Voa, Samp! Receita para atravessar o Vale da Morte

Sempre que a Sampdoria alcança os 45 pontos no campeonato eu sorrio e dou um discreto soco no ar. Estamos livres matematicamente da Série B. Eu sei que isso soa ridículo e que já há algumas rodadas essa paúra não deveria existir pela ruindade de Palermo, Pescara, Crotone e Empoli, mas tratando de Sampdoria, meu amigo, os 45 pontos é a estocada final no ventrículo do maldito Murphy que tantas vezes nos atazanou.


sampdoria.it
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Chupa, Murphy!


Chegar ao fim de abril, começo de maio, sem estar com a corda no pescoço é uma dádiva. Ninguém merece tamanho desalento. Tenho traumas o suficiente pra escrever isso.


Eu sou adepto do mínimo esforço muscular do meu coração quando o campeonato se aproxima da fase final. Se é pro meu time ser campeão, que vença com quatro, cinco rodadas de antecedência. Se é pra cair, que cumpra tabela desde a vigésima nona rodada. Sofrer já basta na vida com esses boletos todos pra pagar. 


Isso serve pro campeonato. Serve pro jogo.


No último jogo, por exemplo, poderia ser assim. Tomamos o gol de empate da Fiorentina aos 89”, depois de aguentar por bastante tempo uma pressão desgraçada. Que o gol de empate saísse aos, sei lá, 71". Sofrimento arrastado e desnecessário esse, ainda mais pra quem madrugou num domingo preguiçoso só pra assistir a partida. O empate trouxe um saborzinho chato de derrota. É muito ruim a sensação de flertar com os três pontos até os últimos apitos do árbitro. A gente lamenta mais os dois pontos perdidos que o ponto conquistado. Talvez Freud explique isso.


Enfim, resultados como esses precisam sair pela urina. Bola pra frente. O jogo sela um dos períodos mais complicados que o calendário reservou ao time blucerchiato. Enfrentamos nas últimas dez rodadas a Roma, o Milan, o Genoa, a Juventus, a Internazionale e a Fiorentina; uma sequencia inglória para quem estava poucos pontos a frente da zona de rebaixamento. Passar pelo vale da morte e sair com vida exigia uma mudança de postura profunda do time. Dois meses depois, o saldo foi bastante positivo. Das seis pedreiras, a Samp venceu quatro, empatou com a Fiorentina ontem e perdeu apenas para a imbatível Juventus.


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Chupa, Genoa!


Poucos conseguiram tamanho feito. Os grandes resultados catapultaram o time para a parte de cima da tabela. Se tivéssemos jogado o primeiro turno como jogamos o returno, certamente estaríamos na briga pela Europa League com Atalanta, Lazio e Milan. Há tempos não assistíamos partidas consistentes da Sampdoria contra os times do alto da classificação. E sempre deu jogo; jogos gostosos de se assistir. Ao fim da partida de domingo, mesmo com o gol aos 89”, a torcida cantou e fez reverências aos jogadores. Eles merecem os aplausos, o time tem nos dado lá algumas alegrias.


A receita? Clareza, unidade e disposição.


A nítida evolução é mérito de Giampaolo, treinador blucerchiato que renovou contrato até 2020 na última sexta-feira. Nunca questionei sua competência, apesar de ter ponderado que ele não era o homem pro cargo neste momento. Sua principal virtude foi dar um plano de jogo ao time. O treinador é claro nas suas ideias de futebol - sejam elas boas ou ruins -  e transmite com clareza aos jogadores, que tem entendido bem e executado o que o mister quer. Já estávamos resignados com os chutões da zaga e com um time sem capacidade criativa, coisas que nem Mihajlovic nem Montella deram jeito. 


Criar um ambiente de trabalho muito bom entre os jogadores em Bogliasco também conta a favor de Giampaolo. O time muda bastante os onze que iniciam as partidas e todos se sentem muito parte do projeto, seja em campo, seja no banco. O elenco não é de ponta, mas tem potencial, e é nítido que as limitações são conhecidas e sanadas com muita disposição. Jogadores tem terminado os jogos extenuados. Para vencer a Roma os caras suaram sangue. Contra Milan e Inter, no San Siro, o time mostrou uma frieza e inteligência que poucas vezes vi. E no Derby vencemos só por 1x0 mas dominamos amplamente a partida, o gol era questão de tempo. 


A sensação de que podemos enfrentar qualquer um de igual para igual, deixa a torcida bastante esperançosa. Temos uma temporada que precisa ser aplaudida pela proposta e disposição do time, principalmente no returno. Se a base for mantida, poderemos sonhar com uma próxima temporada melhor do que a atual.


Por outro lado, a frustração de que poderíamos ter ido mais longe também passeia pelas nossas papilas. Uma pena a reação ter chegado tão tarde, aos 89” do campeonato.



Sampdoria 2
Fiorentina 2
Reti: p.t. 5′ Fernandes; s.t. 15′ G. Rodriguez, 26′ Alvarez, 44′ Babacar.
Sampdoria (4-3-1-2): Viviano; Bereszynski, Silvestre, Skriniar, Dodô (29′ s.t. Regini); Barreto, Torreira, Linetty (34′ s.t. Alvarez); Fernandes (20′ s.t. Praet); Quagliarella, Schick.
A disposizione: Puggioni, Falcone, Simic, Palombo, Regini, Pavlovic, Cigarini, Djuricic, Tessiore, Budimir.
Allenatore: Marco Giampaolo.
Fiorentina (3-4-2-1): Tatarusanu; Sanchez, G. Rodriguez, Astori; Tello, Badelj, Milic (28′ s.t. Chiesa); Ilicic (1′ s.t. Kalinic), Bernardeschi (36′ s.t. Saponara); Babacar.
A disposizione: Sportiello, De Maio, Olivera, Salcedo, Cristoforo, Hagi, Maistro, Mlakar, Tomovic.
Allenatore: Paulo Sousa.
Arbitro: Russo di Nola.
Assistenti: Dobosz di Roma 2 e De Pinto di Bari.
Quarto ufficiale: Vuoto di Livorno.
Arbitri addizionali: Pairetto di Nichelino e Aureliano di Bologna.
Note: ammoniti al 25′ p.t. G. Rodriguez, al 22′ s.t. Praet, al 30′ s.t. Alvarez per gioco scorretto; recupero 1′ p.t. e 4′ s.t.; abbonati 16.789 (rateo 164.806 euro), paganti 2.558 (incasso 46.681 euro); terreno di gioco in buone condizioni.