Divisão 2016 ou União 2017 – o dilema das torcidas organizadas do São Paulo

Diogo Salles
Diogo Salles


Elogiar torcidas organizadas, sabemos, é sempre uma empreitada de altíssimo risco. É como elogiar políticos: uma semana depois o sujeito aparece nas páginas policiais. O que me motiva a ponderar sobre o assunto é que até 2016 havia uma clara dicotomia entre organizados e não-organizados dentro do universo tricolor. A primeira rachadura mais visível apareceu lá em 2004, quando as organizadas se vestiram de amarelo e tomaram o tobogã do Pacaembu para cornetar Rogerio Ceni e Luis Fabiano pela perda da Libertadores para o Once Caldas. Nos outros setores do estádio, os não-organizados reagiram e passaram a hostilizar os organizados.


De lá para cá, com maior ou menor repercussão, ocorreram outros incidentes em que essa divisão ficou clara. Mas nenhum deles se equiparou ao ocorrido em 6 de julho de 2016, na saída do Morumbi na semifinal da Libertadores. As grotescas cenas ficaram na memória de quem viveu aquela noite: um coquetel feito de pedras, garrafas e bombas num cenário de assaltos, agressões e emboscadas.


O ano de 2016 foi ilustrativo do comportamento errático da organizada são-paulina. Pouco depois da sombria noite no Morumbi, os organizados, incitados por um ator global, invadiram o CT para agredir jogadores. Foi esse incidente que me trouxe a reflexão: a situação do São Paulo nos Brasileiros de 2016 e 2017 é bastante semelhante, mas o comportamento das organizadas nas duas ocasiões é diametralmente oposto. E isso alterou toda a configuração dos dois cenários. Difícil encontrar no arquivo histórico um time tão mal posicionado na tabela batendo recordes de público. Também não temos visto relatos recentes de pancadaria e incidentes entre tricolores em dias de jogos.


Em vez disso, só reportagens exaltando o papel crucial que a torcida tem tido na recuperação do time no campeonato. Um círculo virtuoso de lotações até em treinos, apoio incondicional e exaltação por parte dos jogadores. A "escolta" liderada pela organizada ao Pacaembu no último sábado mostrou que organizados e não-organizados, enfim, estão onde sempre deveriam estar: do mesmo lado, apoiando e colocando o time em primeiro lugar.


É difícil admitir isso, mas não há como negar que as organizadas têm um poder enorme em determinar para que lado vai o noticiário sobre o clube – seja na imprensa, seja nas redes sociais. Vejam o que acontece nesse momento com o líder do campeonato. Quando o clima azeda entre clube e torcida, já sabemos qual é o roteiro: públicos cada vez menores, ameaças, perseguições, instabilidade política, jogadores acuados, contratos rompidos, perda de prestígio e, no limite, perda de campeonatos.


Os últimos anos não têm sido fáceis, mas 2017 talvez tenha sido pior, pois além de o time seguir sua via crúcis contra o rebaixamento, dessa vez tivemos nosso maior ídolo queimado em praça pública, o que jogou ainda mais gasolina na fogueira de ódios e ressentimentos dos rivais. Talvez esse fato tenha sido o catalizador da mudança de atitude da nossa torcida.


Estávamos feridos e, naquele momento, todos os são-paulinos parecem ter entendido que só nos restava dois caminhos. O da guerra entre os "soberanos" ou o da união pelo Clube Da Fé. Felizmente optamos pelo segundo, o que só foi possível porque as organizadas deram o primeiro passo. A mensagem “Juntos somos mais fortes” ganhou significado não porque o marketing subiu a hashtag nas redes, mas porque a torcida enxergou o que estava em jogo naquele momento e chamou para si o protagonismo (ou JERARQUIA, como diria Patón).


Claro que, quando o ambiente estiver mais calmo e o São Paulo voltar a ser candidato a títulos importantes, as coisas tendem a se acomodar e cada lado vai tentar impor a sua agenda. De qualquer modo, entendo que num futuro próximo as organizadas têm uma escolha a fazer: podem seguir a trilha atual, de puxar e liderar o coro favorável ao time; ou retomam sua antiga vocação à divisão e à violência.


Qualquer que seja o caminho escolhido, espero que pensem antes que tipo de ambiente querem ver no clube, que tipo de time querem ver em campo e que tipo de notícias querem ler sobre o SPFC. Se juntarem todas as peças do quebra-cabeça, chegarão à mesma conclusão que chego aqui: a verdadeira dicotomia nunca foi de organizados contra não-organizados, mas sim de organizados contra eles mesmos.


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