'Fiquei totalmente arrepiada' - carta de Maurine, Sereia da Vila, aos santistas

Por Maurine Dorneles Gonçalves
Sereia da Vila


Quando eu saí do vestiário para entrar no campo eu estava toda arrepiada. Arrepiada mesmo. Até falei para a Arruda (Carol, zagueira): "Arruda do céu, estou arrepiada. Olha a sua volta. Arquibancadas lotadas. Fazia tempo que eu não vivia isso aqui no Brasil".


E era semifinal. Então espero que, na final, e contra o Corinthians, vocês possam vir nos prestigiar e ajudar a nos erguer. Se Deus quiser, daremos um bom resultado para vocês, santistas.


Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC
Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC

Maurine está em sua segunda passagem pela Vila. É bicampeã da Libertadores


Libertadores de 2010. Santos 1 x 0 Everton-CHI. Gol aos 44 minutos do segundo tempo. Meu. Eu fiz o gol no finalzinho do jogo. Um momento em que precisávamos. Na hora não sabia nem o que fazer, nessa hora do gol. Corri para as meninas, não sabia o que fazer. A emoção é muito grande de ter conquistado a Libertadores. É bom para nossa carreira, para o Santos. Fiquei muito emocionada, muito feliz por ter feito esse gol.


Até hoje todo mundo que me pergunta o que foi mais emocionante na minha carreira no Santos. Eu digo que foi esse gol.



Sempre que vou para a bola falo: "Tem que ser". Sempre acredito, mesmo quando erro, tem que acreditar sempre. Ajeitei e falei: "Tenho que fazer esse gol". Eu treinava bastante, eu sabia que eu podia fazer. Se pegasse bem, realmente, eu ia conseguir fazer.


Ganhei a Libertadores. Ganhei Paulistas. Copa do Brasil. Já tenho muito tempo no futebol e o único titulo que não tenho com o Santos é o Brasileiro.


E eu quero um dia encerrar minha carreira e poder dizer que conquistei esse título com o Santos.


Getty Images
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Aos 31 anos, Maurine disputou duas Copas e duas Olimpíadas pelo Brasil - xará de seu pai, o maior apoiador da carreira


Eu comecei no Grêmio. Só que antes jogava na rua, jogava no Canarinho, time da minha cidade (Rio Grande-RS). Eu e minha irmã. Jogava com meninas. Na escola, quando era bem menor, sete anos, aí eu jogava com os meninos. Porque não tinha menina que gostava de jogar bola, mas eles não gostavam muito, a gente tirava o lugar deles. "Vou perder lugar para uma menina?". Mas acabavam me escolhendo.


Aí com oito, nove anos, meu pai me colocou na escolinha do Grêmio. Ali que aprendi fundamento, coisas que o futebol precisa. Com 15 anos virei profissional. De lá fui para a seleção, já em 2001. Seleção sub-19. Disputei vários campeonatos, sulamericano, mundial, joguei com a Marta novinha.


Mas senti que tudo isso seria possível quando nem no Grêmio jogava ainda, e sim nos campeonatos da minha região. Todo mundo falava: "você precisa ir para um clube em que vão te ver, que vai ter futuro". E aí meu pai começou a acreditar mais. Ele viu e me colocou para aprender. E ao ir para o profissional eu nunca mais deixei de acreditar que podia. No Sul, porém, o campeonato não era forte, então falei para meu pai: "Preciso ir para um lugar em que vão me ver". Quando eu falei"Vou para São Paulo"... Minha mãe falou "O QUÊ?", deu um grito. "Pelo amor de Deus, São Paulo não".


Meu pai sentou, conversou com ela. Ele me levava para tudo que era lado para jogar, me acordava cedo e a gente ia para o jogo. Ele sentou com minha mãe e, com todo esforço do mundo, fez ela me liberar para ir para São Paulo. 


Meu pai não é mais vivo. Mas foi o cara que mais incentivou minha carreira. Penso sempre nisso. Quando estou brigando por taça. Quando estou jogando pelo Santos. Ou jogando pelo Brasil. 


O mesmo nome que o dele.


Ele faleceu em 2011, quando eu estava no Pan-Americano com a Seleção. Aí eu fiz o gol da classificação do Brasil para a final. Um dia antes ele tinha falecido e eu entrei, joguei e fiz o gol da classificação para a final... Na hora é bem difícil, é uma decisão difícil e eu decidi ficar. E um cara como ele, um cara que sempre me ajudou, eu tinha certeza que ele ficaria feliz se eu continuasse ali. E minha família me apoio nisso e eu acabei ficando, e ainda fazendo o gol. Fomos para a final e perdemos para o Canadá.


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Em 2015, porém, Maurine levou o ouro no Pan. Ela também tem uma prata olímpica, em 2008


Por isso eu falo para o torcedor, que torce tanto por nós, que gosta realmente, que venha nos prestigiar, porque a modalidade precisa, e esse grupo, eu tenho certeza, chegou até a final, passou pelo Iranduba na semifinal muito por sua ajuda.


Eu sempre fui uma menina que nunca tive tudo. Minha família não tinha muitas condições. Penso na dedicação desse grupo, no que a gente passou até aqui. Penso na minha família, que são os maiores incentivadores da minha carreira. Penso no Modesto, que é um cara que sempre ajuda a gente, sempre pergunta do que a gente precisa. Vem tudo isso na minha cabeça quando penso sobre essa final.


Eu estou, a cada momento, a cada hora, falando com as meninas sobre levantar essa taça. Elas falam que eu estou ficando doida. Mas não é ficar doida. É que a gente tem que ganhar. Tem que ganhar. Se falamos de futebol, eu falo do título. A gente tem que ganhar esse titulo. Não quero só eu erguer, todas as meninas, o Caio (técnico), o Modesto, a comissão, todos tiveram sua contribuição.


Eu quero viver esse momento.


- Maurine é capitã do time feminino do Santos, as Sereias da Vila, que disputam nesta quinta-feira, às 18h30 (na Vila Belmiro), a partida de ida da final do Campeonato Brasileiro contra o Corinthians. O Santos nunca chegou a decisão do torneio. Ela pode ser a primeira capitã das Sereias a levantar a taça mais importante do país.