Entrevista: Silas e o Lado B da melhor Sampdoria de todos os tempos

“Droga. Estou ferrado”, pensei. O termômetro do carro marcava onze graus e eu apenas começava a subir a serra para fria Poços de Caldas. “Se está onze aqui embaixo, lá em cima deve tá uns oito”. Eu tinha um encontro marcado com o Silas e, se não fosse por isso, daria meia volta rumo à minha casa ali mesmo.


Poucas coisas me fariam sair das cobertas para enfrentar o vento glacial da cidade sul-mineira. Bater um papo com o ex-jogador blucerchiato obviamente era uma delas. Digo aqui “bater um papo” porque seria petulância da minha parte escrever “entrevistar o Silas”. Não sou jornalista e nem sei como funciona os macetes da profissão. Já faço aqui uma mea culpa. Por certo existe algum manual que diz o que se deve fazer antes de entrevistar alguém. Até pela forma como consegui agendar a prosa, nem sequer estudei sobre o entrevistado. Foi tudo na cara e na coragem. Fui a antítese do bom entrevistador, ainda mais quando me dei conta que deveria ter baixado algum aplicativo para gravar a prosa. A ficha caiu. “Puta merda, vou conversar com o Silas!”. Já estava dentro da cidade. Fazia nove graus e pela primeira vez na vida suei de calor na gélida Poços. 


Quando você torce para um time grande do Brasil ou para um time de expressão internacional, as informações do clube chegam em profusão. O Barcelona, por exemplo, é um grande Big Brother. Pra gente que torce pela Samp, as informações são mais limitadas. Era muito pior antigamente, eu sei, mas ainda hoje é difícil acessar o lado B das histórias blucerchiate. Se é complicado hoje, imagina há 25 anos. Minha ideia para o papo então foi a de justamente buscar mais o lado B daquela época. Aquelas pequenas histórias que possivelmente poderiam soar como irrelevantes, mas que para um torcedor da Samp fariam os olhos brilharem e jogariam o imaginário do leitor para a época mais gloriosa do clube.


A pequena espera na recepção foi o suficiente para um download do primeiro gravador de áudio que achei na lista do celular. Logo o Silas apareceu me chamando pelo nome e sugerindo que sentássemos em um sofá mais afastado da TV e da Festa Junina que rolava do lado de fora. Expliquei um pouco mais sobre o projeto ESPN FC e adiantei a informação, quase como uma penitência:


"Eu não sou jornalista. Não veja isso como uma entrevista. É mais um bate-papo entre um torcedor que está na frente de um ídolo do clube".


"Ótimo! Prefiro que seja assim, cara", respondeu Silas, se ajeitando no sofá, pronto para começar a contar seus causos blucerchiati.


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Silas (à direita) na melhor Samp de todos os tempos


► Silas, você chegou na Sampdoria em 1991, num elenco que pela única vez na história do clube atuou com um scudetto bordado no peito. Como foi a experiência de jogar na Samp e fazer parte do plantel que para muitos foi o melhor time da história blucerchiata?


Foi uma experiência muito legal. Eu fui pra Itália no ano anterior, contratado pelo Cesena. Nosso primeiro jogo foi justamente contra a Sampdoria e eu joguei muito bem contra eles, lá em Gênova. E eu era muito amigo do Toninho Cerezo por causa da seleção brasileira. Quando terminou a temporada, a Samp precisava de alguém pra deixar o Mancini e o Vialli na cara do gol e, por causa da minha atuação no Marassi, eu fui monitorado o campeonato inteiro por eles. O Cesena caiu pra segunda divisão, o Lugaresi - presidente do clube – me ofereceu um saco de dinheiro pra ficar, mas foi bem quando a Samp entrou em contato. Me falaram que o Paolo Mantovani – maior presidente da história da Samp – queria falar comigo e aí eu me empolguei. Eu estava na seleção brasileira e achei que seria uma boa pra minha carreira ir pra Gênova. Mas ainda meio receoso de tudo, decidi ligar pro Cerezo. Aí eu falei:


- Toninho, os caras da Samp tão me ligado, o presidente que falar comigo. O que que faço? O que que eu peço de salário?


- Silas, ele vai perguntar mesmo. Quando ele perguntar você fala “Presidente, o que o senhor me der eu aceito”.


- Toninhooo do céu, não me fala isso, olha o que você vai me fazer, cara!


- Vai por mim, Silas. Se ele te der menos do que está na sua cabeça, eu cubro. Eu intero seu salário.


Aí eu fui. Cheguei lá, uma mansão no meio das rochas, na beira do mar, e o presidente me recebeu muito bem. E conversa vai, conversa vem, e eu numa ansiedade, até a hora que o Paolo virou e disse:


- Silas, você está nos nossos planos pra temporada. Com o Cesena eu me acerto, mas quero saber de você, quanto você quer de salário aqui?


Aí eu fiquei quieto uns segundos, suando, e falei “ah, o que o senhor me der tá feito”, mas com uma dor no coração e com uma dúvida se isso ia dar certo que as pernas tremiam. Mas acho que com essa frase eu conquistei a confiança do presidente porque ele me ofereceu um contrato que era maior do que eu imaginava. Aí depois eu falei “é, esse Toninho sabe bem com que está lidando”.


E foi muito bom porque o time tinha aqueles jogadores todos. Lombardo, Dossena, Katanec, Pietro, Lanna, Pagliuca... A Sampdoria era um clube muito família. O presidente abraçava o time e mantinha um clima ali que poucas vezes eu vi no futebol. O Lombardo era muito palhaço. Um dia o filho da mãe adiantou os relógios de todos os jogadores. De todo mundo, o das paredes e os que estavam nas mochilas dos jogadores. No outro dia a gente chegou quase duas horas antes do treino e nada do Boskov (treinador) chegar, e ele era super severo com isso. Começamos a ficar preocupados e quando ele chegou os jogadores foram perguntar o que havia acontecido e ele não entendeu nada. Aí o Lombardo contou que tinha ido nos quartos da concentração e aprontado essa. (risos) Quer dizer, esse era o clima do grupo.


A gente foi campeão da Supercoppa Italiana e todo nosso foco estava na Champions. A gente não tinha a pressão do scudetto, o elenco possuía jogadores tarimbados e buscando a seleção de seus países. Tinha muita fome e vontade de mostrar serviço ali. A Samp era muito forte.


► Você conviveu com os três maiores ídolos da Samp: Boskov, Mancini e Paolo Mantovani. Como que era sua relação com os três?


O Boskov era uma figura. Um grande treinador iugoslavo e ele seria, talvez, meio que um Joel Santana aqui no Brasil. Bem paizão. Fomos fazer a pré-temporada na Holanda e a gente estava no vestiário, e ele falava muito alto, então todo mundo ouvia ele dizendo “Ma qui na Holanda só se fala nesse tal de Romário. Esse brasiliano que nem sei quem é direito”. Aí o Toninho Cerezo falou “pois você vai conhecer ele hoje, Bosko”. Não deu outra. Dois a zero pro PSV. Dois do Romário, que jogou de tênis. Aí, depois da partida, o Cerezo ficou tirando “aí, muito prazer, Boskov, o Romário é aquele baixinho lá que fez os gols”. Mas ele tinha um jeito bem europeu de montar seus times e tinha uma tranquilidade muito grande pra conversar com cada um e explicar suas ideias. Era um paizão.


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Romário contra a Samp de Boskov: dois gols do baixinho


Já o Mancini era mais na dele. Mais particular. Ele se sentia mesmo meio dono do clube. Eu tinha uma relação, mas não foi muito próxima. Ele não era um cara muito aberto e era muito reclamão. Ao mesmo tempo, muito perfeccionista. Por isso se tornou um treinador top hoje. O Mancini era bem egoísta, no sentido ruim da palavra até. A bola precisava passar por ele sempre. Era bastante centralizador. Mas o time tinha o Cerezo, o Pietro, gente cascuda e que tinha autonomia pra questioná-lo, então o clima sempre foi bom. Se eles viam que podia azedar, tudo se resolvia num jantar com as famílias e pronto.


E o Presidente Mantovani nesta temporada não ia muito nos treinamentos, não. Aparecia mais pra algum evento, ou pra bater um papo informal com a gente e levar presentes. Era um paizão mesmo. Torcedor doente.


► A gente tá falando de uma época, Silas, em que a Itália tinha o melhor campeonato e os melhores jogadores do mundo atuando no Milan, Inter, Napoli, Fiorentina. Qual era o segredo da Samp?


Grupo. E a gente sabia exatamente usar o melhor de cada um. A velocidade do Lombardo, a genialidade do Mancini, o faro de gol do Vialli. O Cerezo com sua experiência e uma liderança e visão de jogo ímpar. O Vierchowod batendo até na mãe dele. Com tudo isso, a gente ganhou o respeito dos outros clubes.


► E aquela final da Champions contra o Barcelona...


Ah, o Campeonato foi uma festa, cara. Era nosso maior objetivo e a gente curtiu muito tudo que foi feito até terminar o jogo. Lógico que depois foi um clima de velório porque acreditávamos no título. O Barcelona da época não é o Barcelona de hoje. Foi um jogo muito igual, perdemos numa bola parada...


...tenho minhas dúvidas se foi falta do...


...não foi! Não foi falta do Invernizzi! A gente fala até hoje daquele jogo e não foi falta! E acabou que decidiu o jogo. E infelizmente o Koeman, como de costume, bateu bem demais, talvez um pouco de falha do Pagliuca, mas acabamos perdendo aquela final. Não tivemos muitas chances. Nem eles. Foi um jogo truncado e com o gol no final do tempo extra nem tivemos poder de reação.


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Final da Champions e a falta que nunca aconteceu


► Como que é Gênova, a torcida e a rivalidade de um Derby della Lanterna?


Ah, Gênova é um capítulo à parte. Minha mulher adorou Gênova! A cidade é linda. A gente tinha folga e corria pra Portofino, tinha uma marina ali perto e eu comprei um caiaque. Nos dias de folga eu botava o caiaque no carro e ia pra casa do Vialli ou do Mancini, que era na costa. Juntava os jogadores todos lá. E nos dias de folga minha esposa e eu saíamos com o Cerezo, o Katanec e suas esposas e íamos a Santa Magherita pra comer.


Lá é assim: os blucerchiati falam que é melhor ter um morto dentro de casa do que ter um grifonni batendo na porta. E eles falam o mesmo.


O Branco era meu amigo e jogava no Genoa. Um dia a gente saiu pra jantar e apareceu uma senhora imensa na mesa com a mão na cintura e gritando “Você pode me explicar o que está acontecendo aqui, Branco? Você sentado, comendo com um sampdoriano?”. Aí eu fiquei na minha e o Branco começou a discutir com a mulher em italiano.


Agora o derby era a morte. Podia perder o scudetto, mas não podia perder pro Genoa. E o Genoa daquela época tinha o Skuhravy, o Aguilera, o Branco, era um time muito bom. E a cidade se transformava em semana de Derby. É uma loucura aquilo. Como o torcedor, e italiano ainda por cima, é muito passional, lá você consegue andar mais ou menos pelas ruas. Eles te param e você é tratado como ídolo. Se jogar bem, portas se abrem na cidade toda. Em Gênova é uma coisa fora do comum. 


► E o que ficou da Samp no Silas de hoje?


Foi um tempo muito bom. Aprendi muito em Gênova e na Sampdoria. Uma pena que eu só fui desfrutar de tudo que aprendi na Itália quando fui jogar na Argentina, lá no San Lorenzo. Não sei se pela timidez, ou pelo idioma espanhol ser mais fácil, mas eu só fui entender bem tudo que eu passei na Itália quando não estava morando mais lá. A Samp me ajudou muito no San Lorenzo. Se eu tivesse sido 60% do jogador que eu fui na Argentina nos gramados da Itália, talvez eu tivesse ficado meus anos todos lá, por mais tempo com a maglia blucerchiata.


► Você acompanha a Samp até hoje?


Ah, vejo mais pela TV. Torço bastante. Ficou um carinho grande pela cidade e pelo time. Eu tenho umas 250 camisas de times lá em casa e da Samp eu tenho umas quatro.


...não fala isso perto de um colecionador...


Tenho inclusive a da Samp da final da Champions. Não voltei a Gênova depois, vou voltar em setembro. Quero ir lá com a esposa. Perdi os contatos, mas vou lá na sede, deve ter um jogador ou outro da época e eu vou visitar o clube. Eu fui campeão lá. Não é pouca coisa, né? Quero matar a saudade.


Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

Momento fã. Valeu, Silas!


Não sou muito adepto a pedir autógrafos, mas, depois de agradecer pelo bate papo que durou pouco mais de vinte minutos, pedi que assinasse minha camisa da Samp. Não sei quem estava mais feliz: eu de ouvir tudo aquilo, ou ele de relembrar aquelas histórias todas que estavam guardadas. Ele entrou em contato com o Doriva e o Cerezo ali mesmo para dizer que eu os procuraria e que me recebessem bem. Depois foram mais uns bons minutos de conversa sem o REC ligado. O Silas é um cara fenomenal e cheio de histórias boas. Sujeito simples. Daqueles que dá vontade de ser amigo do churrasco. Pra mim, um torcedor que ainda não conhece Gênova e que nem assisitu o time de coração das arquibancadas do Marassi, essas pequenas interações com gente que vive ou viveu tudo que você ama significa muito. Saí muito feliz de lá. Acho que não, mas, se para o Silas foi apenas mais uma entrevista, pra mim foi uma conversa pra vida.


Obrigado, Silas. :D