SPFC e Uruguai: uma história de muitas décadas

Diogo Salles
Diogo Salles


Em tempos de Copa, é uma boa hora para perguntar: por que, afinal, existe essa identificação entre o São Paulo FC e o futebol uruguaio? Indo pelo caminho mais óbvio, basta olhar os craques da Celeste Olímpica que tiveram passagens vitoriosas pelo Tricolor. Pablo Forlán, Pedro Rocha, Dario Pereyra e Diego Lugano nos deram muitas alegrias. Mas será que existe algo mais? Esse era um dos mistérios que eu queria descobrir em minha recente viagem a Montevidéu.


No dia em que cheguei à capital uruguaia, não consegui ingresso para o jogo do Peñarol pelo campeonato local. Para piorar, o museu do estádio estava em reformas e, portanto, não poderia receber turistas. Mas a vingança é um prato que se come frio. Um frio de 11º C, no caso. Quatro dias depois, eu e outros dois brasileiros que estavam no hotel fomos ao Estadio Centenario para ver Defensor Sporting contra o Nacional de Medelin, pelas quartas de final da Libertadores. O ingresso custou 200 pesos uruguaios (20 reais) e ficamos nas cadeiras abaixo da tribuna. De lá, a visão é equivalente às cadeiras térreas do Morumbi.


Diogo Salles
Diogo Salles


Como eu não conhecia muito bem o Defensor Sporting, aproveitei o jogo para me inteirar sobre a história do clube. O torcedor ao meu lado explicou que a faixa escrito “Defensor cambió la historia” é porque o time foi o primeiro a quebrar a hegemonia do Peñarol e do Nacional o Campeonato Uruguaio. Com um detalhe: o tal título aconteceu em 1976, o que talvez explique a faixa estar um tanto desbotada. Mesmo com uma torcida diminuta, o time contou com o apoio dos demais torcedores do país e o público foi de 25 mil pessoas.

O jogo foi pegado, típico de Libertadores. Mas eu não estava lá para analisar a qualidade técnica dos jogadores. O que valia ali era conhecer o mítico Estadio Centenario, construído para sediar jogos da Copa de 1930 e palco na primeira final de Copa do Mundo. Quando deu 30 minutos do segundo tempo, fomos até a entrada da tribuna e convenci o segurança a nos deixar ver os últimos minutos de lá. E aos 44 minutos, num contra-ataque rápido, o Defensor marcou o gol do jogo. Não sei ao certo porque, mas, na hora, comemorei. Talvez porque a ideia de o jogo terminar 0 a 0 me incomodava.


Diogo Salles
Diogo Salles


A infraestrutura do futebol uruguaio é mais modesta do que o rancho do presidente Pepe Mujica. O próprio Centenario é só 10 anos mais velho do que o Pacaembu, mas parece 100. As bilheterias, os banheiros, as próprias cadeiras (de pedra) remetem a um tempo remoto da história do futebol. Na volta do jogo, o taxista explicou que não se pode fazer reformas no estádio porque ele foi tombado como patrimônio histórico. Fora que os outros estádios do país são ainda mais acanhados. Já a liga uruguaia é, basicamente, igual ao campeonato gaúcho: dois times e o resto. A disputa fica sempre entre Peñarol e Nacional. Vez ou outra, vence o Danúbio (que seria o Juventude) – como ocorreu neste ano, em que conquistou o quarto título de sua história batendo o azarão Wanderers (campeão do Clausura).


O resultado de tanta precariedade é visível mesmo a quem nunca foi ao Uruguai: todos os bons jogadores jogam fora do país. Basta ver a lista dos convocados que estão jogando esta copa. Nem nos grandes clubes há sequer um jogador mais conhecido. No Brasil ainda temos um ou outro bom jogador, mesmo que em fim de carreira. Ronaldinho, Rogério Ceni, Ganso, D'Alessandro, Luis Fabiano, até pouco tempo tinha Seedorf no Botafogo. Na seleção brasileira ainda foram convocados o Jô, Vitor e Jefferson (e até o ano passado, Bernard, Paulinho e Henrique jogavam aqui). Na própria seleção do Uruguai tem o Eguren, do Palmeiras, e o Álvaro Pereira, do nosso SPFC. Lá não tem NADA. Ninguém joga lá.


O futebol para os uruguaios é uma paixão, como é para nós. A diferença é que eles, por serem um país menor, são mais unidos e fazem de sua seleção um símbolo de uma identificação nacional. A seleção brasileira perdeu essa conexão aqui e para a grande maioria se tornou apenas uma boa desculpa para largar o trabalho e “ir pegar um café”. É quase inacreditável o que se habla de fútbol na terra deles. Se você ligar a TV uruguaia, não verá os Datenas do jornalismo policialesco faturando em cima do masoquismo do público. Verá senhores de gravata analisando a liga uruguaia às minúcias. Melhor comparado, é uma devoção parecida à nossa por nossos clubes, com a diferença de que aqui cada um defende apenas os seus interesses. Lá, se eles precisarem deixar as diferenças de lado e se unir, eles o fazem.


Diogo Salles
Diogo Salles


Se puxarmos pela memória, todos os uruguaios que fizeram história no SPFC criaram uma grande identificação com o clube. Em tempos de liquidações e saldões no "mercado da bola", fazem falta jogadores que enxergam a expressão "vestir a camisa" além de colocar o uniforme e ir jogar. Não há exemplo melhor disso do que ver Pablo Forlán desejando que seu filho Diego encerre a carreira no São Paulo. É por isso que nós, tricolores, passamos a gostar do Uruguai. Não são só alguns caras que estiveram aqui de passagem, à espera de um contrato melhor na Europa. Vieram aqui para ficar, vencer e fazer parte da nossa história. Em minhas andanças pelo centro de Montevidéu, aprendi mais sobre a história deles também. Sem falar que Pepe Mujica é talvez a única figura política admirável que sobrou nesse mundo depois da morte de Nelson Mandela.


Então essa é a minha deixa para fechar o post: temos aqui a oportunidade perfeita para reforçar o #voltaLugano. Espalhem a notícia!