A Roma sempre será a freguesa premium da Sampdoria

Getty Images
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O texto não vai falar apenas do jogo de domingo, mas sim sobre essa pequena apoteose que é ser pedra no sapato na vida de alguém. Essa função social tão marginalizada pela história na verdade faz as engrenagens do mundo girar e possivelmente foi catalogada nos livros quando os sapatos ainda nem haviam sido inventados. Ouso dizer que os egípcios deram o nome sapato ao sapato por causa do termo ‘pedra no sapato’ que era alcunha praquele escriba que dava uma nota fora e estragava todos os planos de expansão do Faraó El alguma coisa Shaarawy.


Esse cara sempre existiu e, acostume-se, não vai entrar em extinção.


Para seu cuidado, é bom que saiba que ele sempre vai estar nos momentos mais inconvenientes. Aliás, é por causa dele que a merda toda acontece. O ‘Pedra no Sapato’ é o antiêxtase do dominador. Seu habitat natural é a margem dos acontecimentos. Ele mora na quase-vitória, no “Hoje não! Hoje não!... hoje sim!? Hoje sim?!”, nas entrelinhas das resenhas que buscam entender qual a causa daquele quase título, daquele quase gol.


Antes de você enxergar essa figura como um ser desprezível, é bom que saiba também que você inevitavelmente é um deles. Seres mais evoluídos chamam de Kharma, mas o certo é pedra no sapato mesmo e isso não é o fim do mundo. Você é pedra e tem também as suas bem acomodadas ali entre o mindinho e o couro da botina 43. O mundo é assim, um vai e vem, o lance é saber como lidar nessa quizomba toda.


No futebol, então, a função de pedra no sapato fica super evidente. Os exemplos surgem em profusão e com certeza sua memória já fisgou aquele atacante bichado e velho que sempre deixa o dele contra o teu time. Souza Caverão manda um salve pra vocês, botafoguenses.


Não tem jeito. São nas pedras que estão talhadas as melhores galhofas no mundo da bola. São por causa delas que os poderosos, cheios de si, tremem. Uma vez precisei dar água com açúcar a um amigo palmeirense quando numa prosa citamos o Asa de Arapiraca. E por aí vai: Baraúnas, o Flamengo na Arena da Baixada, o Mirassol, Paolo Rossi, Mazembe, a Noruega e outros tantos pedras que o futebol cria são como aqueles cálculos que estão alojados nos rins e que descem sempre sorrateiramente como uma caxumba pra ponta da chuteira.


O mais divertido nisso tudo é que, pra ser pedra, precisa estar lascado. A lei da natureza impõe que o céu precisa estar de brigadeiro pra um e fechado pro outro. Só assim a mágica acontece. Veja o Vasco, todo lascado, mas imponente diante de uma invencibilidade que tira o sonho do estruturado e sempre favorito Flamengo.


Outro exemplo. Quis o destino que a Sampdoria, insossa e sem vencer há cinco mil partidas, enfrentasse uma Roma com chances reais de se tornar líder do campeonato italiano depois de anos. Não podia dar outra. Vitória blucerchiata com requinte de crueldade.


Eu já escrevi algumas vezes que me tornei um torcedor resignado da Sampdoria. Não espero mais dela grandes conquistas e títulos barcelonescos. Aceito e aprendi a me divertir com pequenas doses de triunfos, e ser pedra no sapato da Roma é, sem dúvida, uma das mais divertidas.


Em abril de 2010 a Roma brigava cabeça por cabeça com a Internazionale pelo scudetto, quando encontrou em sua frente a Sampdoria no Estádio Olímpico. Contra todos os prognósticos, o time de Gênova estilhaçou os sonhos de título da Roma com um Pazzini inspirado e venceu de virada o time da capital. Uma vitória histórica e lembrada por todos até hoje.


Montagem
Montagem

Samp faz Mexes (em 2010) e Keita (em 2015) sairem de campo aos prantos. Não tem preço que pague isso


Em condições normais seria um jogo comum para Roma, seja aquele de 2010, seja este do domingo último. Mas quando é contra a Samp, e quando o time romanista está prestes a conquistar algo grande, certeza, vai dar ruim. Não tem outra. A Roma é, e sempre será, freguesa premium do time blucerchiato.


Porque existem os fregueses fiéis. Aqueles que todo santo dia batem à sua porta e te dão lucros. E tem aqueles que não aparecem sempre, mas quando aparecem deixam um rim e metade dos pertences na sua caixa registradora. Estes dão mais prazer. Possivelmente um romanista mais fanático já acessou um desses sites de análises de resultados para ver se a frase do título procede. Pois não perca seu tempo, eu já fui e trago a informação para vocês.


Em 127 jogos, são 52 vitórias pra vocês e 40 pra gente. Ok. No todo, vocês venceram mais. Mas quando a gente vence, vence em momentos que vocês não podem perder de maneira alguma. Isso amplifica tudo e torna a derrota dolorosa demais para vocês. Somos comprovadamente suas pedras no sapato, e isso é um dos pequenos troféus que levo comigo ao fim de cada temporada.


A Roma fez seu gol logo no início e deu como certo os três pontos. Do outro lado uma limitada Sampdoria jogou com muita disposição e ciente da velha máxima que contorna a história do duelo. Como em 2010, a vitória gialorossa escapou entre os dedos e doeu na alma do torcedor da capital. A Roma chegou a ser líder do campeonato por alguns minutos. Alguns. Logo a Samp a devolveu ao seu lugar natural no curso da vida: a de ter encravada em seus sapatos uma pedra blucerchiata das mais pontiagudas. E assim vai ser. Conformem-se, já sabemos de cor o seu CPF.



Sampdoria 3
Roma 2
Reti: p.t. 5′ Peres, 21′ Praet; s.t. 21′ Džeko, 26′ Schik, 28′ Muriel.
Sampdoria (4-3-1-2): Puggioni; Bereszynski, Silvestre, Skriniar, Regini; Barreto, Torreira, Praet (17′ s.t. Linetty); Fernandes (24′ s.t. Schick); Muriel (39′ s.t. Djuricic), Quagliarella.
A disposizione: Krapikas, Tozzo, Dodô, Alvarez, Palombo, Pavlovic, Cigarini, Budimir.
Allenatore: Marco Giampaolo.
Roma (3-4-2-1): Szczesny; Rüdiger, Fazio, Vermaelen (42′ s.t. Paredes); Peres (32′ s.t. El Shaarawy), Strootman, De Rossi (33′ s.t. Totti), Emerson; Nainggolan, Perotti; Džeko.
A disposizione: Lobont, Alisson, J. Jesus, Seck, M. Rui, Gerson, Manolas.
Arbitro: Mazzoleni di Bergamo.
Assistenti: Barbirati di Ferrara e La Rocca di Ercolano.
Quarto ufficiale: Meli di Parma.
Arbitri addizionali: Rocchi di Firenze e Maresca di Napoli.
Note: ammoniti al 29′ p.t. Torreira, al 6′ s.t. Vermaelen, al 27′ s.t. Rüdiger per gioco scorretto, al 15′ s.t. Puggioni per proteste, al 46′ s.t. Totti per comportamento non regolamentare; recupero 0′ p.t. e 4′ s.t.; abbonati 16.789 (rateo 164.806 euro), paganti 3.020 (incasso 75.425 euro); terreno di gioco in buone condizioni.

Estatísticas do jogo