Da alma ao treinador, Santos escancara os seus problemas

Era uma vez um time mimado, que tinha o apoio incondicional de uma diretoria cuja excepcional habilidade de realizar planejamentos grotescos surpreende. Uma combinação perigosa, que imputou sobre o Santos a imagem de um time covarde, amador e, pior, um time que faz o seu torcedor ser pessimista ao extremo.

O empate por 2 a 2 com o Vitória, ontem, no Pacaembu, ilustrou perfeitamente algo que eu já vinha batendo aqui. O planejamento do Santos é vergonhoso. Coisa de time amador mesmo.

Existe um seriado chamado “Mr. Robot”, que iniciou sua terceira temporada nesse mês e que tem uma célebre frase que diz: “quando perdemos os nossos princípios, nós convidamos o caos”.

A partir do momento que você contrata um treinador ultrapassado, notoriamente avesso às características históricas do clube e que de positivo só teve uma cutucada no capitão da equipe, você convida o caos para o seu clube.

Um treinador que é adepto dos rachões e piadinhas em coletivas deveria ter ficado nos anos 90. Aliás, nos anos 90, esse time correria pelo menos. Daria a cara à tapa, mesmo nas vacas magras. Levir Culpi fracassou em todos os sentidos, e eu avisei que era questão de tempo para isso.

É surreal você pensar que o Santos ficou esse tempo todo em segundo lugar. Um time que só tem rachão. Um time que depende exclusivamente de um único jogador para criar as jogadas ofensivas. E que, sem o seu fiel escudeiro, perde pela metade o seu poder de periculosidade. Sim, eu falo de Lucas Lima e Bruno Henrique. O ataque do Santos é resumido apenas aos dois. Isso não é vergonhoso?


Gazeta Press
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Ricardo Oliveira, capitão da equipe, saiu calado após o vexame no Pacaembu. Uma atitude indigna de um capitão.


O senhor Lucas Lima, aliás, passou o jogo inteiro andando em campo. Que maneira de encerrar a sua passagem pelo clube, hein? Por mais que nesse ano ele tenha melhorado consideravelmente o seu desempenho em relação a 2016, a imagem recente queima completamente o filme e apaga qualquer tipo de defesa.

Falando em defesa, é difícil aceitar, mas, se não fossem pelas milagrosas intervenções do Vanderlei, ou pelos desarmes pontuais do Lucas Veríssimo, a situação era pior. Muito pior.

O ano é 2017 e o Leão Levir levou a campo Serginho e Lucas Crispim, no segundo tempo, para “vencer” o jogo. Se bem que vencer não é uma palavra que ele gosta muito, já que, após o jogo contra a Ponte Preta, o treinador afirmou que não colocou a equipe mais a frente, mesmo com um a mais, porque tinha medo de perder. Ele terminou o jogo sem substituir e ainda estourou o Bruno Henrique.

Serginho e Crispim não tiveram qualidade para jogar em equipes que lutavam contra o rebaixamento, então por que teriam para jogar no Santos? E ainda sem treino fica mais difícil.

No entanto, o planejamento grotesco do Santos não começou em 2017, mas sim na metade de 2016, quando o time brilhantemente vendeu o Gabigol, o único que jogava pelo lado direito no ataque. Em contrapartida, contratou Copete, que só joga pelo lado esquerdo. Depois, a diretoria foi lá e contratou Hernandez, que também só joga pelo lado esquerdo. Não contente, em 2017 eles contrataram o Bruno Henrique, que também só joga pelo lado esquerdo. Sério que ninguém avaliou isso? Ninguém percebeu que o Levir está matando o Copete (e o time) na direita?

O Santos deu moral para Vecchio, jogador problemático desde os tempos de Unión Española. A diretoria renovou com Yan, irmão gêmeo do Yuri, que nunca jogou pela equipe. Um cara de 23 anos já. E ele estava inscrito na Libertadores, bicho!

Por que o Arthur Gomes não tem mais chances? Matheus Oliveira? Ceará? Guilherme Nunes? Jogadores da base, que pelo menos têm algo a provar.

Essa mesma diretoria, que contratou Cleber Reis, o zagueiro de vidro, e Leandro Donizete, quer contratar Damián Diaz, do Barcelona de Guayaquil, um jogador pesado, veterano e que foi consagrado contra o próprio Santos porque Levir colocou Donizete para marcá-lo na Vila. Até Carlos Alberto deitaria em cima do “general”. Detalhe: Diaz nem era titular antes da venda do Alemán ao Estudiantes.

Entretanto, por mais que os erros do Levir Culpi sejam evidentes, eles só aconteceram porque alguém teve a brilhante ideia de colocá-lo lá. Eu entendo que existia a necessidade de colocar alguém diferente para amenizar o vestiário do Santos, que estava fervendo com a saída do Dorival, mas essa atitude serviu como um efeito placebo. Serviu por um breve momento, porém, quando era óbvio que eles precisavam jogar bola, viu-se um vazio, um marasmo, uma equipe arcaica. Faltou alguém do clube cutucar o treinador e chamar a atenção para isso.

O que acontece com o Peixe vai além do empate contra o Vitória, que merecia ter vencido. Vai muito mais além do fato da equipe não conseguir lutar por algo maior. Trata-se da falta de competência e identificação, que acaba andado paralelamente com os mesmos problemas de sempre.

O atual momento do Santos é parecido com uma camisa velha, que tem um fiozinho sobrando. Você o puxa e começam a aparecer outros. Não é fácil ser otimista diante de uma situação dessas.