A primeira vez no estádio ao lado do Tottenham

Começo escrevendo esse texto pelo celular, sentado no portão B da rodoviária de Swansea, com os dedos congelando e minha voz me deixando na mão logo agora que eu preciso muito perguntar se eu devo mesmo pagar pra ir ao banheiro. Faltam alguns minutos pra meia noite, o ônibus de volta pra Londres sai daqui pontualmente às 23h50 e esse canto da cidade parece um grande cemitério a essa hora de uma quarta feira - não vejo uma alma fora da estação.


Sempre fui fanático por jogos fora de casa. Ser o torcedor visitante e estar no contrafluxo de uma outra cidade, fora da zona de conforto que é o estádio que eu posso chamar de casa tem uma mística que me encanta desde que me conheço por gente. Vestir outras cores que não as envergadas pelos torcedores do lugar onde você está cantando e pulando é uma bela de uma responsabilidade. Mesmo assim, nunca pensei que meu primeiro jogo do Tottenham seria justamente num away day.


Na rodoviária de Victoria, vestido de azul marinho e branco, me deparei com três torcedores do Swansea encapuzados vindo em direção à fila onde eu estava. Faltavam dois minutos para o embarque e eu só pude torcer para entrar no ônibus antes de ser ameaçado a tomar uma sova. Quando os três entraram na fila, ouço gritos vindo do final da plataforma em direção a onde eu estava. “Yid army! Yid army! Yid army!”. Chegaram seis do Tottenham. Já me preparei mentalmente pro pior. Assistir “Green Street Hooligans” mais de quatro vezes deixa a gente meio paranoico estando lá do outro lado do oceano. Mas ao invés de uma briga começar generalizada, ouviu-se um “vocês também estão indo pro jogo?”. Todo mundo se entrosou, eu me enfiei no meio e menos de dez minutos depois já estávamos elogiando Tom Carroll enquanto o ônibus entrava na estrada.


Depois do desembarque, me separei do grupo para explorar a pequena cidade litorânea antes do jogo. Um pouco mais tarde, então, eu estava sozinho no sul de Gales, procurando um jeito pra subir até o Liberty Stadium e outra vez com a certeza de que seria apanhado por uns ultras do Swansea. Mas o senhor que me acompanhou conversando do ponto de ônibus até o Harvester Pub, na porta do estádio, bem disse, “aqui eles são bonzinhos. Bonzinhos até demais. Talvez por isso estejam na lanterna.”


Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

O charmoso estádio galês foi palco de um dos grandes episódios da temporada dos Spurs


O Liberty realmente reflete o que seu nome sugere. É um lugar para qualquer um chegar e se sentir em casa, fazendo sua festa como bem entender, mas sempre junto à torcida local. Mesmo assim, o estádio tem uma personalidade singular que deixa bem clara a importância do clube para a cidade, além de contar com esse pub supracitado que oferece pints muito bem servidos de Carling gelada a duas libras.


Foi ali no Harvester, inclusive, que conheci o Matt e o Jake, dois americanos que, assim como eu, usaram dinheiro que não tinham para ver o Tottenham ao vivo antes do White Hart Lane ser demolido (e também aproveitaram a deixa pra visitar Swansea e assistir o jogo). Conversamos, cantamos, bebemos e finalmente entramos na arquibancada.


Fiquei na quarta fileira depois da linha de fundo, inacreditavelmente perto do gol do North End, onde Wayne Routledge abriu o placar no início do jogo numa bobeira inexplicável da zaga. Pasmem, a corneta dos ingleses é tão afiada quanto a nossa. E a torcida do Swansea, num espírito totalmente diferente do que encontrei lá fora, encheu demais o nosso saco - xingou, cantou alto, tirou sarro e fez o que se espera de uma torcida que vence em seus domínios.


Nunca vi uma partida passar tão rápido em toda a vida. Talvez fosse minha cabeça querendo se livrar do frio congelante que chegava atrás do gol. Meu primeiro encontro com o Tottenham seria uma derrota longe de casa para um time com Sigurdsson, Naughton e Carroll. Era spursy até demais.


Lá pelos 80 minutos, com o 1-0 ainda vigorando no marcador, um cara do meu lado - talvez uns 25 anos, absurdamente parecido com o Daniel Radcliffe - disse que não aguentava mais sofrer tanto toda hora. Em resposta, prometi a ele que, se ganhássemos, eu voltaria pra rodoviária à pé.


Getty Images
Getty Images

No meio dos acréscimos, Sonny marcou o gol da virada heroica dos Spurs


Éter. O quinto elemento. O agente de transmissão de luz e eletricidade. A substância que os gregos acreditavam dar forma aos astros, teoria que obviamente foi derrubada e jogada para o lado poético da história. De um jeito mais moderno e romântico, é a sensação que te faz perder as habilidades motoras por tempo indeterminado: a visão fica borrada, o equilíbrio deixa de existir, a garganta coça e a língua vira um pedaço de carne - o que é divertido, porque o cérebro ainda tá funcionando quase que normalmente. Você pode praticamente assistir você mesmo perdendo a cabeça desse jeito e se comportando como um louco, mas você não pode controlar. É como uma droga. E o Tottenham é o éter. Ou foi ontem, pelo menos.


Foram 135 anos em sete minutos de acréscimo. Uma virada relâmpago no apagar das luzes de um jogo que representou muito bem o que é um nó na garganta. Uma sucessão de gols (todos ali, a três metros dos meus olhos) que marcaram as grandes sensações que o futebol proporciona - desespero, esperança, glória e alívio. Um goleiro ex-Arsenal fazendo cera e se fodendo maravilhosamente momentos depois, nos aplaudindo ironicamente ao fim do jogo enquanto o chamávamos de cuzão à plenos pulmões. Não tinha como ser melhor.


Com uma escalação mista, o Tottenham bateu na porta do time da casa durante o jogo todo. Nada aconteceu. Mas quando a placa dos acréscimos subiu, não houve desespero maior que a coragem e a determinação. Porque ninguém, em momento algum, deixou de acreditar. Nem o Daniel Radcliffe, nem o Matt, nem o Jake, nem o Eriksen, nem o Poch. Ninguém. Então o Swansea, em cinco minutos, teve seus bloqueios totalmente arrombados, e o massacre foi tão fatal quanto sutil. Quick and clean. Taking no prisoners.


Janssen foi fantástico. Saiu do banco, se envolveu e resolveu. Deu uma assistência de letra por baixo das pernas por zagueiro adversário pro gol de Sonny que nos deu a vitória. Dembélé e Dier se provaram ainda mais imensos e Walker foi incansável durante toda a peleja. Alli, sempre fenomenal, marcou seu décimo oitavo gol da temporada ao completar pra dentro um cruzamento de Eriksen - e o dinamarquês ainda deixou o dele pra fechar a conta.


Getty Images
Getty Images

Nada mal para uma primeira vez 


Enquanto o juiz apitava o fim do jogo, éramos mais ou menos três mil cantando “Chelsea rent boys, we’re coming for you!” até resto do estádio esvaziar. E, êxtase à parte, é claro que vai ser muito difícil pegar o Chelsea na tabela. Eles ainda tem uma zona de conforto de sete pontos e esperar que eles percam esse luxo agora é pedir demais - se a última temporada me ensinou algo, é que nunca dá pra confiar que os outros nos façam um favor como esse. A chance perdida pelo desgraçado do John Stones no Stamford Bridge quantifica esse pragmatismo.


Talvez o tom pareça derrotista, mas Pochettino deu a letra depois da virada: “A coisa mais importante é o símbolo. Com esse Tottenham, o negócio não é sobre os nomes atrás das camisas, o que importa é o time. Essa temporada serve pra mostrar que somos um time. Eu não ligo pro que as pessoas dizem ou pensam sobre o clube. Nessa temporada, estamos lutando de novo. Estamos no caminho certo.”


Outra vez, a graça de tudo é viver o drama. É se descabelar enquanto faz contas olhando pra tabela. É não se contentar com um empate fora de casa porque aquilo simplesmente não pode ser bom o bastante. É ver a imprensa colocando fotos de Klopp, Guardiola e Wenger (e não a de Pochettino) na tela quando o assunto é a briga pelo título, mesmo que estes estejam mais perto do West Brom do que do topo da tabela. É poder rir ao ver Antonio Conte desdenhando da capacidade do Tottenham de manter a pegada antes do início do jogo e se contradizendo depois de ver o nosso resultado.


Voltei pra rodoviária à pé, enfim, cantando "Super Tottenham from the Lane" junto com cada um dos torcedores com quem eu cruzava no caminho (e às vezes ensaiando um "We've got Alli!" sozinho, também). Uns cinco quilômetros andando a passos largos com o corpo gelado e a alma mais quente do que nunca. 


Ninguém parece querer ver os Spurs lá em cima. Superficialmente, o mundo dá as costas pra essa evolução (ou revolução) - o puro produto da nossa confiança e persistência. E nenhum de nós deixou de acreditar em nenhum passo do processo. Só eu que, até agora, ainda não consigo acreditar direito no que me aconteceu na noite passada.


A primeira vez a gente nunca esquece. E essa aí, mesmo se eu quisesse, não teria como.