Covardia de Levir Culpi é reflexo da cultura de futebol no Brasil

Ivan Storti/Santos FC
Ivan Storti/Santos FC

Atitudes de Levir Culpi em campo são só um reflexo do futebol brasileiro


Não sei a origem, mas existe um ditado que diz "mais vale um covarde vivo do que um herói morto". No empate por 1 x 1 entre Santos e Ponte Preta, ontem, no retorno do Campeonato Brasileiro, mesmo com um jogador a mais em campo nos minutos finais, o técnico Levir Culpi não fez nenhuma alteração e admitiu, na entrevista coletiva, que ficou com receio de abrir o time e perder o jogo.


Levir não é dos meus técnicos preferidos. Da falta de treinos ao ar de tio bonachão do churrasco, ele não demonstra ter muitas ideias de maneiras de jogo ou ousadia para ganhar jogos. O que mais chama atenção em seus trabalhos são as entrevistas. Recentemente, ao programa Seleção SporTV, ele abriu o jogo sobre a cultura do futebol brasileiro.


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"Se nós perdêssemos para o Atlético-PR e para o Palmeiras, era muito provável de eu sair do time. Não posso fazer plano no Brasil. Só dá para fazer plano se tiver ganhando. Esse plano não existe para mim, sinceramente. Perdi essa esperança de um projeto, alguma coisa assim. Meu contrato com o Santos é até dezembro".


O técnico tem razão ao falar nessa cultura da vitória a qualquer custo no Brasil. É uma imensa bola de neve, aumentada cinco vezes mais quando o clube passa por um período eleitoral, como é o caso do Santos. Não existe planejamento, não existe calendário bom, não existe gastar mais ou menos, não existe nada disso por aqui. É ganhar e ponto final. O futebol praticado por aqui parece muito uma partida de tênis. A bola bate e volta o tempo inteiro de uma área a outra. E quando um time abre o placar? Em 99% dos casos, todo mundo recua e abre mão de ter a bola ou de buscar o segundo gol. Basta olhar alguns jogos da última rodada.


Essa instabilidade é muito ruim. Não é possível, para qualquer pessoa, trabalhar pressionado por resultados no curto prazo. Imagine só que todo mundo fosse demitido após dois ou três meses de trabalho por não entregar aquilo que seu chefe queria? Ou ter conselheiros que mais pensam no poder do que em querer o bem do clube?


E antes que digam: o futebol europeu tem muitos problemas também. Mas não podemos simplesmente idolatrar cegamente ou ter repulsa do que se faz lá. Antes de qualquer coisa, é preciso analisar friamente a cultura do futebol brasileiro e como ela traz impactos em tudo – da revelação de jogadores ao futebol praticado no campo.


Para um problema desse tamanho que nós enfrentamos por aqui, não adianta arrumar uma solução temporária. É preciso mais. Só uma mudança profunda na estrutura ajudará a ter resultados no longo prazo. Se quem tem o poder não fizer nada, as coisas vão continuar exatamente assim. E tem quem goste.