Tottenham: o último suspiro do White Hart Lane

Getty Images
Getty Images


Lembra da Louisa? Pois bem, como eu disse, aquela foi a primeira vez que chorei durante a viagem. A segunda foi menos de dez minutos depois daquele episódio.


Eu, ela e o resto do grupo subimos juntos para as arquibancadas superiores do lado oeste do estádio, onde ficam as tribunas e algumas cativas especiais. Lá no alto, com o cockerel ainda brilhando na borda do telhado oposto, Gary Belsham apoiou-se na beirada do muro baixo que dá pro gramado e prosseguiu pra parte mais melancólica de seu monólogo.


Gary é o responsável pelos tours do estádio. Deve ter uns 60 anos de idade e parecia conhecer cada canto da edificação tão bem quanto sua própria casa. Ficava constantemente dizendo o quão triste era pensar que estava fazendo suas últimas visitas guiadas (ainda deve estar utilizando esse repertório, de forma cada vez mais melodramática) e cobria a boca pra falar o nome do Arsenal. Gente como a gente.


Por uns dez minutos, ele contou a história do White Hart Lane daquele jeito superficial que a Wikipedia também conta - certamente é parte do script da visita -, mas seu instinto o forçava a trazer relatos de memórias pessoais à tona durante o percurso. “[...] Roberts que, inclusive, marcou o gol de empate no final da UEFA Cup naquele gol ali. Meu pai quase me arremessou em campo. Nos pênaltis, então…”


Mas depois do roteiro protocolar, Gary parou de nos olhar nos olhos e começou a mirar em volta ou virar o rosto para baixo. “Teremos o jogo contra o Arsenal e depois o jogo contra o United. Esse último deve começar às 16h do domingo. Acabando o jogo, lá pras 19h vamos fazer uma festa com luzes, fogos e tudo mais. Vai ser bem rápida. Assim que o estádio for evacuado, umas 20h, já vão começar a demolir.”


Fez-se um silêncio sepulcral, quebrado alguns segundos depois pelo próprio Gary, que deve não só ter tentado aliviar nossa nítida dor repentina (eu não fui o único a derrubar lágrimas naquele momento, afinal), mas também sentiu o peso do que acabara de declarar.


Quer dizer, não há uma forma sutil de falar sobre qualquer demolição, e a situação fica ainda mais bizarramente delicada quando o que vai virar pó é um estádio com 118 anos de tradição, mas “demolição” é um termo que machuca além da conta. Até é possível quantificar essa dor procurando pelos sinônimos. Destruição, arrasamento, destroçamento, obliteração, queda, extinção, fim.


Uma construção vindo abaixo é o que surge à cabeça na hora que se ouve a palavra, mesmo que o que realmente esteja se reduzindo a pó no momento seja a própria cabeça. As lembranças do Gary, da Louise e de todos o que já estiveram ali não terão mais um referencial físico além da memória afetiva. Logo, todos estarão apontando seus dedos para fantasmas e contemplando, com olhos saudosos, espaços vazios e pedaços de metal onde em outros dias alguns homens desenharam nossa herança.


Getty Images
Getty Images


Como torcedores, todos nós experienciamos e nos relacionamos com o White Hart Lane de uma maneira particular. Seja vendo pela TV do outro lado do mundo ou em pé no Park Lane todo final de semana, construímos perspectivas singulares de como o lugar é e do que ele significa pra nós.


Visitá-lo pessoalmente mudou toda a ideia do que o estádio representa pra mim e pro clube. Andar pelos quarteirões ao redor do campo numa terça-feira ordinária e sem nenhum jogo pra assistir me deu uma noção mais completa do que é o Tottenham e o que é aquele lugar. A High Road, a Paxton Road, o Bill Nic, o Bricklayers, os imigrantes, as casas populares, as lanchonetes baratas com adesivos do cockerel na janela, os becos velhos, os adesivos nas latas de lixo e os tijolos mais amarelados da cidade. Tudo aquilo é feito de Tottenham e o Tottenham é feito de tudo aquilo. 


Há quem patrocine aquele papo de que não é um fim e sim um recomeço - o que é bem verdade, considerando que o novo estádio vai crescer logo em cima do antigo -, mas a queda de um ícone centenário que serviu como grande catedral para um clube, uma torcida e toda uma comunidade desde que foi erguido não merece ser tratado com essa irritante frieza corporativa digna de uma simples reciclagem. Estádios são transcendentes, metafísicos. São lares compartilhados, baús de recordações, salas de terapia em grupo, válvulas de escape, santuários, palcos de dramas e cenários de epopeias, espaços que te servem experiências tântricas ou de quase-morte sem seu aval (mas com seu irracional consentimento). São, simultaneamente, berço, caminho e cova.


O White Hart Lane não é exceção. É até mais do que regra, como muitos outros estádios que podem ser considerados pedras fundamentais ou símbolos históricos não só das equipes, mas das regiões que os cercam e suas respectivas populações. São décadas de histórias que vão muito além do esporte entalhadas no concreto, coisa que o novo complexo, por mais que nos sirva bem, talvez nunca consiga equiparar - como o mestre Galeano diria, nossa nova casa não terá memória nem grande coisa que dizer.


Vencer o Manchester United no último suspiro do estádio é o mínimo que essa despedida merece. Uma vitória vai coroar a temporada invicta dentro da fortaleza que finalmente (talvez tarde demais, ok) conseguimos construir. Um capítulo final digno. 


Depois de domingo, porém, o que importa é o passo adiante. Engula o choro e não olhe pra trás. Por mais que a saudade dure, a dor tende a passar. O progresso nem sempre se faz às custas da tradição e a modernidade não é um fator que anula a história ou impede que ela continue sendo escrita. O nosso livro não estará sendo fechado para que comecemos um outro do zero. Semana que vem, pense nessa mudança como o Novo Testamento da nossa bíblia.


De uma outra perspectiva, aliás, talvez Pochettino, Kane e companhia se beneficiem de um novo ambiente pra construir as próximas partes da narrativa - um universo material livre do conceito de spursy, livre do “Three Point Lane” e livre para fazer o time ser o que ele pode ser. A renovação do White Hart Lane é um símbolo de onde nós estamos indo.


Getty Images
Getty Images