Quem tem o melhor custo-benefício da Premier League?

Mesmo em meio à frustrante má fase e a amarga (mas não necessariamente inesperada) eliminação na Europa League, o prezado leitor Lúbio Guimarães me sugeriu dar uma olhada para o valor do Tottenham no inflacionado e astronômico mercado da Premier League para provar que, talvez, o melhor custo-benefício do campeonato esteja no White Hart Lane.


Getty Images
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Pelo valor investido, no papel, o Tottenham é o time mais eficiente da Inglaterra?


Pra começar o ensaio, tiramos o grosso: é indispensável saber quanto vale cada elenco do campeonato inglês - e os números aqui, baseados nos dados do Transfermarkt, vão considerar o valor de mercado de cada grupo, não o valor pago por cada time em cada jogador.


O time mais caro da Premier League é o Manchester City, valendo £446 milhões. Em seguida vem Chelsea (£437m), Arsenal (£418m), Manchester United (£400m), Tottenham (£364m) e Liverpool (£315m). Abaixo - e já abaixo da casa dos 200 milhões de libras - seguem Everton, Southampton, West Ham, Leicester e por aí vai.


Quando o saldo (aí sim, os gastos) entra no lugar do valor de mercado, o cenário é quase o mesmo. O Manchester City segue na ponta - agora como quem mais gastou na temporada - com £174m no recibo, seguido por Manchester United (£149m), Chelsea (£122m) e Arsenal (£96m). Tottenham (£70m) e Liverpool (£69m) fecham o cerco do top 6.


No alto da tabela, portanto, o Liverpool é o único que fica no páreo conosco nesse quesito; valendo quase £50m a menos, os Reds estão só um ponto abaixo de nós na tabela. O Chelsea, aliás, também deve ter seu trabalho exaltado; mesmo estando no pódio dos mais valiosos e mais gastões, investiu menos do que os co-irmãos de Manchester e se mantém isolado na ponta.


Mesmo assim, quem ganha na briga geral, proporcionalmente, é o West Brom. Antepenúltimo na lista dos mais valiosos (avaliado em £85m), o time de Tony Pulis é o oitavo colocado no campeonato. Junto aos Baggies, outro time que merece destaque é o Burnley, cujo valor de mercado é o menor da Premier League (£72m), mas a equipe faz boa campanha no meio da tabela - atualmente em 12º lugar.


Reprodução/One Hotspur
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Aprofundando um pouquinho a análise, nota-se que na parte de cima da tabela, o Tottenham é o único time que, por incrível que pareça, não teve nenhuma desvalorização no preço de mercado dos jogadores. Nenhuma mesmo. Zero. Nem o Sissoko, que é o Sissoko, diminuiu nas cifras, sabe-se lá como.


O Manchester United, por exemplo, não teve nenhum atleta que sofreu aumento em seu passe - todas as alterações de valores de mercado dentro do elenco dos Red Devils foram negativas, inclusive. Manchester City, Liverpool, Arsenal e Chelsea equilibram altas e baixas nos montantes.


Enquanto Sánchez e Bellerín tiveram aumentos significativos em suas etiquetas, Gibbs, Mertesacker e Cech puxaram a média do Arsenal pra baixo. Se Bravo, Otamendi e Navas estão cada vez mais desvalorizados, Gabriel Jesus e De Bruyne aliviam a barra do City. No Liverpool, o poderoso setor ofensivo soma mais de £20 milhões de alta, mas toda a defesa puxa o tapete. Já o Chelsea, apesar de estar voando na liderança, costuma comprar jogadores já muito valorizados, então não viu grandes alterações positivas nos dígitos de seu plantel. 


Em função disso, o Tottenham é o time com o melhor saldo na valorização dos preços de seus jogadores nessa edição da Premier League. Só do fim do ano passado até aqui, as variações (todas positivas) de boa parte do esquadrão já renderam mais de £53 milhões em valor de mercado. Os destaques ficam para Rose, Alli e Kane, que juntos somam mais de £25 milhões em sobrepreço - mais do que a média de Arsenal, Liverpool ou Manchester City, pra se ter ideia - só nessa campanha.


Se contarmos as últimas três temporadas, o cenário não muda. Jogadores de Chelsea, Arsenal e Manchester City têm ótimas crescentes nesse intervalo, mas o Tottenham se mantém isolado no topo graças a casos como o de Dier (de £4m em 2014 para £20m em 2017), Alli (de £3m em 2014 para £35m em 2017) e Kane (£2m em 2014, £42m em 2017).


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Dinheiro mal investido faz parte (imagem meramente ilustrativa)


Postas as questões acima, me surge a margem pra falar, enfim, sobre o tal do custo-benefício - por definição, a relação entre três grandes pilares: investimento, valor gasto e lucro.


O método de investimento dos Spurs se diferenciam do resto do pelotão de cima - e ao analisarmos o dito cujo, cada um pode ver o copo meio cheio ou meio vazio que preferir ou conseguir. A mão de vaca de Levy e as economias para o novo estádio, somadas ao preciosismo de Pochettino com sua polêmica opção por manter um elenco curto, fazem com que, inevitavelmente, o clube gaste menos do que seus concorrentes no topo da tabela. Em vez de buscar craques prontos, o Tottenham garimpa diamantes brutos (à altura de seu poder aquisitivo) para lapidá-los à sua maneira.


O valor gasto nas transferências talvez seja o terço mais sólido do tripé. Daniel Levy, no papel, não costuma fazer maus negócios - geralmente, seus maus negócios começam como bons negócios e se tornam maus negócios depois da bola rolar, ou seja, a culpa não é dele e sim de quem indicou e bancou a contratação do perna de pau em questão. Gastos em negociações nunca foram dor de cabeça para ninguém, exatamente porque todo mundo sabe que o presidente é do tipo que tenta pechinchar em loja de um real.


Já o lucro - o rendimento de cada jogador que chega - é o ponto delicado da trama. Isso porque o futebol é tudo, menos uma ciência exata. Por mais que o investimento seja inteligente e seu valor seja bem trabalhado, nem sempre o retorno é positivo. É possível ilustrar perfeitamente esse parágrafo com aquela foto de Paulinho, Eriksen, Soldado, Chadli, Capoue, Chiriches e Lamela perfilados ao final da janela de verão de 2013. The Magnificent Seven. “O Tottenham vendeu o Elvis e comprou os Beatles e os Stones!”. Ninguém esquece. Eram tempos mais inocentes, de fato. Mas apesar do episódio ter ficado pra trás, o enredo muitas vezes se repete. Janssen e Nkoudou são as bolas da vez. Pelo menos Wanyama e a tabela da Premier League estão aí pra equilibrar a balança.



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Dissecando ponto por ponto, enfim, fica evidente que o Tottenham tem um custo-benefício invejável - provavelmente o melhor entre o pelotão de cima do campeonato -, mas ainda falta muito custo e muito benefício para incomodar de verdade aqueles que, mesmo pecando (ou não acertando tanto) na delicadeza das equações, não tem o pecho frío que os Spurs têm quando a história sai do papel.


O Chelsea, por exemplo, por mais artificial que seja em caráter, conseguiu criar uma identidade forte o bastante para tirar do papel os planos que desenhou nos anos 90. O Manchester City, outro de grandeza sintética, é responsável por um dos momentos de insanidade e êxtase mais incríveis dos últimos anos no esporte, justamente porque encontrou seu ponto de ebulição de uma maneira que foge à razão, à estratégia e aos minuciosos planejamentos.


O planejamento bem feito pavimenta o caminho para o topo, mas ninguém consegue percorrê-lo sem ter a fibra e a alma necessárias - a parte inexata do jogo, a envergadura que não se desenvolve com projetos brilhantes ou austeridade financeira e que não pode ser construída em outro lugar além do gramado. O Tottenham conseguiu o suporte, tem a segurança e já sabe brigar; agora só falta aprender a ganhar.