Samp não precisa de Gabigol, o jogador 'leite com pêra'

Quando Frank de Boer, então treinador da Internazionale, divulgou os relacionados para a partida contra a Sampdoria, o nome de Gabigol não estava incluído na lista. Dizem que o atacante chorou e ameaçou deixar o clube. Decepcionado, quis voltar para o Brasil.


Eu cresci assistindo ao futebol da década de 1990, menos opulento, mas muito mais visceral e divertido. Por muito menos o Viola deixou a cidade de Valência para voltar às terras tupiniquins. Nem ameaça fez, por saudades do arroz e feijão; deu uma banana ao futebol europeu e veio se refestelar em feijucas e joelhos de porco. Letra A, esse Viola.


Ao ser catequizado por Paulo Nunes, Jardel, Viola, Romário, Edmundo, Djalminha, Alex Alves, Odvan, Djair, Tonhão, Dinho, Renato Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Edílson Capetinha, Amaral Coveiro, Marcelinho Carioca, Paulinho Mclaren, Juca Baleia e outros ídolos do futebol de chuteiras pretas, aprendi a olhar meio de esgueio a essa nova geração de jogadores celebridades.


Aliás, o nome dos jogadores da década retrasada dizem muito sobre essas mudanças de gerações. Os nomes antigamente faziam o personagem. Se o Uidemar, campeão pelo Flamengo em 92, surgisse hoje para o futebol, possivelmente teria estampado nas costas da camisa “Uilde”. Ouso dizer que poderia descer até ao grunhido apelido de “Ui”.


Dose isso.


Já li alguns textos em que chamam estes jogadores de “leite com pêra”. Gosto da alcunha. Mimados, eles se cercam de assessores e mimos dignos de um superstar no camarim. Vivem em um universo paralelo ao que o futebol pede. São menos cicatrizes e mais maquiagens. A cada lance, uma olhadela no telão que transmite ao vivo suas caras e bocas para o mundo.


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Mandamento dos Leite com pêra: selfie é selfie e nada pode ser maior que a sua foto no Insta. Nem o Zanetti


A principal dificuldade dessa geração é justamente jogar bola. Pelo menos a bola que a torcida espera que eles joguem. Perdemos anualmente dúzias de jogadores que seriam craques se tivessem a cabeça no lugar. Por outros tantos, somos enganamos por um marketing fajuto, que não os sustentam por mais do que duas ou três temporadas. O glamour, o dinheiro, seu nome no FIFA 17 e a corrente de três quilos no pescoço os consomem mais que as táticas, uma vida regrada, foco e conhecimento sobre seu trabalho.


Não estou isentando os jogadores da minha infância. A diferença é que o Viola jogava bola quando queria. Melhor. Mostrava fome de bola. De feijão, e de bola. Já os “leite com pêra” precisam ser muito, mas muito bons para se sobressairem no futebol de alto nível.


O Neymar, por exemplo, pra mim é um “leite com pêra”. Acho-o um mala sem alça. Desses que dá preguiça, sabe. Mas o cara é um fora de série. Pode aloprar como bem entende nas redes sociais e levar seus doze amigos pra morar com ele em Barcelona que o seu futebol em campo ofusca e permite que ele tenha a vida como superstar-amigo-do-Bieber que quiser.


Já outros, não. Não se sustentam. E o Gabigol é um deles. Nunca o vi como craque e sempre o achei supervalorizado pela imprensa. Não é um perna de pau, mas não vale a fábula que o levou para o futebol europeu. Tudo bem que tem a famosa adaptação. Mas vejo nele muito mais um caso de jogador midiático do que jogador promissor, como Gabriel Jesus, por exemplo.


Gabigol está sofrendo na Itália porque não mostrou até hoje ter estrutura pra ser um jogador completo. Seus dezesseis minutos em campo na temporada comprovam isso. Seu sofrimento passa muito também pela carência dos holofotes que não mais estão mirados pras suas sobrancelhas milimetricamente tosadas. Esquecido em Milão, o time nerozzurro não quer desvalorizá-lo ainda mais e por isso planeja emprestá-lo o quanto antes para que o brasileiro ganhe rodagem. E quem pode ser o flanelinha da vez? Claro, a Sampdoria.


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Eu quero a bola aqui, ó, pra eu fazer o meu gol


Alguns jornais italianos escrevem esta semana sobre uma nova possível troca entre a Inter e o time de Gênova. A troca, obviamente, pende positivamente para o time mais famoso. Eles nos mandam seus esquecidos, e nós enviamos o que temos de melhor. Muriel, que faz um campeonato excepcional, e o jovem volante Torreira estão na alça de mira do time de Milão. Em contra-partida, ofereceram Gabigol e mais um zagueiro: Ranocchia ou Andreolli. O presidente Ferrero é um profundo admirador de Jovetic, mas dificilmente a Inter deve colocá-lo na negociação.


Sampdoria e Internazionale sempre fazem algum escambo na janela de inverno. Não me lembro de uma só troca em que levamos vantagem. Gabigol viria para ganhar rodagem no futebol da Itália. Se, de fato se adaptar e mostrar um bom futebol – digno que seja -, vai arrumar as malas e voltar tão logo para Milão. Não vale o risco.


Por incrível que pareça, o time blucerchiato vai bem, obrigado. Mostra um futebol bem entrosado e em evolução. Seu ataque formado por Muriel e Quagliarella é um dos melhores do campeonato italiano. Depois da dupla Cassano-Pazzini, Muriel-Quagli é o que temos de melhor nos últimos tempos. Desestruturar este ataque por causa do Gabigol é, acima de tudo, uma insanidade sem tamanho. Como o presidente da Sampdoria adora fazer uma burrada, não é nenhum absurdo que ele faça algo do tipo.


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Muriel e Quagliarella, um dos melhores ataques do Calcio. Gabigol é banco lá e seria aqui também


Não precisamos do Gabigol em Bogliasco. Que ele ganhe casca em outros campos. Na Samp as coisas são infinitamente mais difíceis que na Inter e a atmosfera no elenco parece ser a melhor possível. A Sampdoria, graças a Deus, não faz o tipo pro Gabigol. E o Gabigol não faz o tipo da Samp. Somos mais, digamos, Cassano. Aqui o buraco é bem mais embaixo. Não temos tempo para pití e showzinhos particulares.