Um fenômeno sem medalhas pra contar história: o balanço da temporada dos Spurs

Acabou a festa. 


Recorde de pontos (86), melhor ataque (86), melhor defesa (26), menos derrotas (4) melhor saldo (+60), mais jogos sem sofrer gols (23), artilheiro do campeonato (Kane, com 29) e mais uns e outros números inacreditáveis escreveram e justificaram a melhor temporada do Tottenham na história da Premier League. Mesmo assim, vice-campeões. Tem coisas que só acontecem com a gente.


A pontuação somada nessa campanha seria mais do que suficiente pra deixar aquele Leicester pra trás. Com estes 86 pontos na conta, teríamos vencido oito das 22 edições do campeonato inglês em seu atual formato, mas atingimos essa contagem justo quando o Chelsea de Conte apareceu para ser o time mais letal do país. Spursy em outro patamar.


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Pela segunda vez, os números irretocáveis não viraram vitórias e o Tottenham termina uma campanha brilhante sem troféus



Agora que a poeira baixou, fica fácil de entender que o Chelsea nunca seria alcançado. A consistência do time campeão pode ser explicada pela sorte com lesões, pela diferença entre o time titular e o banco de reservas que não é tão gritante e até a não participação em competições continentais. Já digerimos. Já processamos.


Nosso pecado, no fim das contas, foi ter demorado pra engrenar. A sequência de empates no início da temporada, a ausência de Kane, o atraso na migração pro 3-6-1 e uma porção de outros pequenos-grandes fatores fizeram a equipe tomar um pouco mais de tempo pra atingir esse nível exuberante que fechou o campeonato.


O preparo físico dos atletas, ponto que chamou a atenção e preocupou bastante no fim da temporada passada, acabou não sendo motivo pra dor de cabeça. Vencemos 12 dos últimos 13 jogos do campeonato (ainda há quem diga que o Tottenham amarelou!) e não houve nenhum sinal de despreparo ou cansaço. Não há mais como duvidar de Pochettino nesse aspecto.


O que dá pra duvidar é a eficácia do elenco reduzido, método que outra vez decepcionou. Jogamos boa parte temporada sem Rose (cinco meses), Lamela (seis meses), Kane (três meses), Walker (dois meses), Dembélé (dois meses) e Alderweireld (dois meses), sem nenhum substituto realmente à altura. Quer dizer, é claro que dá pra ser campeão desse jeito, mas não com a tranquilidade que o Chelsea teve. Na final da FA Cup, Conte teve o luxo de tirar Hazard e Diego Costa do banco, enquanto nós só tínhamos Nkoudou pra apostar. Reforçar o elenco é uma medida mais do que urgente - um zagueiro, um meia e um ponta já fariam o estrago necessário.


Pra quantificar a margem possível pra melhora, basta reparar como os reforços que chegaram no início da campanha realmente fizeram a equipe subir de degrau. Dembélé e Dier formavam a dupla de volante dos sonhos até Wanyama surgir. Winks apareceu da base e foi o autêntico termômetro box-to-box que outros times gastam milhões pra conseguir. Até Janssen, que nem foi tão bem assim, exerceu uma função vital em momentos-chave do campeonato que nenhum outro jogador do elenco conseguiria fazer.


Por mais que a mentalidade vencedora da equipe tenha persistido, os tropeços não desapareceram. Empates bobos com Leicester, Bournemouth, Sunderland, West Brom e Arsenal custaram caro e, convenhamos, a tragédia já era anunciada desde o apito final destes fracassos. Numa visão geral, os jogos fora de casa foram nosso calvário. Isso pra não falar dos vexames na Champions League e na Europa League.


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Num grupo equilibrado digno de Europa League, o Tottenham passou vergonha e sequer chegou nas oitavas de final




Mesmo assim, o Tottenham outra vez foi um fenômeno. Vice-campeonato, uma final de copa e dezenas de recordes para um time que há três anos penava pra chegar em quinto lugar. 


Agora a única pulga atrás da orelha está aí pelo medo desse grupo tão especial ser desmontado. Pelo menos Vertonghen deixou bem claro que ninguém tem pretensões de sair. "Veja como nós jogamos, como somos dominantes. Temos o melhor ataque, a melhor defesa, corremos mais...", disse o zagueiro. "O Mauricio [Pochettino] nos vendeu uma ideia e nós compramos. Esse é o time mais forte em que eu já joguei. É melhor time onde todo mundo aqui já jogou. Eu não consigo imaginar nenhum de nós jogando em outro lugar nesse momento".


Nesse exato momento, nas casas de apostas inglesas, as odds para o Liverpool (!!!) vencer a próxima edição da Premier League são maiores do que as nossas. Na TV, os rostos de Mourinho, Klopp e Wenger aparecem quando citam os concorrentes ao título - o de Pochettino não. Mas continuamos marchando, sempre abaixo do radar.

Todos os grandes adversários estão de olho em nós, mas ainda tendem a fingir que não. Não os culpo. Mas cada “legal, mas e os títulos?” é uma resposta pra mensurar o quanto estão com medo do que temos no Tottenham. Deixe que falem. Afinal, ninguém parece entender direito o que está acontecendo desse lado. Somos, por hora, uma versão pocket da Holanda de 74. Um time inesquecível que representa uma enorme evolução, mas que não tem medalhas pra contar história.


Na próxima temporada, abraçaremos um de nossos maiores pesadelos; teremos em Wembley nossa casa longe de casa. Um ano para provar que a evolução da equipe não é efetiva só dentro dos nossos termos. Um ano pra provar que estamos, mais do que nunca, na elite. 


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Até agosto, craque!


Notas finais


Lloris - 9
Walker - 9
Alderweireld - 8
Vertonghen - 9,5
Rose - 8,5
Wanyama - 9,5*
Dembélé - 8,5
Eriksen - 9,5
Alli - 9
Son - 8
Kane - 9


Vorm - 8
Trippier - 8
Dier - 7,5
Carter-Vickers - 6,5
Wimmer - 5
Davies - 7,5
Sissoko - 4,5
Winks - 8
Onomah - 5
Lamela - 7
Nkoudou - 5
Janssen - 6,5


Pochettino - 9