Tottenham sofre com a síndrome do Arsenal

Na brilhante temporada passada, não consigo me lembrar de três grandes lesões que prejudicaram o Tottenham na caça ao Leicester - se é que houveram três. Se a memória não me falha, Vertonghen, Kane e Dembélé foram os pilares que ficaram de molho por mais tempo (no máximo dois ou três meses) durante aquela jornada.


Mesmo assim, Wimmer foi sólido o bastante pra me fazer querer vê-lo no lugar de Vertonghen no time titular (mas já passou), Son e Lamela quebraram o galho como fazedores de gols enquanto o camisa 10 estava de fora e Alli ou Eriksen quebraram o galho jogando mais atrás na meia cancha.


Agora, na atual campanha, as contusões são, a princípio, um inimigo tão grande quanto o azar, a falta de brio em momentos importantes ou a incrível incapacidade dos suplentes de atingir o nível de qualidade mostrado por seus respectivos titulares. E as perdas simultâneas e subsequentes são novidade para Pochettino; o argentino nunca teve que fazer tantas rotações e improvisações no time principal desde que chegou ao clube.


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Grandes trunfos do Tottenham ainda estão fora de combate, mas até quando?



Danny Rose possivelmente (provavelmente, certamente, indiscutivelmente) é o melhor jogador dos Spurs na temporada. Já perdeu nove jogos desde que ferrou o joelho no fim de janeiro - exatamente no momento em que o time ensaiou uma grande crescente na Premier League. Na sua vaga, entrou Ben Davies, que não tem a habilidade, a capacidade, a intensidade, a sagacidade e a ferocidade do camisa 3. Pochettino até abriu mão de jogar no 3-6-1 - voltou a fazê-lo só na última semana, na goleada contra o Stoke - provavelmente pela falta de aptidão do galês, que cometeu mais falhas defensivas nas quatro ou cinco semanas que esteve no time titular do que a defesa inteira do Tottenham na última temporada.


Lamela era o âmago do setor ofensivo nas primeiras rodadas. Machucou o quadril em outubro e, apesar de ter ameaçado voltar à ativa algumas vezes, ainda treina separado. Já perdeu quase 30 jogos. Nkoudou, teoricamente seu substituto direto, também vive indisponível para seleção. Alderweireld e Vertonghen se alternam nas lesões - quando um volta do DM, o outro sai de campo com a mão na coxa -, tanto que jogaram menos de 20 partidas juntos como dupla de zaga titular nessa campanha. Até Kane já teve seus dias de Pedrinho (aquele) no início da temporada.


Mas, no fundo, o que atrapalha mesmo o desenrolar da história são as indefinições sobre os tratamentos dos jogadores que estão de molho. Lamela, por exemplo, teve que ir a Roma para completar parte de sua terapia, voltou para Londres, foi para a Itália de novo e ainda não se sabe ao certo em que pé que as coisas estavam para ele precisar de processos tão incomuns. Alderweireld, no fim do ano passado, “tomou só um tranco” que o tiraria de apenas um jogo da Champions League na semana seguinte ao ocorrido, mas acabou ficando fora de combate por quase dois meses e meio.


Esse roteiro lembra bastante o cotidiano dos co-irmãos londrinos. As recorrentes lesões dentro do grupo no decorrer da temporada são um baque que time, comissão técnica e torcida já se acostumaram a tomar. Nesse quesito, o Arsenal sempre joga com dados viciados, mas nem por isso se mostra realmente preparado para esse tipo de adversidade.


Já o Tottenham, mesmo sofrendo com essa pesarosa síndrome dos falsos nortistas (em outras palavras, tendo que sobreviver com Dier no miolo da zaga), mantém uma das melhores médias defensivas da Europa (fica atrás apenas de Bayern e Juventus, e equiparado com Villarreal e PSG) e segue à frente dos rivais na tabela da Premier League.


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A defesa é o setor mais prejudicado; lá atrás, só Carter-Vickers (terceiro reserva) ainda não se contundiu nessa campanha


Se não estivéssemos tendo que lidar com tantas baixas importantes, a briga pelo título certamente seria uma realidade mais tangível. Estamos sendo forçados a aprender do jeito mais dolorido como é querer estar no topo, poder estar no topo, mas ter de contentar com o quase por impedimentos físicos (pra não voltar a falar da apatia).


Sorte a nossa que nem sempre é assim. O segredo, no fim das contas, é só não deixarmos isso cair numa zona de conforto até chegar o ponto em que terminar o campeonato à frente do “pequeno rival” vira uma conquista.