Esse é o Paulinho que o Tottenham dispensou?

Três gols e duas assistências (de calcanhar, diga-se) nos dois jogos que cravaram a classificação da Seleção para a Copa de 2018. Ao lado de ninguém menos que Neymar, Paulinho é o grande destaque do setor ofensivo da equipe brasileira. O mesmo Paulinho que, há dois anos, foi escorraçado para (bem) longe do White Hart Lane num período marcado por instabilidades e incertezas.


Campeão da América e do mundo com o Corinthians e com o gosto do título da Copa das Confederações ainda fresco, Paulinho chegou em Londres como um dos sete medalhões - e provavelmente o mais importante, considerando sua função no esquema de AVB - que os Spurs trouxeram para suprir a ausência de Gareth Bale.


A história todo mundo sabe como foi. O ex-corinthiano teve todo um semestre sendo o dono do time, jogando como queria e onde queria (quase sempre jogando como 10, chegando à meia lua pelas costas do centroavante), mas não rendeu. Ainda titular, teve mais um semestre sendo coadjuvante, geralmente fazendo funções diferentes a cada partida para ver se encaixava em alguma, mas também não rendeu. No final, teve outros seis meses como reserva de luxo, mas jogava tão mal que às vezes nem era relacionado.


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Mesmo sendo um dos craques da Seleção, o meio-campista decepcionou muito nos Spurs



O jogador já comentou em outras oportunidades sobre sua difícil adaptação no clube, as perturbadoras desavenças com Pochettino - que, supostamente por ser um argentino “raiz” que boicota brasileiros, não teria lhe dado confiança ou sequências de jogos - e as constantes decepções no dia a dia. A ideia que prevaleceu após a investida da China foi a de que Paulinho não jogou mal, mas o Tottenham foi quem conseguiu transformar aquele talento puro em um peso morto sem valor; Paulinho não foi incompetente, foi o Tottenham que destruiu a carreira de uma das maiores surpresas desta geração.


A Copa do Mundo, o 7x1, o Dunga, o Guangzhou Evergrande, a crise de identidade nacional, o desespero e o gol do Peru aconteceram em sucessão para que o “injustiçado” meio-campista tivesse sua redenção sob a tutela do mesmo treinador que o fez voar alto cinco anos antes.


Tite chegou na Seleção e apostou de olhos fechados em seu grande medalhão, mesmo que este estivesse perdido num país onde o futebol tem tradição e competitividade irrisórias. Dez partidas (e dez espetáculos) depois do gaúcho tomar conta da amarelinha, Paulinho já voltou a ser namorado por grandes clubes europeus e estampar algum pedaço (a capa é do Neymar e ninguém tasca, não?) do caderno de esportes do dia seguinte ao jogo.


Inteligente, clínico, agressivo e decisivo. O talismã de Tite renasceu e fez milhares de críticos repensarem a história de que não é certo convocar jogadores que atuam, por exemplo, na China. Não dá mais pra imaginar a equipe sem o camisa 15 jogando o que sabe.


Agora, grande parte dos torcedores (e os profissionais também, de certo) do Tottenham têm passado séries de noventa minutos queimando neurônios para descobrir como aquele homem que está desfilando com a camisa da seleção brasileira é o mesmo que não acertava passes de dois metros no White Hart Lane. Mas será que é de fato?



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Há dois anos, recém-chegado na China, o atleta revelou considerar sua primeira temporada no Tottenham “perfeita”; disse que as coisas *só* começaram a desandar realmente quando Pochettino chegou em 2014, depois da Copa. Mas isso não passou perto do que realmente aconteceu.


Sob o comando de André Villas-Boas, Paulinho jogava praticamente na mesma posição em que joga na Seleção de Tite hoje em dia. Suas chegadas ao ataque eram mais do que frequentes e ele funcionava como o grande articulador do último terço do gramado - todas as jogadas depois do meio de campo passavam por seus pés -, já que sua contribuição defensiva era aliviada pela presença de volantes de marcação (Capoue ou Sandro faziam as vezes de Casemiro). Não deu nada certo.


Tim Sherwood chegou e o testou em diversas funções diferentes pela faixa central, flutuando atrás (ou junto) de Eriksen ou dando força para Bentaleb e Mason na primeira linha. O técnico inglês, inclusive, declarou inúmeras vezes seu apreço pelo ex-corinthiano e claramente não poupou esforços para tentar manter o brasileiro na equipe titular. Pasmem, também não funcionou.


Pochettino, quando tomou as rédeas, não viu nada semelhante àquele craque corinthiano e pilar da Seleção que pintavam por aqui. O argentino pegou o meio-campista logo depois do 7x1 e com um ano inteiro de frustração acumulada (pelo menos por parte da diretoria e da torcida). Paulinho seguramente já não estava mais motivado, demorou quase duas semanas para voltar à forma física ideal e não estava impressionando nos treinos. Dizia ter vontade de jogar, mas provavelmente não estava melhor do que os concorrentes - ou a gana por si só já vale um lugar no time titular?


O desgaste começou a ficar nítido. Poch nunca botou fé no brasileiro porque possivelmente nunca chegou a ver aquele puta peixe que lhe haviam vendido. Fez promessas esperando que Paulinho melhorasse - e de fato ele melhorou, mas não foi além da parte física - e acabou sem conseguir honrá-las. A ascensão de Dembélé, o surgimento de Dier e a postura de Mason pesaram na balança e o jogador virou carta fora do baralho.


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Nem essa amarelinha funcionou: Paulinho flopou bonito em sua passagem pela Inglaterra


Esperamos muito de um jogador que sempre nos retribuiu pouco - e por pouco, quero dizer nada além de apresentações medíocres, razoáveis, que qualquer outro jogador da posição poderia ter feito, bem longe do que se imagina daquele projeto de craque que vimos antes de sua contratação. A camisa lilywhite nunca o vestiu muito bem.


Talvez o projeto ou o ambiente ou o time ou a liga ou o frio tenham sido o problema desde o início, mas na Inglaterra, Paulinho nunca foi esse Paulinho que a gente vê jogando na TV. A culpa caiu no colo de Poch e vida que segue. Não é uma pena. O Tottenham está bem melhor sem ele e ele está bem melhor longe do Tottenham.