Santos, Peñarol, o bandeirinha e o grito: 'Ele anulou, ele anulou!'

Tenho um amigo que costuma ver jogos em estádios comigo. Ele deve odiar: eu não paro de falar, palpito sobre tudo (de tática a gracejos no telão), grito como se os jogadores se importassem com o que falo, enfim. Mas o pior é que eu constantemente faço algo que anda em moda entre os jovens por aí: dou spoiler.


"Mas como é possível dar spoiler de lance de jogo se você está no estádio?", o leitor pode perguntar. Explico: eu sempre olho para o bandeirinha. Sempre. Em todo lance de ataque. Então esse amigo sempre tem alguém ao lado que, enquanto ele comemora um gol, já está parado apontando para o bandeira com cara de "é, não foi". É um saco.


Mas, um dia, essa mania foi muito útil. Não só para ele, mas para todo torcedor do Santos - ou, ao menos, todos que estavam, no dia 15 de junho de 2011, exatos seis anos atrás, no estádio Centenário de Montevidéu. Sim, na final da Libertadores entre Santos e Peñarol, jogo de ida.


Getty Images
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É difícil achar foto dele. Mas é um ídolo: no centro da foto, primeiro à esquerda, está ele: Nicolas Yegros


"Corajoso. Parabéns. E não se acovardou com essa pressão dos jogadores ali atrás. Muito bem o bandeira. Estava impedido". Quem viu pela televisão ouviu Arnaldo Cezar Coelho, na transmissão da Globo, dizer esta frase ao explicar como Nicolas Yegros havia acertado ao anular gol do Peñarol aos 40 minutos do 2° tempo. No Uruguai. Em Montevidéu. No Centenario lotado.


É preciso coragem, mesmo.


Te lembro, então, como foi: o Peñarol pressionava para tirar o 0 a 0 do placar. Rafael cortou cruzamento de Valdez, mas a bola sobrou para um uruguaio livre na ponta da área. Ele cruzou e a bola passou por todos até chegar à segunda trave, onde Alonso estava, livre. Gol do Peñarol.


O Centenario explodiu. A torcida gritou enlouquecidamente. Os santistas, em um pequeno espaço à esquerda e embaixo das cabines de TV, ficaram em silêncio. O estádio tremeu.


A bola entrou quando o cronômetro marcava 40min29seg. No vídeo do lance é possível perceber que toda a loucura uruguaia vira irritação só aos 40min35seg, quando todos percebem que Nicolas Yegros, esse herói, era corajoso o suficiente para anotar o impedimento.


Em seis segundos muita coisa muda. Usain Bolt, com este tempo, já dominou seus rivais e abriu distância nos 100m. O gol mais rápido da história, de Fred, foi mais rápido que isso. Então, daquele canto em que os santistas estavam, aproveitei aqueles segundos para olhar para o bandeira, como sempre faço, e dar o spoiler, gritando:


"Ele anulou! Ele anulou! Não foi gol!".


Cabeças começaram a virar ao meu lado. Depois, quando a maioria percebeu o que ocorria, a diminuição da festa uruguaia, não só viraram para o canto em que Yegros estava, mas também começaram a festejar como se fosse um gol.


Acho que, naquele dia, ninguém reclamou da minha mania de dar spoiler.


O resto da história todo mundo sabe. Há seis anos, o Santos levantou a Copa Libertadores. Neymar foi o melhor jogador. Adriano Pagode, o carregador de piano. Mas, sem querer dar spoiler mais uma vez, o herói foi outro.


Nicolas Yegros. Que coragem...


Felipe Noronha
Felipe Noronha

Era assim minha visão do local em que Yegros levantou a bandeira naquela noite de 15 de junho de 2011