Torço para o São Paulo, não para a seleção

Diogo Salles
Diogo Salles

Já há algum tempo eu não torço para a seleção, apenas para o São Paulo (e antes que você pergunte, não, essa camisa SPFC+Seleção em homenagem à copa não me pegou). Reconheço, porém, o valor histórico da “pátria de chuteiras” de Nelson Rodrigues. A ideia fazia sentido nos anos 50, mas pereceu, ficou datada. Hoje a “síndrome de vira-latas” virou “síndrome de poodle” – e um poodle bem chato, daqueles de madame, que latem por qualquer coisa.


Lembro de ter visto, ainda nos idos dos anos 90, uma pesquisa que revelava que a maioria dos torcedores preferiam ver seu time campeão nacional do que ver a seleção levantar outra copa. A identificação com a seleção se perdeu no tempo. Parte disso se explica pelo fato de que hoje, muitos jogadores “surgem” para o público brasileiro justamente vestindo a camisa amarela. Ou seja, não há mais tempo para criar um vínculo com ninguém por aqui. Não há tempo para ele jogar no Brasil, ter seu nome gritado pela sua torcida, nem xingado pelos adversários. Não há mais tempo para amores e ódios. Só sobrou a distância de quem foi muito jovem para o exterior vencer na vida.


Torcer para o São Paulo já é deveras desgastante. Lidar com os problemas nessa zaga e cornetar os juvenais juvêncios é uma ocupação em tempo integral. Já torci pela seleção em outros tempos, claro. Mas não era uma torcida totalmente comprometida. Torcer pela seleção na copa era como tirar um mês sabático de nosso time do coração. E antes de vestir a amarelinha, era preciso sempre desviar o olhar e relevar as discussões mesquinhas sobre o valor da premiação dos jogadores, a superexposição dos boleiros-celebridade, os arroubos de nossa imprensa pacheca e as monstruosidades dos ricardos teixeiras, da Fifa e da CBF.


Mas agora o buraco é bem mais embaixo. Dessa vez não há meios de desviar o olhar. Para qualquer lado que se olhe, só veremos copa. As políticas públicas, a mobilidade urbana, a economia, os orçamentos, todo o país está dependurado nessa copa. “Será a Copa das copas”, diz o consórcio Fifa/CBF/governos/empreiteiras, mas a versão oficial foi rechaçada pela opinião pública. Nas ruas, o verde e amarelo divide a paisagem com o “black” dos blocs e com grafites críticos ao evento. Nas redes sociais vomita-se o chorume do extremismo, tanto contra quanto a favor. O sentimento anti-Copa rachou a torcida em pedaços. Enquanto uns se acotovelaram para serem sorteados para os jogos, outros estão na rua berrando “FIFA GO HOME”. Mas a maioria vai mesmo se esgueirar pelas frestas da luta política e torcer normalmente, no conforto de suas casas, suas vidas.


Recentemente tive a honra de participar do podcast do Blog Esporte Fino onde tratamos do assunto. Além de fazer um jabá do meu novo livro Trágico e Cômico – os protestos em charges (ops, escapou de novo), expliquei as razões pelas quais não torcerei pela seleção nesta copa. Não, não tem nada a ver com a Dilma e nem com as eleições. O Brasil é provavelmente o único país do mundo onde há pessoas que torcem para a seleção querendo reeleger um governo e há pessoas que torcem contra querendo derrubá-lo.


A questão é muito maior e mais complexa do que essa mesquinhez eleitoreira: para um povo que sempre confundiu o público com o privado e ainda mistura política com religião, é muito pouco provável que a vitória nessa copa não seja encarada como uma quase sanção oficial da Lei de Gérson. Já posso até prever o grito do orgulho macunaíma: "que se dane se teve corrupção, o importante é que ganhamos o hexa!". Seria a vitória inconteste do pensamento tacanho que subscreve o jeitinho brasileiro. Vimos em cores vivas um bom exemplo disso na final do campeonato carioca deste ano, onde o goleiro Felipe comemorou o título com um sintomático "roubado é mais gostoso".


É uma questão cultural, enfim. Nada pessoal contra os jogadores do escrete. Estamos diante de algo muito mais importante aqui. Já a copa – essa copa, especificamente – deixou de ser uma questão do ludopédio, para se tornar um debate sobre o país. Portanto, que assim seja. Torço sinceramente para que os jogos sejam bons, para que os turistas sejam bem recebidos e para que não haja violência, mas acaba aí. Também não vou criticar nem patrulhar quem quiser torcer pelo Brasil, pois todos têm o direito de expressar sua opinião. E a minha é que uma vitória nesse momento seria uma esquizofrenia no país que deitou no divã para refletir sobre suas prioridades e vive o dilema de escolher qual dos vários Brasis quer ser daqui para frente.