A FA Cup é a luz no fim do túnel para os Spurs

Não é de hoje que integrantes do elenco dão as caras para a imprensa proferindo sem pudor nem embaraço aquela palavra que começa com T. Eu mesmo já a declamei aqui algumas vezes como se não fosse uma combinação de letras nefasta e ominosa. Fui ingênuo. Aquela palavra, assim, solta no ar graças a nada além dos mais instáveis sentimentos humanos (a esperança, principalmente), é mau agouro.


Fato é que, se os insucessos tomarem o lugar dos triunfos, como aconteceu nas últimas temporadas (talvez porque cansamos de falar aquela palavra que começa com T), esse grande elenco inevitavelmente será desmontado. Reciclado, de preferência. E talvez para melhor. Mas essa unidade constituída por Pochettino, especificamente, será desmembrada e dissolvida. A cena do argentino vibrando com a torcida no Etihad e Harry Kane falando “never give up” para si mesmo vão deixar de ser combustível para virar memória. E o futebol é assim mesmo, feito de ciclos com início, meio e fim. Mas a narrativa desse Tottenham precisa de um clímax, e o tempo, esse maldito impaciente, está nos forçando a correr atrás do dito cujo o quanto antes.


Getty Images
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Enquanto a Premier League parece mais ganha a cada dia que passa - mesmo que eu, palmeirense que sentiu na pele o revés de 2009, ainda tenha uma pulga atrás da orelha quando o assunto é uma vantagem de mais de dez pontos na liderança -, em contrapartida, a necessidade de consolidar nosso progresso com uma conquista palpável vai ficando mais gritante. Aquela ânsia crua já é real e a chegada da angústia (lembra dela?) é questão de tempo.


Mas não é só a grande liga que vale na conta. Por mais que a supervalorização do campeonato inglês tenha deixado os torneios domésticos paralelos longe dos holofotes, as taças das copas ainda tem muito valor.


Horrivelmente nivelados com o Sunderland no marcador, amassados por Liverpool e Gent, conquistando três pontos sem sal contra o Middlesbrough e uma vitória heroica na copa contra o pequeno Wycombe pra contar história. Parece que voltamos algumas décadas no tempo - exceto pelo fato do Chelsea, que tinha relevância mínima no contexto do futebol britânico até os anos 90, estar folgado no topo da liga. Parece a época em que a FA Cup valia tanto quanto qualquer outro título possível. E para nós, agora, ela vale.


A copa mais antiga da história do esporte é a luz no fim do túnel para uma equipe que precisa de um marco para se consolidar entre as inesquecíveis e para uma campanha que, analisando friamente, nunca esteve de fato nos trilhos esperados - até nos pontos altos, sempre ficou a sensação de que estava faltando algo.



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Depois de golear o Fulham, pegaremos outro tradicional clube londrino - o Millwall, eternizado pelo “Green Street Hooligans” - daqui a três semanas nas quartas de final. Em caso de vitória, para as semis, podemos ter Arsenal, Chelsea ou Manchester United e possivelmente o Manchester City. Não vai ser fácil e não poderia ser diferente. Mas já aprontamos peripécias tão grandes quanto essa pode ser, com roteiros tão complicados quanto esse está sendo.


Mesmo que hoje a imagem tenha se perdido, o Tottenham tem fibra de time copeiro. As dezenove conquistas domésticas (sem contar ligas) falam por si. Por isso, a um passo de cada vez, a caminhada para Wembley em maio pode se concretizar para servir como o grande legado de um time que, caso se desmanche sem ele, será lembrado como um dos injustiçados pelo fadário que rege o futebol.