O Santos e o Gato de Schrödinger

O santista vive o experimento chamado “gato de Schrödinger”. Isso é um paradoxo, em que o bichano é colocado vivo numa caixa tampada, mas depois aparece a expectativa de saber se ele está morto ou vivo. No experimento atribui-se a isso a condição de “morto-vivo” devido às duas únicas possiblidades.

O Campeonato Brasileiro acabou moralmente nessa quarta-feira, 9 de novembro. Como venho frisando desde que estreei no ESPN FC, o planejamento do Santos para esse ano estava fadado ao desastre desde o seu início. O ano político, obviamente, já seria um problema caso o Santos fosse uma equipe minimamente organizada, mas como não é as coisas tendem a terminar da maneira mais trágica possível.


A derrota para o Vasco não aconteceu apenas pelo fato do time ter jogado mal, algo que aconteceu inúmeras vezes nesse ano. É bom salientar que Zé Ricardo tem muitos méritos na vitória da equipe dele. O treinador vascaíno traçou a estratégia da marcação alta e conseguiu anular, em grande parte, o ataque santista, que sofreu também com a acefalia do seu meio-campo. Foi ali que o time perdeu o jogo.


No entanto, são em jogos como esse que mostram o quanto o Santos ficou refém de uma situação sui generis. Exemplo? O gol do Peixe nasceu de uma enfiada do Lucas Lima para o Ricardo Oliveira, dois jogadores que estavam absurdamente mal na partida.


E isso me faz questionar o planejamento da equipe.


Qual foi o grande trunfo na vitória do Santos contra o Atlético-MG, no domingo? O jogo coletivo, que encaixou. Qual foi o grande problema do Santos contra o Vasco? A ausência total de comprometimento tático e técnico dos jogadores de meio-campo diante de uma dificuldade imposta inteligentemente pelo adversário.


Ricardo Oliveira não é mais o mesmo jogador de outrora. Não entenda isso como uma crítica a qualidade técnica do jogador, e nem que a culpa da derrota na Vila seja dele. O questionamento é em cima da ilustração que esse jogo virou. Mesmo com a equipe jogando abaixo do que podia, foram criadas três chances claras para o camisa 9 fazer o gol e ele as desperdiçou – sem contar a furada bisonha que ele deu na bola.


Todavia, ele fez o gol, não fez? Um gol bonito, diga-se. Gol que saiu de uma assistência igualmente bonita do Lucas Lima.


Oliveira, assim como o Renato, é craque, ídolo e influente no elenco. No entanto, o corpo muitas vezes não vai responder. É complicado cobrar isso de um jogador de 38 anos. Os seis gols nos últimos oito jogos aconteceram muito porque a bola se apresentou a ele numa clara situação de finalização. Óbvio que o talento dele ajuda, mas em muitas outras situações desfavoráveis cuja oportunidade de finalização se apresentou, ele perdeu. Foram várias. Contra o Vasco foi assim, contra o Atlético-MG, São Paulo, Atlético-GO, Sport, Vitória também.


Gazeta Press
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Principal criador de jogadas na partida de ontem, Bruno Henrique protagonizou os principais lances de ataque para o Peixe novamente


No entanto, a situação dele é muito favorável. Por mais que coletivamente durante a partida ele não ajude mais, Ricardo Oliveira não tem competição no elenco. Kayke não faz nem cócegas a ele. Por mais que ele não consiga correr mais, que ele perca um caminhão de gols, uma hora o armador resolve jogar bola e dá um passe açucarado para ele. Ou o Bruno Henrique constrói toda a jogada e só rola para ele finalizar. O atacante está tão confortável, que está até enrolando para dar uma resposta ao Santos sobre a renovação há seis meses.


Entende a falta de planejamento do Santos? Que a falta de sombra ao jogador faz como que ele se torne mais importante do que deveria ser. Tem muito torcedor que não enxerga isso. A idolatria que ele merecidamente construiu serve como escudo para esses detalhes. Ele é passível sim de críticas, por mais que alguns torcedores não queiram. Todo jogador é. Apesar de não envolver contrato, esse questionamento também serve para o Renato, que não pode ter sua gloriosa carreira pelo clube manchada em recorrentes atuações desse tipo. Mais por conta do físico do que pela técnica.


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Renato, mais uma vez, não conseguiu dar intensidade ao meio-campo. Não marcou, deixando um buraco incrível para o Vasco trabalhar na Vila Belmiro


Na ilustração da partida, que foi o gol, aparece Lucas Lima. Para inicio de conversa, ele nem deveria estar jogando de titular. Assim como o Ricardo Oliveira, ele só vai responder ao clube sobre a renovação (que muito provavelmente não deve acontecer) depois do Brasileirão. Quem garante que ele está focado (o que visivelmente não está)? Como é que o Santos teve só 10% dos direitos sobre o jogador durante esses quatro anos? Era óbvio que no final teria um imbróglio.


À parte essas questões contratuais, o que mais chateia é a maneira como isso tudo foi conduzido. Os anos de 2014 e 2015 do Lucas Lima foram ótimos, incríveis. Foi o principal jogador do elenco, com sobras. Em 2016 ele degringolou duma maneira assustadora, deixando de ser importante e ficando cada vez mais obsoleto em jogos decisivos. Em 2017, especialmente na Libertadores, ele foi preponderante em meio ao caos de uma equipe sem comando, mas depois do interesse do Palmeiras, aquele jogador de 2016 voltou com tudo. E, ao contrário do que ele acha, todas as críticas que ele está ouvindo nos últimos jogos são merecidas. Botar a mão na orelha é uma vergonha diante dessa situação.


Assim como o Oliveira, tecnicamente ele é inquestionável. E diferentemente do Ricardo, ele destruiu a sua imagem com o torcedor, que prefere ver o diabo em sua frente do que o atual camisa 10. Ele sabe que é acima da média. Ele sabe que pode resolver um jogo, ou uma jogada, por conta própria. No entanto, o comportamento dele em campo até que ele “resolva resolver” é indignante.


Dói falar isso, porque eu conheço esse jogador desde os jogos no Major José Levy Sobrinho, quando ele jogava pela Inter de Limeira. Vi ele jogar a Bezinha, Série A3 e sempre o achei um grande jogador. Fiquei feliz quando ele veio para o Santos, especialmente porque botava muita fé nele. Fiquei feliz pelos dois primeiros anos dele aqui. Hoje, esse cara que joga quando quer não é o mesmo que eu cheguei a idolatrar. Por culpa dele e por culpa do Santos também. Da diretoria, na realidade.


Quando o Elano disse na coletiva: "eu queria poder falar tudo que eu acho, mas por questão ética e respeito pelos atletas, eu converso particularmente", ficou claro o paradoxo, o dilema que o Santos vive. De como ele virou refém dessa situação.


Agora que tudo foi pelo ralo, em respeito ao santista, a diretoria deveria de resolver todas essas arestas que não foram aparadas. Só continua jogando quem vai ser aproveitado em 2018, ou aqueles que foram queimados pelos treinadores anteriores e que merecem uma segunda chance – ou continuidade para mostrar o seu devido valor.


Esse estado de “morto-vivo” - se vai ou se fica - é o estopim que faz a torcida explodir.