Culpa é de quem plastificou a Vila, não de Felipe Melo

"Nossa intenção é dar segurança e conforto para 20 mil pessoas", disse o supervisor administrativo da Vila, Modesto Roma Júnior. Sim, o mesmo homem que se tornaria presidente do Santos em 2015 disse a frase que abre o texto em 2006, quando o Santos, então presidido por Marcelo Teixeira, inaugurou os camarotes laterais térreos e iniciou o processo de "modernização" do estádio Urbano Caldeira, a Vila Belmiro.


Ivan Storti/Santos FC
Ivan Storti/Santos FC

Um vidro entre torcida e jogadores. O fã não vê seu ídolo de perto na Vila: há um bloqueio. Gentrificação


Eu amo a Vila. Amo mesmo. Independentemente do time para o qual eu torço, é o estádio no qual me sinto mais à vontade, no qual vivo o futebol mais de perto e do jeito que gosto - com tons de passado, com o que importa de moderno sendo apresentado no gramado.


Então, quando eu vejo Felipe Melo falando que "a gente está acostumado a jogar em caldeirão. Nunca vi caldeirão com 5 mil, 8 mil", eu não fico chateado, irritado, bravo ou qualquer coisa negativa com ele. Melo é jogador do Palmeiras, que foi até a Vila e ganhou, automaticamente conquistando o direito de provocar o adversário. E, consequentemente, a torcida, que mais uma vez decepcionou e esteve presente em pouco mais de 8 mil pessoas.


Sabe com quem eu fico decepcionado? Quem eu culpo por permitir Felipe Melo falar isso? A diretoria do Santos. As diretorias, aliás, todas as recentes. Porque foram elas que plastificaram a Vila Belmiro. Que acabaram com o que foi, sim, um dia, um caldeirão, em um passado não tão longínquo, mas já saudoso.


Gazeta Press
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A troca de provocações entre jogador e torcida é comum. Mas qual a oportunidade de um torcedor conversar com um diretor?


Me encontrei com o termo "plastificar" no Twitter, após o jogo de domingo. Juliana Teixeira, santista, comentou isso ao falar sobre a provocação de Melo, e minha mente "explodiu", como diz a gíria da internet. É uma definição perfeita sobre o que fizeram com o estádio a partir de 2006, quando Modesto Roma Jr. deu a declaração lá de cima.


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Depois, em 2008, piorou: o setor oposto ao dos camarotes, que corre a lateral do gramado de frente para as câmeras de televisão, teve o alambrado retirado e um vidro instalado, acabado com qualquer contato (não físico, é claro, mas vocal) entre torcida e bandeirinha, juízes, rivais e, claro, jogadores do próprio Santos.


Por fim, em 2012, o setor atrás do gol oposto ao placar, à direita da transmissão de TV, também viu a arquibancada de cimento se despedir, dando lugar a mais camarotes que vivem vazios. Lembra de quando cabiam 20, 25 mil pessoas? O número despencou para 14 mil.


O quão triste é acabar com a festa, com a torcida próxima ao gramado, com jogadores e fãs pulando no alambrado, com gritos em êxtase, por comemorações com tapas em um vidro, com sons abafados por algo que parece uma cela?


Isso se chama gentrificação. A "plastificação" da Vila alterou toda a dinâmica do estádio, trazendo uma "modernidade" que afetou, é claro, a parte da torcida com baixa renda, que jamais vai poder pagar um camarote e ficou presa em setores mais distantes.


E sabe quem faz festa? Quem vive o futebol de verdade? Sim, essa parte da torcida. Não a que tem dinheiro e vai ao estádio para "curtir uma experiência". A gente quer bola - não cadeira, buffet, ou área de convivência.


Então, por que reclamar de Felipe Melo, que ao vencer um jogo provocou um rival, algo tão tradicional ao futebol? Quer reclamar? Reclame de quem acabou com o caldeirão que, um dia, foi a Vila Belmiro.