O dia em que o Tottenham ficou a uma lasanha da classificação para a Champions League

*Por Henrique Letti


Na temporada de 2005-06, o Tottenham apresentava muita qualidade em seu elenco. Treinados pelo holandês Martin Jol, os ingleses Paul Robinson, Michael Dawson, Ledley King, Jermaine Jenas, Aaron Lennon e Jermaine Defoe formavam a espinha dorsal da equipe, juntamente com os estrangeiros Paul Stalteri, Lee Young-Pyo, Edgar Davids, Mido e Robbie Keane.

Uma equipe sólida que, ao longo do campeonato, colecionou bons resultados dentro e fora de casa. Mas já eliminada tanto da FA Cup como da Copa da Liga nas primeiras fases, o foco total ficou na Premier League. Ocupando o quarto lugar, os Spurs estavam um ponto à frente do Arsenal e, com isso, disputaram a última rodada do campeonato com esperanças de finalmente chegar à Champions League.


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Benayoun (aquele) foi o carrasco dos Spurs num dos episódios mais comicamente trágicos da história recente do clube


5 de maio de 2006. Na véspera do duelo contra o West Ham, válido pela 38ª rodada da Premier League, o elenco lilywhite fazia check-in no London Marriott Hotel, na parte leste da cidade, perto do finado Boleyn Ground.


Depois de várias temporadas sem brigar no topo da tabela, o Tottenham tinha a chance de, enfim, terminar entre os quatro melhores do campeonato. Só que, para isso, eles não contavam com um grande adversário - que não era o West Ham, com o experiente goleador Teddy Sheringham e com o então promissor meio-campista Yossi Benayoun, tampouco o nervosismo do jogo decisivo, mas, sim, uma lasanha. Uma porra de uma lasanha.

Era a oportunidade de garantir uma vaga na Champions League. Era a vez de terminar à frente do seu grande rival depois de onze anos. Era...

"Vamos satisfazer os mais diversos paladares com uma abordagem inigualável e fresca". O Marriott não poupou palavras para elevar o nível do buffet oferecido no jantar. Os jogadores, obviamente, caíram nesse papo. Caíram, na verdade, numa bela porção de lasanha. Que pecado.

Com o protocolo pré-jogo sendo seguido com precisão, nada parecia errado. Isso até pouco depois da meia-noite, quando diversos jogadores começaram a passar mal. Davids, Tainio, Dawson, Lennon e Cerny, além do recém voltados de lesão - reforços pontuais para a partida - Robbie Keane e Michael Carrick, sucumbiram rapidamente no banheiro.

Daniel Levy, chairman dos Spurs, ao perceber a gravidade da situação, telefonou para Richard Scudamore, então chefe-executivo da Premier League, para consultar o que aconteceria caso houvesse o adiamento da partida. Mas com os nervos à flor da pele, Levy encerrou a ligação. "Caso o Tottenham não compareça ao jogo, estará sujeito a uma punição da Premier League, possivelmente perdendo pontos", avisou Scudamore.


De alguma maneira, Martin Jol teria de escalar a equipe para jogar, horas depois, no Upton Park. E ele o fez, colocando dez jogadores intoxicados como titulares. Jermaine Jenas, importante meio-campista da equipe à época e hoje comentarista do canal BT Sport, nunca havia visto algo parecido. "O engraçado é que, para um jogo contra o West Ham, normalmente teríamos ficado em casa, já que é um derby local. Mas por ser uma partida tão crucial, o clube nos colocou em um hotel para que ficássemos juntos".

"A lasanha estava no cardápio, nós comemos e, no meio da noite, começamos a passar mal. Foi um caos. Enquanto o técnico falava com a equipe antes do jogo, tinha gente vomitando no banheiro. Durante o jogo, quase todos nós estávamos correndo vazios - literalmente", completou.


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Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença


Com dez minutos de partida, o Tottenham já saiu atrás com um gol de Carl Fletcher. Pouco antes do término da primeira etapa, Defoe marcou o gol de empate dos Spurs. Mas no início do segundo tempo, os problemas da intoxicação alimentar ficaram evidentes. Carrick, que mal conseguia caminhar, teve de ser substituído, assim como o coreano Young-Pyo e o finlandês Tainio.

Com condições completamente adversas, o Tottenham batalhou pela vitória. Teddy Sheringham, ídolo dos Spurs, teve a chance de estragar o maior desejo de sua ex-equipe em uma cobrança de pênalti, mas Paul Robinson defendeu milagrosamente. Depois, Keane e Tainio chegaram perto do gol da virada, só que, a dez minutos do final, veio a decepção: Benayoun marcou o segundo dos Hammers e garantiu a quarta colocação ao Arsenal - que vencera o Wigan por 4x2.

Os Spurs, no fim das contas, ficaram a uma lasanha da inédita classificação para a Champions League.