das favoritas da vez contra o Brasil de Pelé e Garrincha, a Alemanha Ocidental de Beckenbauer e Seeler, Portugal de Eusébio, Espanha de Gento e por aí vai. Tente explicar a um inglês fanático que sua fé é vã. Você sabe como é.

Enfim, por que esse título do sub-20 interessa? Porque o Tottenham fez parte dele. Kyle Walker-Peters e Josh Onomah, pratas da casa, foram titulares incontestáveis na competição de cabo a rabo.


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Walker-Peters e Onomah, heróis nacionais nas categorias inferiores, terão sua chance de brilhar no Tottenham


O primeiro, lateral (o nome Kyle Walker deixa a situação meio cômica, de fato), mostrou confiança de jogador experiente e arrasou sua beirada do campo com muita velocidade e explosão. Apesar de ser canhoto, o jovem de 20 anos jogou do lado direito e se mostrou versátil, agressivo e inteligente na tomada de decisões.

Já o segundo, meia armador, é um pouco mais familiar para o torcedor que acompanha o time profissional. Já apareceu no banco de reservas no ano retrasado e empolgou bastante quem o viu estrear, mas teve uma temporada frustrante em 2016/17 e viu Harry Winks tomar seu lugar como principal pupilo de Pochettino. No mundial sub-20, porém, Josh jogou um pouco mais recuado do que nos acostumamos a ver nos Spurs e, dessa forma, foi o grande pilar do meio de campo inglês. Passou, assistiu, desarmou, organizou e encaixou; fez a função do camisa 8 clássico com maestria e achou sua posição para o futuro.

E, outra vez, por que isso interessa? Porque o Tottenham tem uma escolha delicada para fazer nessa janela de transferências. KWP e Onomah já deram uma prévia do que podem oferecer, mas logo menos seus rivais não serão mais jovens promessas como eles, e sim grandes craques de grandes seleções. Num time que briga pelo título da Premier League, não há muita margem para deixar o desenvolvimento de cada um tomar o tempo que precisa naturalmente.

No ano passado, Pochettino liberou o zagueiro Federico Fazio para jogar na Roma, mas escolheu não preencher sua lacuna com uma nova contratação, dando espaço para Cameron Carter-Vickers subir de vez da base e tomar conta da vaga no elenco. Esse tipo de escolha faz bem para o progresso dos atletas da base, mas é arriscado quando o assunto é qualidade de entrega - Carter-Vickers até foi bem em alguns momentos em que foi exigido, mas deixou a desejar na EFL Cup e na FA Cup a ponto de não ser mais escalado desde março até o fim da temporada.

O supracitado Winks, por sua vez, teve sua oportunidade de ouro agarrada com muita personalidade na última campanha. Pochettino não contratou o meia de ligação que a torcida tanto lhe pediu, para deixar o garoto inglês mostrar serviço. Winksy emulou Dembélé com propriedade, foi titular na Champions League e até fez gol decisivo em dérbi local. Virou o reserva imediato da meia-cancha.

Se existe uma esperança genuína nas pratas da casa, esta certamente vai influenciar os planos do clube nas próximas semanas. Digo, é claro que o Tottenham vai precisar de uma alternativa, por exemplo, para a vida pós-Dembélé, mas Winks e Onomah não podem vir a ser bons o bastante para fazer esse papel tão bem quanto o belga?

Dizem que pra se ter sucesso, é preciso abrir os cofres, mas Kane, Walker, Rose, Dier e Alli, sendo ou não crias da base, cresceram a partir de espaços no elenco que não foram preenchidos com contratações propositalmente. Dá pra entender?


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Mas aquele garoto que joga em outro time...


A grama do vizinho

O Tottenham não vai deixar de contratar destaques de outros lugares para passar a só dar chances a quem vem de baixo. É claro que não. Só não vai contratar tanto quanto seus concorrentes, porque seu modelo de gestão e sua filosofia são diferentes de seus concorrentes, simplesmente.

Com a perspectiva de dar chance ao produto das canteras, a ideia de correr atrás de reforços para estas posições carentes é antiprodutiva; afinal, nas condições competitivas atuais, foge à lógica que um recruta de £30m seja deixado para trás na lista de convocados para que uma promessa de 19 anos tenha uma chance de aprimorar seu jogo. Mas do outro lado, gastar dinheiro é a alternativa menos arriscada para chegar ao sucesso - não à toa o Chelsea foi campeão podendo descansar Hazard, Fàbregas e Diego Costa em momentos da campanha, mas sem dar tanto espaço a seus prospectos da base. Wanyama, por exemplo, foi o elemento que faltava para a equipe subir mais um degrau, numa posição/função que as categorias de base não conseguiram contemplar.


Ou seja, mesmo com o raio-x, Pochettino vai continuar vivendo seu grande dilema para tentar melhorar e qualificar o elenco para ganhar títulos. Para o argentino (e para o presidente, e para o diretor de futebol, e para mim, e para você), deve-se atingir um equilíbrio entre homegrown e recrutamento externo - ou seja, é preciso haver espaço para as duas coisas dentro do mesmo núcleo. Acontece que a grama do vizinho é sempre mais verde.

Joel Veltman, do Ajax, Ryan Sessegnon, do Fulham, Jean Seri, do Nice, Thomas Lemar, do Monaco, e Balde Keita, da Lazio, são os nomes mais cotados para se juntarem à equipe nessa janela de verão europeu. No auge da sanidade e isento de clubismo, nenhum torcedor pode dizer que temos nas canteras algum talento que esteja perto destes (com a exceção de Sessegnon, é claro, que acabou de completar 18 anos e não chegaria para tirar Danny Rose de seu posto imediatamente). Na hora de reforçar o grupo, na prática, por sua experiências e qualidades, não há dúvidas de que estes sejam preteridos no lugar das pratas da casa.

Também é óbvio que caso algum componente da “espinha dorsal” da equipe abandone o barco, a solução mais óbvia seja contratar algum suplente que já esteja à altura de quem saiu. Walker, por exemplo, é um dos que estão mais propensos a ir embora (meu ceticismo ainda me impede de escrever sobre sua despedida) - talvez o único entre os grandes figurões -, mas caso sua transferência se concretize, Ricardo Pereira, português do Nice, parece já estar de malas prontas para Londres, porque não se pode depender de Trippier numa posição tão delicada sem um reserva imediato de bom nível, e Pochettino (e o presidente, e o diretor de futebol, e eu, e você) sabe disso.


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'Should I stay or should I go?'


Já Isco, por sua vez, não virá. Nem o Gameiro, nem o Kovacic, nem o Lacazette, nem o Verratti, nem nenhum desses atletas de valor abusivo e qualidade inquestionável. E não porque o Tottenham não pode, mas porque não precisa. Nosso quarteto de ataque fez mais gols na liga que o “trio BBC” + Morata + Isco + James + Vazquez na última temporada. Nossa defesa foi a menos vazada da Premier League, a quarta menos vazada da Europa. Ou seja, nós já temos nossos craques, o que nos falta é consistência.

O que o Tottenham precisa, no fim das contas, é equilíbrio. É saber controlar a mão que assina os cheques ao mesmo tempo que abre o jogo para quem sobe da base para dizer “ainda não chegou a sua hora”. É conseguir colocar um medalhão de £40 milhões pra jogar ao lado de um moleque que até ontem não tinha pelos no suvaco e consegue acertar 100 passes por jogo. E nesse assunto, Pochettino é mestre.


PS:. Tá, um meia-atacante reserva como o Lemar seria, de fato, bem legal. Por favor, Levy. Do your magic.