As 5 camisas 'menos bonitas' da Sampdoria

“Toda unanimidade é burra”, escreveu certa vez Nélson Rodrigues. Em um Rio de Janeiro pulsante, a cidade maravilhosa era rica de matéria-prima para a obra do jornalista e escritor que, ocupado por tudo isso, não deve ter tido muito tempo para conhecer bem a Sampdoria e sua maglia.

Porque na vida como ela é, se conhecesse a camisa da Samp, teria pensado duas vezes antes de dizer sobre a tal da burrice unânime. Não tem quem ache nosso manto feio. A gente discute tudo, até a seleção de 82, menos a beleza da camisa da Samp. É algo sacrossanto. Roupa de ir na missa.

Mesmo assim, mergulhei na história blucerchiata em busca de alguma camisa da Sampdoria em que pudesse olhar e dizer “cagaram, conseguiram cagar numa camisa da Samp”. Sou suspeito pra dizer isso, mas não encontrei. Desejei tantricamente cada uniforme encontrado e o máximo que consegui catalogar foram camisas ‘menos bonitas’ do time mais amado de Gênova.

O que já é alguma coisa.

Segue minha chorada lista. Para evitar distorções, exclui das análises as camisas de goleiros – até porque as que o Pagliuca usava são hors concours.  

5. Temporada 1988/1989 – Home


Montagem
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Já aviso que vou me apegar aos mínimos detalhes para escolher o Z5. Eu gosto de camisas de futebol, no geral, e uma das coisas que sempre olho é o número nas costas. Um número feio atrapalha o conjunto. Hoje em dia é opcional ter o 10, o 8, o 87 atrás quando você compra a camisa do seu time, antigamente não era. Na camisa da temporada 88/89 a sensação que eu tenho é a de que eles simplesmente esqueceram que precisava ter um número nas costas, aí silkaram um A4 com o número impresso e foram pro jogo. A camisa, claro, é linda, mas esse quadrado branco matou. É como aquela pessoa bonita, linda, e que tem uma verruga enorme bem no queixo. O rosto é lindo, simétrico, mas aquela verruga chama uma atenção desgraçada e acaba com tudo.

4. Temporada 1998/1999 – Away


Montagem
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A Samp foi rebaixada nesta temporada e isso já é motivo pra esquecer tudo que aconteceu naqueles meses. A Asics pecou em um princípio básico ao desenhar uma camisa da Sampdoria: menos é mais. Faça o simples que não tem erro. A camisa ficou cheia de pequenas firulas desnecessárias. A gola parece um chocalho, ou um daqueles babadores que o Bozo usava. As listras ficaram muito finas, e a tentativa de deixar o escudo do clube num formato minimalista também ficou estranho. Extraíram tudo e deixaram apenas o vetor do Baciccia, mascote do clube. Não satisfeitos, o vetor foi replicado, enorme, nas costas. A camisa ficou parecendo um abadá.  

3. Temporada 2015/2016 – Terza maglia


Getty Images
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Amarelo. Amarelo. Listras na vertical. Escudo do clube no braço. Esta camisa é a materialização do termo conflito. Eu gosto do escudo na manga da camisa, remete à uma Samp histórica. As listras na vertical eu sempre estranho. Sou bastante tradicional no quesito uniforme e, por mais que a história mostre que muitas vezes o time entrou em campo com listras descendo pelo ombro, eu sou adepto e apaixonado pelas tradicionais listras na horizontal, de preferência abaixo do peito, quase na barriga. Já o amarelo me estranha demais. Foi usada em 1999, os goleiros usaram uma versão bonita em meados da década 2000, mas este uniforme, pra mim, não desce.

2. Temporada 2016/2017 – Away


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Não à toa escolhi o Barreto, o Marquito blucerchiato, para representar este uniforme


De novo, a Joma. Nunca morri de amores por ela (este texto explica bem um dos motivos) e neste desenho eu odiei a forma como trataram as listras horizontais. Ok, eu sei, sou um chato de galocha. Sou. Com uma caneta dessas de quatro cores você desenha a camisa da Samp e ela fica linda. Pra que inventar tanto? Parece que ela foi feita no PaintBlush. Infantilizou algo que precisa transmitir respeito pro adversário. É um fardamento isso, não um uniforme da quarta série. 

1. Temporada 1997/1998 – 4ª maglia


Montagem
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Esta camisa é histórica. Celebra os 50 anos do clube e é o meu sonho de consumo. Mesmo sendo feia. Ponto. Uma coisa não anula a outra. Aqui a gente precisa separar a importância histórica, da estética. Igual aquele programa Trato Feito: o revólver é velho, feio, enferrujado e... histórico, e o careca dono da loja de penhores não mede esforços pra comprar a arma. Ela pode ser histórica e valiosíssima, a menina dos olhos de muitos, mas continua sendo velha, feia e enferrujada.

Esta camisa tão diferente celebra os clubes que formaram a Sampdoria, em 1946. A parte frontal homenageia o Andrea Doria e as costas, a Sampierdarenese. A camisa do Andrea Doria era linda, como era a da Sampierdarenese. O problema foi que a Asics não conseguiu harmonizar muito os desenhos das camisas e fez simplesmente um CtrlC_CtrlV. Aquele famoso mezzo, mezzo que dá super certo pras pizzas, mas não necessariamente em camisas de clubes de futebol. A frente não conversa com as costas. Não ficou nem perto da beleza que os uniformes clássicos da Sampdoria carregam, mas a importância histórica e o desejo por ela equivalem seus traços, digamos, nada simétricos.