Sinalizadores e os tristes sinais dos tempos

Getty Images
Getty Images

 


O cardápio de jogos da TV na última quarta-feira foi farto. Era futebol que não acabava mais. Entre transmissões de todos os tipos e um controle remoto de pilhas fracas, resolvi ficar apenas no Corinthians e Internacional.


Foi um jogo bem legal. Exceto pelas paralisações.


Por duas vezes o árbitro pausou o cronômetro. Ordem da FIFA, da CBF, do delegado, sei lá de quem: enquanto houvesse sinalizadores no estádio, a partida não poderia continuar. Por mais linda que seja a festa, não pode. Ou apagam, ou apagam. Um daqueles aceso na arquibancada esfria na mesma hora tudo que acontece no gramado.


Sinais dos tempos.


Sinalizadores, esses usados lá na Arena Corinthians (e no Allianz Parque em 2016, e no leste europeu, e até nos EUA...), até onde sei – e sei praticamente nada -, é igual aqueles sinalizadores de Festa Junina. Coisa inofensiva. Qualquer criança brinca com aquilo e nada acontece. Tipo aquela vela que a gente acende pra comemorar o aniversário do amigo que não quer revelar a idade. As fagulhas são grandes e chamam a atenção, mas não oferecem mal a ninguém. Diferente, muito diferente, daquele sinalizador que matou o garoto Kevin Spada, lá na Bolívia.


São sinalizadores e sinalizadores.


Mas para o Estatuto do Torcedor, tudo é uma coisa só. O capítulo IV, no artigo 13-A, parágrafo VII é claro: “não portar ou utilizar fogos de artifício ou quaisquer outros engenhos pirotécnicos ou produtores de efeitos análogos”.


O erro é comparar um festim de Festa de São João com um projétil usado em navios. São coisas totalmente diferentes e de periculosidades muito distintas. Os sinalizadores usados em estádios no mundo inteiro hoje não representam perigo algum se bem manuseados. O maior risco, diria minha avó, seria o de fazer xixi na cama à noite por mexer com “fogo” que nem fogo direito é; de resto, apenas abrilhanta ainda mais a festa.


Agora, se o assunto é abrilhantar a festa das torcidas nos estádios, os cartolas brasileiros sabem como poucos trabalhar no sentido oposto. No estado de São Paulo, então, nem se fala. Anote: em pouco tempo os dirigentes conseguirão a façanha de transformar um jogo de futebol em praticamente uma missa de sétimo dia.


Porque as “políticas de segurança” daqui são altamente castrantes. Não à toa tem deixado a cultura da arquibancada tão estéril. Algo diferente do que vemos em alguns países que sabem que o espetáculo só é completo se houver sinergia entre o jogo e a festa nas arquibancadas.


Em fevereiro, a cidade de Gênova parou para assistir o Derby della Lanterna, clássico da cidade. Contar para os de lá as proibições de cá soa como surreal para os torcedores que começam a planejar os espetáculos de recepção dos seus times ao gramado meses antes do duelo. É impossível pensar uma entrada da Sampdoria em campo sem sinalizadores e fogos. Dá o play no vídeo abaixo:



Se você ficou indiferente a essa festa, eu lamento, seu lugar não é no futebol. Sugiro, se me permite, que aprofunde mais no xadrez.


O futebol é a sinergia do jogo com a festa das torcidas – no plural – na arquibancada do estádio. E a torcida tem a obrigação de expressar simbolicamente todas essas emoções que envolvem uma partida de futebol. Não estou aqui fazendo apologia à zona, à guerra, ao Deus dará, nem às bombas que a gente ouve nas transmissões do Campeonato Italiano pela TV, mas não dá pra aceitar calado esse processo de assepsia que tentam implementar nos estádios brasileiros. É o fim da picada proibirem bandeiras no estádio. É o fim do mundo pararem um jogo porque há faixas que se posicionam de forma contrária ao status quo.


José Lins do Rego escreveu uma vez algo que sempre compartilho: “O futebol é como o carnaval, um agente de confraternidade. Liga os homens no amor e no ódio. Faz com que gritem as mesmas palavras e exaltem os mesmos heróis. Quando me jogo na arquibancada, nos apertões dum estádio cheio, vejo e ouço o povo em plena criação”.


É isso.


Uma pena que quem comanda o futebol hoje, uma das maiores expressões culturais do país, queira o nada, o vácuo, o politicamente correto, a educação e bons costumes em um espaço de plena expressão popular e catarse. Seria como sonhar com uma plateia de teatro nos espetáculos do Coliseu.


O Campeonato Inglês pode ser exemplo em um monte de coisas pros campeonatos do Hemisfério Sul, mas a gente sabe torcer muito melhor que eles. A nossa relação com o time e o jogo é muito mais intensa e visceral. Os sinalizadores (os inofensivos) é uma das manifestações da festa, do amor e da paixão insana que é celebrar a entrada do seu time em campo ou o gol de canela do zagueiro.


O mosaico, a bandeira, a fumaça, o bandeirão, os hinos, a coreografia, a chuva de papel picado, a nuvem de pó de arroz e também os sinalizadores são elementos que funcionam como os que uma escola de samba precisa para desfilar imponente na Apoteose. Tire um deles que o todo fica comprometido. Nunca vai tirar DEZ.


Não me interpretem mal, mas faz bem pro futebol que as torcidas se expressem com uma alta dose de liberdade nas arquibancadas. Antes das leis, o bom senso. O bambu da bandeira no estádio é só o bambu da bandeira quando está nas mãos do torcedor de bem que, acredite, ainda é maioria, e está disposto a fazer da sua expressão de amor ao clube uma experiência inesquecível também para quem o assiste. A mesma lógica das bandeiras serve pros sinalizadores de hoje. Aprendi torcendo que o maior perigo pro futebol não está num estádio encandecido pelos sinalizadores, mas sim num Maracanã à meia luz iluminado por iPhones 7.


Tristes sinais dos tempos.


sampdoria.it
sampdoria.it

Bandeiras e Sinalizadores: festa blucerchiata em Gênova