Pagliuca ou Taffarel: quem seria o seu camisa 1?

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Sai que é sua, Pagliuca!


A frase fica mais sonora com Pagliuca, convenhamos, mas está imortalizada com o nome do Taffarel. Nem é só o “Taffarel”, com dois éfes e um 'é'. É Taffffareeeeeeeeeeeeeeeeel!! De forçar a laringe como se gargarejássemos água morna e sal pra combater a inflamação na garganta.


A primeira Copa do Mundo que eu me recordo do início ao fim foi a dos Estados Unidos. Podem xingar à vontade a qualidade do futebol entregue naquele Mundial que mesmo assim ela continuará intacta em um lugar muito especial na minha pequena coleção de memórias.


A gente fala muito dos jogos truncados e daquela Seleção Brasileira protocolar, mas esquece que muito da culpa da escassez de gols se deveu à lista de bons goleiros que estiveram nos gramados norte-americanos. Illgner, Preud’homme, Zubizarreta e até os bonachões Tony Meola e Jorge Campos tiveram ótimos desempenhos no campeonato. Dos grandes destaques sob as traves, Pagliuca e Taffarel foram à final e protagonizaram uma das grandes batalhas da história, um bônus track de um duelo que já acontecia nos gramados italianos.


Aqui no Brasil, quem não conhecia Gianluca Pagliuca certamente passou a conhecer quando aquele chute despretensioso do Mauro Silva teimou em não morrer nos braços do goleiro italiano. A bola zombou da física e das preces brasileiras ao encostar na trave direita em slowmotion e voltar como um filho pródigo para os braços do pai. O beijo na trave e a respiração de alívio foram o gran finale para eternizar o momento no imaginário popular. Ficou taxado por aqui como um goleiro de sorte, enquanto Taffarel, todos sabemos, como ídolo e pegador de pênaltis.


Mas e fora do território nacional, aos olhos do Mundo, quem foi mais goleiro? Apesar da derrota em 94, Gianluca, no fim das contas, foi melhor que Taffarel? O Taffarel pegava mais pênalti que o Pagliuca. O Pagliuca (e até a minha avó) saia do gol muito melhor que o Taffarel. Se a camisa 1 estivesse na sua mão, pra qual dos dois você a daria?


Porque Pagliuca foi muito mais do que um goleiro sortudo. Em uma década com safra farta de guarda-redes na velha bota, ele se destacou como um dos grandes e fez história no país como alicerce de uma Sampdoria campeã de quase tudo que disputou. Cria do Bologna, o Gatto di Casalecchio iniciou sua carreira profissional na Samp, em 1987. Vestido sempre com uniformes excêntricos, que mais pareciam a toalha de mesa da nonna, o goleiro entrou em campo pelo time de Gênova 264 vezes. Cada apresentação era um espetáculo. Com pontes desnecessariamente mirabolantes, fazia das defesas simples verdadeiros milagres. Talvez fosse preciso apenas encaixar a bola, mas o duplo twist carpado antes da defesa deixava tudo mais belo e divertido. É função dos ídolos também divertir a plateia.


Pagliuca era forma, mas também conteúdo. Esguio e com um reflexo muito apurado, o goleiro ganhou o apelido de "gato" pela rapidez de raciocínio e defesas difíceis. A sequencia de partidas consistentes o tornou unânime como o principal goleiro do futebol italiano e dono da camisa número 1 na seleção. Nos oito anos de Sampdoria atingiu seu ápice com três Copas da Itália, uma Super Copa, uma Recopa Europeia, uma Taça das Taças Europeia, o vice-campeonato da Champions e o scudetto de 91. Títulos e apresentações seguras que o levaram maduro e certo de que faria uma grande Copa do Mundo nos Estados Unidos.


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Pagliuca, campeão de quase tudo com o manto blucerchiato


No mesmo Campeonato Italiano em que Pagliuca era decisivo e ovacionado, jogava Taffarel. Com atuações pelo Parma e Reggiana, o brasileiro não teve o mesmo protagonismo do portieri blucerchiato. Taffarel foi quem desbravou o mercado de goleiros para os brasileiros no país europeu. Teve uma passagem importante no Parma, mas foi dispensado dois anos antes da Copa. Esquecido, disputou campeonatos periféricos em Reggio Emilia, chamando a atenção da Reggiana, time da cidade, que o contratou. Com atuações incríveis, foi fundamental  na manutenção do time na série A do Calcio. Mesmo assim, chegou nos Estados Unidos questionado e sob a desconfiança de muitos.


As micro-histórias que se aglutinam para contar o que foi a Copa de 94 passam inevitavelmente pelos dois goleiros. O italiano era melhor que o brasileiro, vinha de uma temporada vitoriosa, colecionava títulos nos últimos anos e estava de contrato novo com a poderosa Internazionale de Milão. Taffarel tinha um futuro incerto e o peso de uma amarelinha que há duas décadas não bordava uma nova estrela no peito. Tudo isso convergiu para as cobranças de pênaltis no Rose Bowl, uma disputa que criou um herói até então subestimado e um vilão sem uma pecha sequer de ruindade. Taffarel virou mito, grande nome da Copa, enquanto Pagliuca é lembrado apenas nos rodapés daquele Mundial como o primeiro goleiro a ser expulso em uma Copa do Mundo.


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Final da Copa de 94: a primeira disputa de pênaltis a gente nunca esquece


O futebol tem dessas coisas, é inexato, e talvez por isso nos causa tanta paixão. O que aconteceu depois de 1994 reforça o argumento de que Pagliuca foi mais goleiro que Taffarel. As histórias mostram que Gianluca teve uma carreira mais sólida no futebol. Mas Taffarel tem uma taça do mundo e um jargão que vai perdurar por mais alguns séculos. Quando criança, no futebol de rua, meu maior dilema era decidir se seria o Taffarel ou Pagliuca; em dias de pá-virada, o Higuita ou Jorge Campos.


A minha pequena coleção de memórias tem um enorme carinho pelos dois. Talvez eles nunca vão saber que eu mascava um chiclete imaginário e erguia a gola da camisa igual o Pagliuca fazia nos jogos, e gritava “Taffareeeeeel” quando defendia a bola de meia. Mezzo Pagliuca, mezzo Taffarel, dois monstros debaixo das traves. Eis o modelo perfeito do que é ser um goleiro completo para aquele moleque que assistia maravilhado a sua primeira Copa do Mundo.