SPFC x Palmeiras: 75 anos de boatos, mágoas e mal entendidos

Diogo Salles
Diogo Salles


* AVISO: antes de fazer qualquer juízo de valor (sobre o tema ou sobre a tirinha acima),
é recomendável ler o texto até o final



A grandeza de um clube também se mede pelo tamanho de suas rivalidades. Para boa parte dos são-paulinos, nosso maior rival é o Corinthians, mas talvez isso seja cíclico, da mesma forma que na Era-Telê o grande rival era o Palmeiras de Luxemburgo. Mas a rivalidade que trato aqui não tem a ver com ciclos, e sim com a história, e ela aponta que temos muitos assuntos mal resolvidos com o clube alviverde.


Muito se fala sobre as origens que levaram o nosso rival a nos tratar como inimigos a serem aniquilados. O sentimento encontrou reciprocidade do outro lado do muro do CT. Para piorar, tudo o que sai na imprensa vem coalhado de erros factuais (isso quando não é má fé). Certamente é um tema que ainda carece de contextualização.


Para isso, convidei três das melhores cabeças para se debruçar sobre a questão. Para começar, Felipe Queiroz, jornalista freelancer e autor do livro Os Reis do Pacaembu, nos traz uma cronologia dos fatos. Seguimos com uma voz dissonante e cheia de contexto de um colega aqui de ESPN FC: Leandro Iamin, jornalista do blog O Periquitão. E fechamos com Alexandre Giesbrecht, do blog Jogos do São Paulo e autor de três livros sobre o SPFC, num vídeo esclarecedor.


E aos que perguntarem “por que um palmeirense num blog são-paulino?”, respondo que o debate sobre futebol deve ser feito com a cabeça, e não com o fígado.


Com a palavra, Felipe Queiroz:



Os bastidores do que ficou conhecido como Arrancada Heroica são geralmente relatados com paixão, mas sem o rigor jornalístico que merece o caso. É uma história complexa, que vai bem além dos campos, e envolve questões maiores, de geopolítica e segurança nacional. Um caso que precisa ser contextualizado para ser entendido.


Fundado em janeiro de 1930, o São Paulo Futebol Clube estabeleceu já de cara uma rivalidade intensa com o Palestra Itália. A animosidade entre os clubes naqueles primeiros dias surge em parte da disputa pela hegemonia futebolística da primeira metade dos anos 30, mas, nasce, fundamentalmente, como herança da rixa de Palestrinos com outro clube, o Paulistano, tradicional agremiação da elite paulistana, que abandonara o futebol em 1929, por não concordar com a popularização do esporte. Decisão que culminou com o nascimento do Tricolor, fundado por jogadores e torcedores que discordavam da atitude elitista do Paulistano.


Paulistano e Palestra por vários anos se envolveram em brigas políticas pelo domínio dos bastidores do futebol paulista. E o São Paulo, embora nascesse com uma visão ideológica oposta, era visto pelos palestrinos e por grande parte da comunidade futebolística como sucessor do “Glorioso”. Em outras palavras, um rival político.


O Palestra, com fortes ligações com a colônia italiana, sofria as consequências de uma relação difícil com Governo Federal. Problemas que vinham desde novembro de 1937, com o surgimento do chamado Estado Novo – regime de orientação nacionalista que via com maus olhos clubes e agremiações identificados com outras nações – e aumentaram dramaticamente com a declaração de Guerra do Brasil contra os países do eixo: Alemanha, Itália e Japão, em agosto de 1942.


Eis uma pequena cronologia de acontecimentos para entender melhor o contexto:


1937 – Pela primeira vez, a Società Sportiva Palestra Italia é aconselhada pelo governo federal a mudar de nome. A informação está presente no livro: Palmeiras - Morre Líder, Nasce Campeão, de Fernando Razzo Galuppo.
1938 (18 de abril) – Vargas promulga leis que regiam desde a entrada de estrangeiros, processos de naturalização e até impedia atividade política, ou seja: associar-se a outros se valendo um ideal, símbolo ou língua estrangeira (Decreto-Lei nº 383).
1939 (1º de setembro) – Início da 2ª Guerra Mundial.
1941 (22 de março) – o navio brasileiro Taubaté é atacado por um avião da Luftwaffe, quando navegava pelo mar mediterrâneo.
1942 (27 de janeiro) – Palestra Itália envia ao governo relatório com descrição das atividades do clube.
1942 (28 de janeiro) – Rompimento das Relações Diplomáticas com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
1942 (29 de janeiro) – Palestra Itália anuncia a demissão de todos os diretores do clube com nacionalidade italiana.
1942 (11 de março) – Promulgação do decreto 4166, segundo o qual bens de alemães, italianos e japoneses (pessoas físicas e jurídicas) poderiam ser confiscados e empregados pelo governo brasileiro.
1942 (13 de março) – Società Sportiva Palestra Itália mudou o nome para Sociedade Esportiva Palestra de São Paulo.
1942 (Agosto) – Em apenas dois dias, seis navios mercantes nacionais são atacados e afundados por submarinos do Eixo. Morrem mais de 600.
1942 (31 de agosto) – Brasil anuncia sua entrada na Guerra, lutando junto aos Aliados, contra o Eixo.
1942 (14 de setembro) – Sociedade Esportiva Palestra Itália muda o nome para Sociedade Esportiva Palmeiras.


A análise do contexto daquela época deixa claro que tanto o Palestra Itália quanto os outros clubes identificados com os países do Eixo, em 1942, tinham muitos motivos para se preocupar. E como se pode constatar, pela cronologia dos acontecimentos, tanto as mudanças de nome, como as punições aos italianos membros da diretoria aconteceram pouco depois de importantes decisões do governo Vargas, sendo, portanto, consequência de um conflito político com raízes muito distantes do futebol.


Um desfecho ruim para o clube alviverde, mas que poderia ser pior, já que a lei daqueles tempos de guerra previa textualmente que “os bens e direitos dos súditos alemães, japoneses e italianos, pessoas físicas ou jurídicas, respondem pelo prejuízo que, para, os bens e direitos do Estado Brasileiro, e para a vida, os bens e os direitos das pessoas físicas ou jurídicas brasileiras”.


Como em toda narrativa heroica, na “Arrancada”, havia a necessidade de um antagonista. E esse, com toda a justificativa, poderia ser o governo federal, mas não foi o caso. O vilão escolhido foi o São Paulo. De acordo com alguns palmeirenses, por tentar roubar o estádio do Palestra e por ter conspirado nos bastidores para destruir o clube, por meio da influência de Paulo Machado de Carvalho – empresário e um dos homens fortes do futebol tricolor – ao lado de Roberto Gomes Pedrosa e do presidente Décio Pedroso.


Contudo, a acusação, embora grave, não apresenta provas e se baseia em argumentos frágeis. O principal deles, um depoimento, concedido em 1982 (41 anos depois), de Adalberto Mendes, no qual o ex-capitão do exército, figura importante na vida palmeirense, acusa a diversos setores da imprensa, mas com destaque para Rádio Record, de propriedade de Paulo Machado de Carvalho, de terem feito campanha pelo desaparecimento do Palestra.


Só o fato de mencionar a imprensa como um todo já desconstruiria a tese de um complô são-paulino, afinal Paulo Machado de Carvalho não era dono de jornais, revistas e outras rádios além da Record. Pior que isso, não há qualquer registro, nem desses áudios da rádio Record, nem de qualquer campanha contra o Palestra Itália nos jornais da época, muitos deles ainda disponíveis para consulta, no Arquivo do Estado ou no arquivos da Gazeta Esportiva e dos jornais do Grupo Folha e Estadão (os últimos disponíveis na internet).


Mais importante, não apenas não havia campanhas registradas nos jornais, como não há registro de reportagens relatando qualquer complô para subtrair o patrimônio do Palestra. Havia, porém, uma guerra nos bastidores, na reta final do campeonato, como tantas vezes aconteceu em tantas competições.


Em matéria publicada na Gazeta Esportiva, em 31 de agosto, o dirigente palestrino Leonardo Lotufo reclama de que o tricolor estaria promovendo uma “guerra de nervos”. O estopim dessa tal “guerra”, porém, nada tinha a ver com a “Guerra” maior., mas sim o boato de que teria havido suborno de palestrinos ao Santos em uma das rodadas do campeonato.


O suborno foi um dos boatos que nunca foi comprovado. O outro vive até hoje: o de que o São Paulo queria roubar o patrimônio do Palestra, justificado simplesmente pelo fato do Tricolor possuir como dirigente um empresário importante e por, supostamente, o clube não ter patrimônio naquela época, o que, a rigor, também não é verdade. Em abril daquele mesmo ano, o São Paulo havia inaugurado, no Canindé, sua sede de campo (uma história também polêmica, mas explicada em detalhes pelo historiador Michael Serra, da SPFCpedia).


A efervescência política e as paixões envolvidas na disputa esportiva criaram um dos episódios mais marcantes do futebol brasileiro e, junto com eles, causos que nunca foram comprovados e, portanto, devem ser tratados assim, como boatos.


A história conta que o Palestra sobreviveu por meio do Palmeiras – ainda que em 1937, antes da guerra, o clube tenha tido relações com o governo Mussolini, ao ceder o Parque Antártica para visita do Senador Luigi Federzoni, um dos artificies do fascismo italiano. A história diz também que o São Paulo seguiu em frente conquistou 5 dos 8 Paulistas restantes naquela década. Os outros 3 conquistados pelo Palmeiras, maior rival tricolor na década de 40.


E os boatos? Os boatos servem – se é que servem para algo – para desinformar e sustentarem teorias da conspiração, seja nos botecos de 1940 ou nos grupos de Whatsapp, atualmente.




Agora vamos ao ponto de vista do Leandro Iamin:



Diogo Salles é amigo, e de amigo a gente (quase) não recusa convite. Então não posso me acanhar de estar num espaço que não veste verde, até porque considero bem justo o motivo do chamado: dar voz aos de verde em um debate mais arrastado que jogo do sub-20 no Morumbi vazio.


Primeiro ponto: tento, pelo bem de minha acurácia profissional, desconstruir juízos exagerados em cima de termos que só são potentes, fortes, mas não representam, quando saem do campo dialético, real efeito. Qual é a diferença entre "proibido" e "expressamente proibido"? Nenhuma, na prática. Qual a diferença entre "rival" e "inimigo"? Quando o Raí tabela com o Palhinha na sua área, ou quando o Edílson recebe do Marcelinho para chutar, não importa, dá na mesma, rival e inimigo são sinônimos quando a bola está rolando. O imortalizador, não autor, da frase, Oberdan, queria dizer algo com isso, e não vou me permitir fingir que não.


Estamos falando da Segunda Guerra Mundial, causa indireta da obrigação do Palestra Itália rasurar sua certidão de nascimento, como se tivesse envolvido com a dita cuja. Aos fatos e sem delongas, pois sei que aqui também vai falar Alexandre Giesbrecht, que eu considero o mais competente pesquisador de futebol que conheço: o São Paulo não tentou roubar o estádio palestrino, nem foi o protagonista da trama que culminou no rebatismo do clube. Há, porém, distância entre intenção e gesto. Grandes tramas políticas, em qualquer esfera, envolvem agentes engajados no ofício mas capazes de driblar a oficialidade. Não sei se foi o caso do São Paulo em relação ao Palestra. Não sei mesmo. Mas não houve grande engajamento na direção contrária desse raciocínio.


Sentem-se perseguidos por uma narrativa falsa, os sãopaulinos. Ofereço a solidariedade de quem sofreu o mesmo. Na dança dos contextos, os anos 40 eram de maturidade e nova geração nascendo em famílias italianas que, juro, em sua grande maioria não vieram para o Brasil por opção, mas por necessidade. Nada indica que em 1900 um movimento migratório da Itália para o Brasil era um negócio bom para quem entrava no navio. A narrativa do "italiano fascista" é bastante injusta, inclusive porque estamos falando de tempos bem simpáticos, inclusive aos cidadãos brasileiríssimos, a uma textura social adaptada ao racismo generalizado. Seja como for, esses caras fizeram São Paulo ter um tempero inconfundível no comportamento arraigado, que embutiu nas gerações seguintes nascidas com sobrenome italiano e nacionalidade brasileira um latente fascínio pelo caos – característica comum ao paulistano típico, e também ao palmeirense.


Paulo Machado de Carvalho era um porta-voz do racismo. Usou a sua Rádio Record para inflamar e influenciar a população. Sua agenda xenófoba se mistura com sua atividade dentro do São Paulo? No oficial, não, nos corredores, não sei. O clube alemão que vivia no Canindé perdeu o seu terreno. Isso não parece, olhando hoje, surreal? Imagina a Portuguesa perdendo hoje o Canindé por causa de uma guerra que não tem a ver com a gente? (Ok, a Portuguesa vai perder o Canindé por causa da guerra do capitalismo, mas esse é outro papo) Por qual motivo era, ou é, negado aos palestrinos, enxergando tudo isso, a construção de uma narrativa que envolvesse a opinião pública apoiando que o mesmo acontecesse com o seu estádio? É tão absurdo, mas aconteceu com um, podia acontecer com outros e conosco.


Por isso costumo pedir respeito aos sãopaulinos na justa negação dos fatos. Porque não são só de fatos que se constrói uma visão justa do passado. Antes dos fatos, existem as intenções, as pressões, e o italiano palestrino, de saco cheio de lidar com xenófobos em todo canto, ligava o rádio e ouvia que eram inimigos da pátria, pensava em futebol e via seu clube acusado de apoiar o Eixo, seja lá o que isso significasse para um peão italiano buscando a vida no Brasil. De repente, percebeu que seria possível perder tudo do pouco que tinha - simbolizado pelo Palestra Itália, que também poderia perder tudo que tinha, e, ufa, perdeu "só" o nome. O palestrino tinha todo direito à desconfiança.


Inclusive porque, e nisso meu amigo Giesbrecht discorda, havia um claro vício de origem no trâmite que fez o clube alemão perder o Canindé. O condutor do processo de transferência do patrimônio era diretor são-paulino, além de integrante do governo. Não importa que tudo tenha sido feito com lisura, se é que foi: um elemento ético foi rasgado - dê a Andrés Sanchez uma cadeira no Congresso e a chance de liderar alguma coisa que envolva o terreno de um rival do Corinthians, e permita-se acreditar que tudo será feito como manda a lei. Este era, tenho convicção, mais um motivo para a coletividade palestrina acreditar no interessa sãopaulino em algum terreno, o nosso ou o de alguém.


O sãopaulino precisa reposicionar Paulo Machado de Carvalho em sua história. Colocá-lo na mesma prateleira dos maiores vermes que pelo clube já passaram. E entender o contexto de guerra. Se 75 anos depois, um Bolsonaro e um perfil de Facebook bastam para disseminar toda a discórdia do mundo, em 1942, muitos patrocinaram a discórdia. E não foi o São Paulo que apanhou dia e noite, razão pela qual sugiro ao sãopaulino que se ponha do outro lado, já que somos, todos, sabedores do quão chato é vermos nossas histórias contadas pelos outros. Outra: o palestrino sabe que, mesmo na prática esportiva, na sala da Federação Paulista, não era exatamente solidariedade que recebiam dos rivais – ou inimigos, dá na mesma.


O São Paulo se recusou a jogar até o apito final do estadual de 1942. Ficou em campo, fugiu do jogo. Tendo a crer que não pode ter sido só por causa de um pênalti supostamente mal marcado. Acredito que haviam outras linhas narrativas em ação e convergência. Ou seja, creio que não era só o palestrino que estava contaminado por discursos de ódio e ameaça. E isso me diz muito: cada vez que um são-paulino debocha da tal teoria da conspiração que os palestrinos adotaram como ameaça real, penso em responder sugerindo uma análise sobre a tal teoria de que eram, aqueles palestrinos, italianinhos, uma ameaça ao Brasil e ao patriotismo ou coisa que valha. Não éramos. É claro que contamos esta história com orgulho. Mas a verdade é que ganhamos uma taça, mas perdemos nosso nome. Que equação difícil. 




Para fechar, temos este ótimo depoimento do Alexandre Giesbrecht ao site Fala Bandana, repercutindo a "matéria" publicada na Folha de S. Paulo em 22/09 e desmontando, entre outras coisas, a farsa do "jogo das barricas".