Gigantes, cuidado: o Tottenham não é o melhor lugar pra ir atrás de reforços

O Tottenham vive um conflito. As cifras que ornamentam a multibilionária Premier League têm o poder de fazer alguns jogadores medíocres receberem seis dígitos na conta corrente toda semana, fato que desestabiliza qualquer atleta de qualidade que esteja abaixo dessa inflacionada média salarial.

Jogadores possuem contatos, são amigos de colegas de trabalho que atuam em outros clubes, respiram informações privilegiadas e são protagonistas nos bastidores. Em função disso, quase todos os recrutas de Pochettino devem se sentir relativamente mal pagos. Ou acham que são relativamente mal pagos. Ou sabem que são relativamente mal pagos. Porque são relativamente mal pagos. Ou você acha que o Eriksen não olha torto pros £80 mil que recebe quando põe na cabeça que o atacante reserva do Stoke ganha £140 mil?

Nós, torcedores, nos pegamos sentindo algo estranho ao botar a mão na consciência pra reparar nisso. A ideia de que os jogadores vão continuar no time só por causa do projeto ou da camisa é mais do que utópica - é um sentimento bonito, mas totalmente irreal num mundo onde times rivais podem dobrar o salário de qualquer atleta sem o menor esforço - e no fundo a gente sabe que não é e nem vai ser bem assim.

Diante desse cenário, técnicos e dirigentes de grandes clubes cobiçam os jogadores do Tottenham com água na boca e uma crença de que pode ser fácil tirá-los do White Hart Lane usando seu poder aquisitivo, mas nenhum deles tem noção de que estes atletas não necessariamente serão os mesmos (ou farão valer sua etiqueta) longe de Pochettino.


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O Tottenham tem atletas de destaque no cenário continental, mas será que eles renderiam tanto assim em outro lugar?




Tomemos como exemplo Kyle Walker e Danny Rose. Os melhores laterais da última Premier League, especulados, respectivamente, no City e no United. Ambos são produtos de um trabalho árduo sob o comando do argentino, que conseguiu melhorar muito a produção defensiva (principalmente sem a bola) e a efetividade ofensiva da dupla. Mesmo assim, os dois só são "tudo isso" porque se beneficiam do sistema implantado na equipe.


Os laterais ingleses são as bandas que dão margem para toda a estrutura do coletivo de Poch, apoiando bem lá na frente porque são bem apoiados lá atrás. Sem esse sistema, os dois simplesmente não rendem a mesma coisa - basta tirar a seleção inglesa como prova. 


Wanyama, por exemplo, tem a função de identificar vulnerabilidades nas subidas dos dois laterais. Dier (quando escalado no meio de campo) e Dembélé também jogam com um radar ligado para possíveis contragolpes, frequentemente se deslocando para alguma lacuna pra compactar os espaços ou fechar portas para o adversário. Ou seja, toda a beleza e fluidez no futebol dos Spurs é fruto de responsabilidades. E é claro que o instinto do jogador faz diferença nesses detalhes operacionais, mas o treinamento e as instruções do técnico ilustram o que é o time do Tottenham: um grupo de atletas que dependem das funções exercidas pelos companheiros para poderem explorar seus pontos fortes.


Isso quer dizer que Dier, Rose, Alli e companhia não são tão bons assim? Claro que não. Só quer dizer que o valor deles pode não ser perfeitamente traduzido em outro lugar. E é claro que exceções como Eriksen, Kane e Alderweireld poderiam sair e brilhar tanto quanto em qualquer outro clube, mas a maior parte do elenco ainda “depende” do esquema implementado na equipe para se destacar.



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Os jogadores do Tottenham orbitam em volta um do outro, tendo Pochettino como Sol, e a consequência dessa química é a gravidade que equilibra todos no mesmo nível de excelência. Pegar um elemento desse complexo e esperar que ele exerça sua função com a mesma qualidade e aptidão em outro lugar, sob outras condições e diretrizes, é, no mínimo, ingênuo.

Esse time foi construído de um jeito diferente dos outros grandes concorrentes. O Tottenham não é um clube que procura se desenvolver sancionando 200 milhões de libras pra contratações todo ano, mas tenta aperfeiçoar seus métodos de treinamento e capacitação colocando jogadores em posições que foram criadas especificamente para se adequar a seus perfis.

Não é o caso do City e do United, por exemplo, nos quais a ênfase é recrutar jogadores para resolver problemas ao invés de corrigir as falhas com peças que já estão ali. Quando Pep Guardiola decidiu que precisava de um goleiro que jogasse com os pés, ele não tentou ajustar a maneira que o Hart jogava - ele se desfez do arqueiro e gastou £20M numa alternativa (que não deu certo). Da mesma forma, Mourinho notou que tinha um problema com a lateral esquerda e não deu tempo para Luke Shaw trabalhar, cometer erros e crescer como o jogador que o Manchester United precisava; o português, no fim das contas, criticou o jogador publicamente em diversas oportunidades, deixou-o de fora da equipe e o usou na “campanha” para aumentar sua verba para transferências.

Pode parecer ruim, mas no fundo não há crueldade (apesar da insensibilidade) nesse modelo de gestão - afinal de contas, em boa parte das vezes esse método dá certo. Quanto maior é o investimento, maior é a chance de ele se justificar. Mas onde os recursos são *quase* infinitos, a noção de tempo é reduzida drasticamente. Ou um jogador é capaz de ganhar pontos sozinho ou mudar uma partida, ou ele rapidamente vira um flop e é descartado. O termo “adaptação” não existe do jeito que deveria (ou poderia). 


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Pra tirar peças do Tottenham, o comprador tem que estar bem disposto a abrir os cofres




Dentro desse contexto, comprar do Tottenham é um negócio de risco. Além disso, Daniel Levy têm sido eficiente na hora de estender os contratos dos jogadores mais importantes da equipe, forçando os compradores a desembolsarem muito mais do que estariam dispostos - pra se ter ideia, já foram recusadas propostas de £40 milhões por Eric Dier, que sequer é titular absoluto -, e é um personagem famoso por ser bem difícil de se negociar.


Aí, supondo que o risco valha a pena (ou só pra tentar sabotar o sistema de Pochettino), um gigante pode aparecer com um cheque de £80M para fisgar, sei lá, Christian Eriksen*. Você tem noção o que dá pra fazer com £80M? O Tottenham estaria, em tese, sendo fortalecido pelos adversários esfomeados - mesmo que existam várias outras formas dos ditos cujos se reforçarem que não seja tirando uma peça de um relógio suíço pra tentar encaixá-la num PC Gamer tunado; não deve ficar bonito e não deve funcionar tão bem. E é claro que essa máxima se aplica pra todos os outros times que tem um conjunto definido, mas com o Tottenham o buraco está muito mais embaixo.


No mais, uma ou duas vendas como essa, por mais que indesejadas, podem abrir as portas para (três, quatro, cinco…) contratações que, bem planejadas, levariam o time a um nível de qualidade sem precedentes.


O Tottenham, hoje, tem o poder de dar as cartas e moldar seu destino. Podemos sair ganhando ou ganhando. Posto tudo isso, United, City, Real Madrid e afins, pensem duas vezes: será que vale mesmo a pena desembolsar uma nota preta pra tirar atletas do Tottenham?




* - O fato do dinamarquês ter custado pouco mais de 10% desse valor nem entra em pauta (mas deve sempre ser citado pra massagear nosso ego pão-duro).