O título de Kevin Durant mostra que às vezes é preciso deixar o ídolo ir embora

Jogadores são seres intocáveis. Não se pode invadir o campo para abraçá-los quando marcam um gol, ou para criticá-los quando se erra um passe. É preciso gritar lá de cima, das arquibancadas, tornando a dica ou a crítica apenas um som aleatório vagando pelo ar. Por isso, a maioria dos torcedores tem dificuldade de entender quando um ídolo de seu time o larga. Porque, ao serem intangíveis, jogadores idolatrados se tornam criaturas quase mitológicas: tudo que fazem se torna mais importante do que qualquer atitude de qualquer mortal. Uma simples troca de empresa de um simples trabalhador não afeta quem está à sua volta. Mas a troca de time por um ídolo afeta sentimentos de tanta gente que parece algo diferente.


Não é. Mesmo que mexa com paixão. Não é. É idêntica. Por mais que doa em nossos sentimentos assumir, compreender isso.


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Ídolos se vão quando acham que devem ir. Não é traição


Kevin Durant, quando deixou o Oklahoma City Thunder para jogar pelo Golden State Warriors, na NBA, fez com que a paixão, os sentimentos de milhares de fãs do Thunder fossem abalados. Como ele poderia trocá-los por outro? Como ele poderia passar a fazer felizes outros torcedores, e não estes? 


Mas nenhum destes torcedores perguntou: e o que Durant queria? O que ele sente? Qual a orbigação dele em permanecer nesta franquia, nesta cidade, só por que torcedores querem?


Durant, ao levantar a taça de campeão da NBA pela primeira vez na carreira, após 10 anos de tentativas, após um ano da troca de time, ensinou uma lição não só aos jogadores, mas também aos torcedores: é preciso aceitar quando o ídolo quer ir embora.


Às vezes, ele cansou de perder. Às vezes, ele realmente só quer levantar uma taça e crê que, em outro lugar, terá mais chances. Às vezes, ele quer apenas estar com amigos. Às vezes, ele não se dá bem com o elenco atual e quer um lugar melhor para viver. Porque, além de treinar e jogar, o ídolo também vive. Ele também sente e pensa como qualquer torcedor.


Por isso, e aqui me refiro principalmente ao santista, o público principal deste blog, e que convive com uma base que constantemente revela jogadores e ídolos, olhe o que Durant fez e tente entender quando eles saem. E tente entender quando eles falam em outros times, que sonham em voltar ao Brasil e jogar em outros locais.


Como é para Neymar, independentemente do que fez ou não, ver o Santos com diversos processos? Como é ver o clube que o criou brigar com seu pai? Como é ver que qualquer outro time do país não liga para isso e o trataria com carinho?


Como é para Diego se sentir bem no Rio de Janeiro, estar feliz no Flamengo? Ou para Robinho ganhar o que quer no Atlético-MG? É o dinheiro que o faz feliz? Qual o problema? Você também não mudaria de empresa por um salário maior?


O Santos que existe hoje não é o mesmo que existiu no passado e nem o mesmo do futuro. Os jogadores não convivem com a torcida; eles convivem com o resto do elenco, com a comissão, com os diretores. Pegam carinho - ou raiva - destes. Se um jogador se dava bem com uma diretoria e com um elenco, por que guardaria amor pela instituição, e não só pelas pessoas? Por que sonharia em voltar para uma instituição sendo que não encontraria o mesmo ambiente?


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No esporte, troféu é felicidade. Mas ser feliz no processo que leva a ele também é importante


Kevin Durant está feliz no Golden State Warriors. Se sente bem com o elenco de lá, se sente bem com a comissão de lá, se sente bem com a cidade. Não quer dizer que ele detesta o OKC Thunder. Quer dizer que ele mudou. Pessoas mudam.


Então, santista (e torcedor de qualquer time, na verdade), não fique com raiva de um jogador. Analise toda a situação. Tente entender. E, mais do que isso, lembre-se: quem se importa com o time é você. Se importe, também, com seus sentimentos. Não deixe um ódio cego estragar. Odiar é chato. Siga só amando seu clube do coração.