A vitória que faltava para o Tottenham na temporada

Tinha que ser contra o Leicester. A porra do Leicester. A porra do conto de fadas, da aberração, da história que vai virar filme, da pizza, do Vardy e do sonho deles que impediu o que o nosso virasse realidade.


Rancor, recalque, inveja; chame do que quiser - você provavelmente vai acertar todos os chutes. Mas eu, aqui e por aí, banquei que o Leicester era uma aberração. Porque era. Aquela história da loteria genética não era brincadeira. A epopeia dos Foxes foi bonita, mas como uma flor de plástico.


Digo, a zaga deles era Wes Morgan e Robert Huth, cacete. Foi como se Ipatinga fosse campeão brasileiro com Paulão e Gum lá atrás. Como eu disse, o time de Ranieri (que agora não é mais de Ranieri, graças àquele motim bem arquitetado) começou essa temporada de defesa do título tão propenso a cair pra segundona quanto na temporada em que venceu o título. Não caiu, aliás, porque ainda explorou o fôlego da conquista, conseguiu se reerguer a tempo depois da derrubada sacana do treinador italiano e se aproveitou de lampejos pontuais daquele time campeão, mas termina a temporada na parte de baixo da tabela dando margem para uns e outros se perguntarem “poxa, o que aconteceu com o Leicester?”. Nada aconteceu com o Leicester. A pergunta é o que aconteceu com vocês.



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Enfim, o mundo abraçou o time pequeno que se fez grande por um ano e escreveu história. Só quem não subiu na caravana fomos nós, do Tottenham, que engolimos o título mais surpreendente da história do futebol como uma pedra. O sorriso do time modesto e inocente (que de modesto e inocente não tem nada, convenhamos) foi causa e efeito da nossa maior frustração. Frustração que foi dignamente, finalmente, descontada hoje.


Getty Images
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¯\_(ツ)_/¯


Tivemos algumas vitórias mais elásticas durante a campanha, sim, mas todas com uma certa tranquilidade e sempre contra adversários que não representam absolutamente nada de mais. Stoke, Swansea, Bournemouth, Watford, WBA… Nesses termos, goleadas acontecem. Mas tínhamos um nó na garganta quando o assunto era o Leicester. Porque eles, por necessidade, criaram uma rivalidade conosco pra ter alguém para apontar e rir. Porque "terminamos em terceiro numa corrida de dois cavalos". Porque estávamos engasgados, com o orgulho machucado e com desejo de vingança. Por isso o placar foi, além de tudo, redentor.


É claro que o 6-1 não vai compensar o fato de não termos conseguido ultrapassá-los na última temporada, não vai nos trazer um título e nem vai manchar a glória deles, mas é bem útil pra quantificar como o Tottenham é uma locomotiva em comparação à anomalia que foi time de azul na campanha do título.


Son vestiu as chuteiras de Robbie Keane; perde gols fáceis na cara do goleiro, mas anota toda pintura que tenta realizar - e agora já são 21 na conta do sul-coreano. Alli flutua tranquilo como o craque que sabe plenamente quando, onde e como pode tocar o terror. A defesa continua um monumento tão sólido que a pataquada e o escorregão de Lloris foram motivo de risada ao invés de insegurança - foi mais cômico do que trágico.


Kane merece um parágrafo - ou uma estátua - exclusivo para si. O camisa 10 atropelou, desfigurou, martelou, devorou a grande representação coletiva do conceito de one season wonder, que por acaso lhe era (ainda é?) atribuído. Enfiou quatro no Leicester dentro dos domínios adversários, tomou a artilharia da liga mesmo tendo perdido três meses de ação e deixou ainda mais absurda sua lista de comparações e recordes. 51 gols nos últimos 58 jogos. Tem o mesmo número de hat-tricks na Premier League que Cristiano Ronaldo, Cantona, Zola, Diego Costa e Bergkamp somados. Ou seja, Harry é tudo o que Michael Owen quis um dia ser (e que você e eu queríamos que ele fosse também, de certo) e é o substituto natural de Alan Shearer na linhagem dos grandes centroavantes ingleses - é questão de tempo para ultrapasse o artilheiro do Newcastle, inclusive. Não perca mais tempo tentando menosprezá-lo.


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Foco no que importa


A vitória foi um pequeno (e necessário) exorcismo. Uma dose de autoestima imprescindível depois do Chelsea ter finalmente levantado a taça, servindo para nos lembrar de que sempre há margem para melhora. No fim das contas, era só o que nos faltava para podermos fechar mais uma campanha brilhante.


Contra o Hull, na despedida da temporada, que Pochettino escale a garotada e deixe a temporada terminar com ares de tranquilidade - a não ser que Lukaku invente de tentar outra ultrapassagem no ranking da artilharia.