Desculpa, Chape, não aprendemos com os colombianos

Eu perdi minha mãe há pouco mais de quatro anos. Morte meio repentina, dessas difíceis de depurar. Não que a gente esteja preparado pra morte de quem ama, mas aquela que te pega no contrapé, quando você menos espera, é, sem dúvida, um baque dos mais fortes. A assimilação cai em conta-gotas e eu acordo até hoje com o meu superego falando “bom dia, Júlio. São sete e vinte, acorde, tome banho e sua mãe morreu”. É um soco na boca do estômago logo que abro os olhos todo dia.


Normal pra quem já passou por isso ficar mais sensível em tragédias como a da semana passada. Principalmente ao assistir o funeral coletivo do último sábado. Ver aqueles familiares aos prantos te joga em parafuso nas tuas feridas, ainda que em processo de cicatrização. Me deu vontade de colocar cada um deles no colo e niná-los até que parassem de chorar.



Uma das coisas que me ajuda muito neste processo de depuração é tentar ver um pouco da Dona Tina nas pessoas, em pequenos atos do dia a dia que até então passavam despercebidos e só agora vejo como ensinamentos que ela deixou quando não necessariamente estava tentando me ensinar. Foi assim que aprendi que é no vazio, na ausência, em meio ao caos e nos meus pequenos infernos pessoais que ela aparece e, como a melhor mãe do mundo que era, me ensina e me faz sair mais forte dos perregues que a vida insiste em pregar.


A tragédia de Medellín foi enorme e vai ficar pra sempre nas nossas retinas. Não teve um só dia que não me peguei chorando com as histórias. Em meio à tanta dor e sofrimento por pessoas que nunca vi mas que pareciam tão próximas, acionei meu dispositivo de segurança pra tentar tirar ensinamentos disso tudo - absorver tanto luto não pode fazer bem nem ao mais mórbido dos humanos.


Foi então, ainda perplexo pela tragédia, que vi um Atanasio Girardot repleto de Donas Tinas. Um estádio pulsando valores de grandeza que parecem tão básicos, mas que o mundo doente e de competição insiste em desmoralizar. O que se viu dos colombianos foi uma onda de amor maternal pra milhões de órfãos que perderam o chão. Uma dor dilacerante transformada em solidariedade, carinho e cuidado, como o gesto da Dona Ilaídes. Que mulher. Que mãe. Eu senti o abraço quente da Dona Ilaídes. Que momento. Vi a Dona Tina nela ali também. Se um dia encontrá-la na rua, Dona Ilaídes, juro que vou pedir ‘a benção’ pra senhora.


É paradoxal, mas foi em meio à morte, ao luto, que voltei a ter fé na humanidade.



Talvez a gente precisa aprender a ser mais mãe, a emanar mais amor independente da situação. Faltam Donas Ilaídes no mundo. Faltaram Donas Tinas no Luigi Ferraris.


Foi bem decepcionante não ver um só pontinho verde no Luigi Ferraris domingo. Esperei ansioso por homenagens da Sampdoria à Chapecoense e assisti apenas ao minuto de silêncio protocolar imposto pelos organizadores do campeonato e a faixa negra nos braços de alguns jogadores. A Samp tinha tudo para prestar umas das mais belas homenagens, ela enfrentou o Torino (outro clube que tem a história marcada por um desastre aéreo) e nada fez além de um post no Facebook na terça-feira. Faltou grandeza à Samp em um momento de consternação mundial, faltou sintonia, faltou bom senso pra quem dirige e joga pelo clube e também à torcida. Uma tremenda bola fora. Que a Dona Tina não saiba disso pro chinelo não cantar. Minhas desculpas pelo tamanho vacilo do time que amo, Dona Ilaídes.


Getty Images
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É o de menos, mas a samp venceu por 2 a 0