Entrevista: 'A política de ingressos do Morumbi é quase um serviço social'

Luis Moura - Gazeta Press
Luis Moura - Gazeta Press


A Copa do Mundo de 2014 redesenhou para sempre o conceito de futebol no Brasil. Em especial pela ótica de quem torce. Adeus, alambrados, bandeirões e caldeirões. Entraram em cena os mosaicos ensaiados em assentos devidamente marcados. Não demorou para que a discussão se tornasse um embate entre os que defendem o estádio como espaço popular e caótico de outrora e os que defendem o modelo de arenas comportadas e assépticas.


Correndo por fora, o São Paulo conseguiu um híbrido dos dois modelos. Sim, há muito tempo não existe a velha geral, de onde o povão mal via o jogo, mas torcia feliz. Nos dois anéis inferiores, encontramos camarotes e áreas “VIP”, além de estúdios musicais, restaurantes e outras atividades alheias às disputas do campo. Porém, ao contrário de seus dois rivais da capital, o SPFC teve o bom senso de preservar a arquibancada como um espaço de livre acesso a todos os bolsos e classes sociais.


Para trazer mais contexto ao tema, o #SPFCharges conversou por e-mail com Rafael Palma, diretor executivo do estádio.


Há hoje um grande debate sobre a elitização do futebol com a chegada das arenas, mas o Morumbi resistiu a essa tendência e tem ganhado elogios da Torcida Tricolor. Como o clube enxerga essa questão?


Essa gestão enxerga o estádio de futebol como um espaço democrático e que deve ser de acesso a todos. Podemos dizer que nossa política de ingressos é quase um serviço social, porque adotamos preços acessíveis a todos e que se mantêm iguais desde o início do ano, salvo na semifinal do Paulista, quando tivemos um acréscimo de R$ 10 nos valores. Evidentemente, fases mais agudas de campeonatos podem elevar os valores, até por uma questão de demanda e pelo fato da bilheteria ser uma renda importante para o clube, mas, ainda assim, queremos que o Morumbi seja um estádio democrático, de todos.

Existe alguma corrente dentro do clube que defenda a derrubada do Morumbi para a construção de uma arena moderna?


O Morumbi é um estádio superavitário, 100% do São Paulo e todo e qualquer são-paulino se sente em casa aqui. Ao menos nessa gestão, tratamos nossa casa como um trunfo, um motivo de orgulho, e não de problemas. Mesmo sendo o mais antigo dos estádios, é o que melhor absorveu o conceito de arena, uma vez que existe uma vida intensa aqui mesmo quando não há jogos. Temos restaurantes, academia, estúdio, buffet infantil. Tudo isso garante movimento e renda.

Muito se especula sobre reformas e atualizações no estádio. Está nos planos eliminar o fosso e trazer as cadeiras térreas até o campo? E quanto à cobertura no estádio?


Já foi feito um estudo sobre a eliminação do fosso, que acrescentaria cerca de 3,5 mil lugares à capacidade total do estádio, mas ainda é uma intervenção que não tem data para ser feita. Inclusive, fizemos um teste com um protótipo e gostamos bastante, embora exista a questão dessa alternativa inviabilizar a colocação dos banheiros químicos nos shows. Sobre cobertura, essa é uma obra cara, demorada e que impactaria diretamente a estrutura do estádio. Não é algo que esteja descartado, mas também não está nos planos para o futuro próximo. O são-paulino ama seu estádio do jeito que ele é, tenho certeza de que as pessoas não deixam de vir aos jogos por causa da chuva, até porque 60% do Morumbi já é coberto.


Gazeta Press
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Setor interditado após jogo contra o Atlético-MG pelas quartas da Libertadores 2016


Há anos se discute a viabilidade de se praticar preços populares no futebol atual e, em 2017, o São Paulo conseguiu equacionar financeiramente a questão. É possível manter essa política no longo prazo?


É evidente que do ponto de vista financeiro, o ingresso mais alto é melhor para o clube porque você precisa de menos gente no estádio para atingir o ponto de equilíbrio da operação. O diretor financeiro de qualquer clube do Brasil vai dizer que é melhor ter 10 mil pessoas pagando R$ 50 do que 50 mil pagando R$ 10. Mas o presidente Leco e a atual diretoria têm sido muito parceiros nessa questão. Para nós, é mais importante que o torcedor tenha acesso ao Morumbi por meio de um preço de ingresso justo do que simplesmente conseguir uma boa arrecadação. A participação emocionante do torcedor nesse momento da equipe mostra que a crença da diretoria está correta.

Nas duas últimas Libertadores que o São Paulo jogou o ticket médio estava bem mais alto e a política de preços foi alvo de muitas críticas da torcida. É possível manter os preços no mesmo patamar em competições internacionais?


Tudo é uma questão de oferta e procura, o segredo é fazer as coisas de uma maneira lógica. No ano passado, o torcedor pagou ingressos mais caros na reta final da Libertadores, mas a diretoria reconheceu o esforço do são-paulino e baixou significativamente o valor para os jogos seguintes do Brasileiro para compensar. Uma majoração em jogos de Libertadores me parece perfeitamente aceitável, desde que eu não passe a cobrar dez vezes o valor que é cobrado em outros jogos. Vamos lembrar aqui que renda da bilheteria é extremamente importante para o clube equilibrar suas contas e ser saudável financeiramente. Bom senso é a chave.

Recentemente foi retomado o projeto de nomear áreas do Morumbi com nomes de ídolos. Como este processo está sendo conduzido e qual o prazo para acontecer?


A diretoria executiva do estádio nomeou uma comissão formada por três conselheiros incumbidos de realizar um estudo com os possíveis ídolos a serem homenageados. Além de fazer o levantamento, a comissão ficará incumbida de colher as autorizações de uso de imagem e levará essas informações para os Conselhos Deliberativo e Consultivo, que apreciarão e votarão as sugestões.

Segundo foi apurado, 80 nomes de ídolos foram encaminhados para escolha dos conselheiros. Quantos nomes serão selecionados e qual será o critério?


A comissão tem a liberdade para desenvolver o projeto da forma que desejar. A única condição é que os ídolos homenageados cedam o direito do uso de imagem sem custos.


[nota do blogueiro: na seção “Grandes ídolos” do site oficial do clube, há 58 jogadores destacados. São 5 goleiros, 9 laterais, 10 zagueiros, 7 volantes, 11 meias e 16 atacantes. Além deles, há 9 técnicos e 3 atletas de outras modalidades esportivas, totalizando 70 nomes]

O projeto que dá o nome de Telê Santana ao trecho da Avenida Jules Rimet (que vai do portão 1 ao 6 do Morumbi) já foi aprovado pela prefeitura. O que falta para a inauguração?


Estamos em contato direto com a prefeitura para providenciar a instalação da placa.

Com isso, o nome de Telê ainda fica elegível para nomear algum setor do estádio?


Fica, mas, com a efetivação da homenagem na antiga Avenida Jules Rimet, acho pouco provável que aconteça.


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