Quem vai parar esse Tottenham revigorado?

Lembra de quando nos sentíamos abençoados por termos *aquele* único jogador que podia chamar a responsabilidade, decidir uma partida e fazer por merecer a idolatria? Um só rapaz pra gente investir toda a esperança que nos carregaria durante a temporada. A inconsistência ao redor do dito cujo só nos fazia valorizá-lo ainda mais, já que sabíamos que ele seria vendido em algum ponto do seu auge. Era um misto de orgulho e receio que só a gente sabia sentir.


Agora a gente tem uma cacetada deles. Um elenco com vários indivíduos com pleno potencial para se tornarem gigantes dentro do clube. Em cada setor e em cada posição, tem algum queridinho que a torcida gosta de se inflamar gritando o nome. Já pensou em como é frustrante alguém te fazer escolher entre colocar o nome do Dier ou do Dembélé na sua camisa nova?


E é claro que ainda dá pra drenar toda a paixão se você quiser se preocupar com a possibilidade de eles irem embora, considerando o fato de ainda não terem ganhado nada por aqui. Mas eu sei que, lá no fundo do coração, sua afinidade com esse grupo é maior do que isso. No fim das contas, de qualquer forma, o orgulho é quem dá as caras com força, porque é impossível não se afogar em euforia no meio dessa loucura toda.


Os rivais certamente vão aparecer com aquele papo de sempre. “Tá, mas ganharam o quê? Cadê os títulos? Logo menos o Alli vai pro Real Madrid, é só esperar”. Mas o problema não é nosso. Deixem eles com as inseguranças e dores de cotovelo - mesmo que alguns continuem precisando de lembretes constantes pra ajudar a definir o ódio. Estar fora da zona de conforto faz as pessoas ficarem assim, você sabe. E, na verdade, nós estamos fora da zona de conforto também. Só estamos do outro lado do muro, na montanha russa que sobe, nos familiarizando com a altura, o frio na barriga, o medo de cair e a ânsia pelo topo - já cansei de falar disso aqui.


Getty Images
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Outra coisa da qual me cansei é caçar sinônimos. Já não tenho mais adjetivos pra gastar na tentativa de descrever esse time quando a coisa toda dá liga. Mesmo que os primeiros minutos de jogo contra o Watford tenham deixado a pulga chegar até atrás da orelha, parece não haver mais pontos a serem provados pelo Tottenham no caminho para as decisões daqui pra frente - as dúvidas vêm exatamente na hora das grandes decisões que ainda estão pra chegar, então vamos dar tempo ao tempo.


Aquela história manjada de que todo jogo é uma final é aplicável aqui. E não é para a Premier League ou para a FA Cup, mas para o próprio time. Estamos indo muito além dos três pontos. Pochettino é o núcleo da revolução e, passo a passo, vai desenhando uma equipe que ninguém nunca ousou sonhar (tem como ficar mais clichê que isso?).



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A vitória dramaticamente heroica (ou heroicamente dramática) sobre o Swansea no meio da última semana contrastou com o baile no White Hart Lane. Tá certo que o Watford veio com o time misto, sem alguns pilares e sem grande pressão, mas esse não seria o cenário perfeito pra uma spurzada? Yep. São outros tempos. Já sabemos ganhar do jeito fácil e do jeito difícil.


Você viu o Son ficando puto e inconsolável quando perdeu um gol feito no segundo tempo? Seria um retrato normal de se ver caso o placar estivesse desfavorável, mas o sul-coreano já tinha deixado dois golaços e uma assistência na tarde ensolarada de sábado. E o zagueirão Vertonghen se lançando à frente num contra-ataque, chegando cara a cara com o goleiro e perdendo a passada antes de se estatelar no chão e esmurrar o gramado pela frustração? Coisa de quem está desesperado por um gol, mas àquela altura da partida já havia um sonoro 4-0 no marcador. O Tottenham é o conceito de fome de bola sendo representado ininterruptamente durante os 90 minutos.


Se Walker não joga, Trippier aparece com um desempenho irreparável e desconcertante. Com Kane ainda no banco, Janssen marca território na boca da área criando tantas chances quanto o camisa 10. E quando Eriksen e Alli decidem se entrosar, não tem retranca que segure - o Chelsea que o diga. 


Agora são onze vitórias seguidas em casa. Ataque eficiente. Meio de campo consistente. Melhor defesa. Melhor saldo. Melhor futebol. É o mesmo roteiro toda semana, de novo, de novo, de novo e de novo.