Tottenham x Liverpool e o retrato de um dia ruim

A frustração pós-atropelo me tirou um pouco da sanidade e sensatez, confesso. Decidi vir me retratar com a cabeça no lugar. E minha opinião, na verdade, não muda tanto assim. Mas depois depois de ler os comentários da análise arrogante e de engolir a derrota em definitivo, minha mente mais clara pode aliviar a barra que pesou no último texto.


Não é arrogância dizer que sempre há só um vencedor quando o Tottenham realmente joga o que sabe. Nos últimos dois anos, não me lembro de mais de três jogos que me provem o contrário - até alguns empates tiveram um gostinho glorioso por conseguirmos tirar o doce da boca da criança. O Chelsea nos estrangulou uma vez, o West Ham nos segurou outra vez e aquele Leicester com GameShark também o fez. E não tenho problemas em assumir essas falhas.


Inclusive, quanto mais eu penso nos argumentos que li, mais eu me vejo inclinado a aceitar que o Liverpool nos encurralou contra as cordas do ringue. A movimentação, os passes rápidos e a urgência do time de Klopp foi primorosa durante a maior parte da pelada - é até interessante ver como o bom jogo deles, de certa forma, se assemelha ao nosso. Mas acontece que nós somos mais do que capazes de botar bons times na gaiola, constantemente contendo, cozinhando e punindo qualquer equipe em qualquer sistema, por isso me recuso a acreditar que os Reds foram superiores a nós em nosso estado normal.


Não retiro o que eu disse sobre o mérito da derrota ser mais nosso do que do time que nos venceu. E não porque o Liverpool - que não é um time de meio de tabela, agora que o recalque passou - só jogou razoavelmente bem, ou porque eu não quero dizer que o Tottenham foi engolido - porque indiscutivelmente foi, e sem margem pra retrucar. Mas sim porque nós já lutamos contra adversidades ainda maiores em partidas nas quais estávamos jogando como um time de interclasses (lembra desse último jogo contra o City?). No Anfield, porém, uma série de fatores (lesões, azar, substituições, escalação, insegurança, desconfiança e um dia ruim) impediu que a volta por cima se materializasse.


Wanyama, que até ganhou texto para ser exaltado na semana antes da partida, foi o pior em campo. Kane estava desconectado do grupo. Sonny nem fedeu, nem cheirou. Alli e Eriksen se perderam no vazio que Wijnaldum deixou pra brilhar lá na frente e ninguém reparou porque ninguém precisou reparar, já que nenhum dos dois fez barulho em suas costas. E como já pontuei, as poucas coisas que deram certo para nós anularam os trunfos do adversário: Walker deixou Coutinho quieto nas jogadas individuais, Dembélé segurou Mané quando foi deslocado para a esquerda e Alderweireld fez Firmino se limitar a um mero pivô.


Getty Images
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Por tudo isso, insisto: nós é que deixamos o Liverpool jogar, não o contrário. Nossa gritante apatia, evidente desde o primeiro segundo de bola rolando, lhes deu de presente toda a virtude e confiança para que jogassem com a liberdade que eles precisavam para se provarem (para si mesmos e para sua torcida) depois de uma série de resultados ruins. Eles jogaram com um propósito e o usaram como combustível, bem como nós fazemos geralmente - e isso, no fundo, é o Santo Graal do futebol.


Aproveitaram que o dia de sorte deles coincidiu com o nosso dia de azar. E é difícil lutar contra a fortuna. Por isso que, num demon day como este último sábado, ninguém pareceu ter forças para ostentar nossa vontade de vencer. Essa vontade pendeu para o outro lado e nós nos deixamos ser dominados - e eles o fizeram com imponência, inteligência e intensidade.


Continuamos perdendo mais jogos por termos um dia atípico do que pelo adversário conseguir nos colocar no chão - mas isso não é demérito para Klopp e companhia, já que eles foram um dos únicos que conseguiram nos manter no chão. Mas, de novo, esse é o futebol sob um olhar mais frio; ou você comete erros, ou toma vantagem sobre eles. O melhor ataque do campeonato enfrentou a melhor defesa (digo, metade dela) do campeonato e levou a melhor.


Foi a nossa terceira derrota da temporada. Nove pontos perdidos. Pontos que marcam a diferença entre onde estamos e onde queríamos (e poderíamos) estar. E o único padrão entre estes cenários adversos foi o Tottenham estar completa e desesperadamente fora de si. Mas eu já vi o bastante para saber que esse time tem o bastante para levantar, se reequilibrar e voltar à busca pelo ponto de ebulição.


Quanto a este que vos fala, fica o sincero pedido de perdão pela quase desrespeitosa verborragia recheada de rancor e clubismo. Cabeça quente, provocações, textos com hashtags... Ninguém aguenta se manter são. Mesmo assim, mantenho o pé firme no que acredito como torcedor e discordâncias são sempre bem-vindas. Sabe como é: All it takes is one bad day.