A última festa e a primeira final dos Spurs

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A última partida de FA Cup da história do White Hart Lane foi uma exibição de intensidade e poder 




Como falei numa outra oportunidade, já estamos com a ampulheta virada vendo a areia cair. Já se foram três meses e uns dias de contagem regressiva e, até junho ou julho, são mais algumas semanas de coração apertado.


De um tempo pra cá, tudo o que acontece no White Hart Lane, acontece com o potencial de ficar marcado como a última ocorrência ou manifestação da história do estádio. O último escanteio cobrado no corner sem grama, a última bola no travessão, o último passe de cabeça para trás, a última falta que era pra vermelho mas não recebeu nem amarelo e por aí vai. Por isso, cada minuto de bola rolando naquele gramado agora é um possível tópico para incluir num almanaque comemorativo ou numa seção do museu da sede. Cada suspiro na N17, até tudo virar pó, é história.


O Milwall foi o escolhido para figurar nos registros históricos como o coadjuvante do último jogo de FA Cup de um dos mais tradicionais estádios ingleses. E o time que todo mundo odeia bem que poderia ter sido protagonista, mas acabou sendo figurante. Isso porque o Tottenham sempre foi um ótimo contador de histórias, e nesse momento tão delicado do script não há espaço para que outro personagem tome (ou mereça) seu lugar sob a melodramática luz dos holofotes.


O sonoro 6-0 ficou de acordo com o tamanho da ocasião. O time de domingo foi aquele tip-top Tottenham que enche os olhos de quem estava procurando distração e faz a gente se sentir grato por acordar cedo no meio do final de semana. Implacável, insaciável, impiedoso e malemolente. A última grande festa com mística de copa na nossa casa foi mais saborosa do que qualquer um poderia imaginar. Pena que teve água na cerveja - mas isso é papo pra outro texto, quando definirem por quanto tempo Kane vai ficar de molho.


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O Wembley, palco da FA Cup daqui pra frente, não nos tem sido favorável 


Mas agora é a hora que o romance dá espaço pra ansiedade, ou pro nervosismo, ou pro medo, ou pro receio, ou pra desconfiança, ou pro… você sabe… Wembley. Pelo menos não seremos mandantes.


Provavelmente o estádio com mais fibra e menos personalidade do planeta. Um grande livro aberto às margens da cidade grande. Não fede nem cheira, troca de cores toda semana, não tem uma cara atemporal e serve de lar para qualquer um que chegar e pedir com jeito, mas é um colosso imponente, edificado no berço do futebol que conhecemos e que exige uma resiliência sobrenatural de quem corre em seu gramado.


Quem nos espera no coliseu londrino é o Chelsea de novo. O time que estava para ser batido e nós fomos os primeiros a bater (e os únicos a adestrar) e mesmo assim deve ganhar a Premier League (provavelmente em cima de nós) com alguma folga. O time que nos venceu na finalíssima, ali mesmo, em 2013 e o time que nós vencemos na finalíssima, ali mesmo, em 2008, mas agora numa semifinal. E semifinal é isso mesmo que a palavra de forma crua sugere: o meio, a metade, o quase, uma porção de uma final. E essa é a final que vai resumir a temporada até que a outra final chegue.


A parte ruim é que o Wembley sempre parece ser mau agouro e o camisa 10 pode não voltar a tempo de ser um trunfo, mas os tabus estão aí para serem quebrados e o Tottenham não se resume só a Harry Kane. Além disso, tem várias coisas muito fáceis de amar nesse time, mas talvez não haja nenhuma outra que deixe meu coração mais quente do que saber o quanto o nosso atual plantel realmente odeia o Chelsea.


Quem sabe a casca grossa desenvolvida pelo time finalmente dê as caras num momento oportuno e de um jeito positivo. Quero poder ouvir “Ossie’s Dream” com um sorriso enorme estampado na cara outra vez.