Encurralada, Roma procura fugir de 'la décima'

MetMuseum.org
MetMuseum.org

Office in a Small City, Edward Hopper (1953)


O que você estava fazendo em 24 de maio de 2008?


Eu estava no meu quarto, sentado em uma cadeira de madeira, fitando uma televisão de tubo acinzentada. Naquele dia, um jogo único no Stadio Olimpico decidia o título da Coppa Italia entre Roma e Inter – a quarta final seguida entre elas. Mexès marcou um golaço, e Perrotta, outro. Pelé diminuiu – com mais uma pintura. Lembro exatamente do susto proporcionado pelo foguete disparado pelo português, o qual hoje defende o Anorthosis Famagusta, do Chipre. A Inter quase empatou com Crespo – já grisalho –, mas os giallorossi se seguraram. Totti e Taddei desfalcaram a Roma, mas naturalmente participaram da festa. O capitão recebeu a taça diretamente do presidente Giorgio Napolitano. Nas costas de sua camisa branca, a data: “24-05-08”.


A não ser que Totti seja um demiurgo em contato com forças ocultas, ele não sabia que naquele momento levantava um troféu pela última vez em sua carreira. Os anos se passaram: mudou o técnico, mudou a gestão, mudaram os atletas; os uniformes mudaram, o escudo mudou, o técnico voltou. Nada disso alterou o marasmo da sala de troféus, pois a Roma está muito próxima de “la décima” – isto é, la décima temporada sem títulos. A infeliz proeza se concretizará se a equipe não conquistar nada na temporada 2017-18.


Em maio de 2008, os celulares e televisores não eram necessariamente computadores, e os computadores não eram esses computadores. A primeira temporada de Big Bang Theory havia acabado, assim como a primeira temporada de um adolescente Balotelli pela Inter. Take a Bow, da Rihanna, era a música mais tocada da Billboard. Onde os Fracos Não Têm Vez havia conquistado o Oscar – Mad Men ganharia o Emmy. Barack Obama ainda não era candidato oficial dos Democratas para a presidência dos Estados Unidos. Em São Paulo, Kassab, Marta e Alckmin; Maluf, Soninha e Ivan Valente disputavam a prefeitura. No Rio, Paes, Gabeira e Crivella; Jandira, Molon e Solange Amaral.


Divulgação (ASRoma.com)
Divulgação (ASRoma.com)

"Você tá desanimado porque o Perrotta usa duas munhequeiras com o próprio nome?"


Desde então, David Bowie ressurgiu e lançou dois discos. Muitas bandas de que gosto voltaram – Blur, Suede, Pulp, Slowdive, My Bloody Valentine – e àquela época eu mal as conhecia. Mais tempo se passou. Bowie morreu; Totti se aposentou; uma nova temporada de Twin Peaks foi concluída e The Big Bang Theory ainda é terrível. Obama concluiu dois mandatos na terra da James Pallotta. Meu quarto não tem mais uma TV de tubo, embora a cadeira de madeira resista. Balotelli não estourou.


A campanha da Roma na Serie A 2007-08 foi sensacional, e não à toa terminou a apenas três pontos da Inter. No confronto direto em Milão, no segundo turno, Zanetti empatou a partida nos minutos finais – partida da qual Mexès havia sido expulso por não fazer absolutamente nada em Crespo quando o placar segurava o 1 a 0. A Roma dispunha de atletas muito mais eficientes do que imaginávamos, quando comparados com seus sucessores. Jogadores limitados como Tonetto, Cassetti e Brighi são mais valiosos retroativamente ao pensarmos em José Ángel, Piris, Bradley, Tachtsidis, Kjaer, Bojan, Falque, Iturbe, Destro e demais entulhos. De Pizarro, Vucinic, Juan e Perrotta, nem se fala.


Isso não significa que eles não eram valorizados, e sim que não fazíamos ideia do tamanho deste túnel escuro do qual a Roma ainda não saiu. Afinal, esta é a linha do tempo giallorossa desde então, com os maiores feitos e os pontos mais traumáticos:


2007-08: Supercoppa + Coppa, vice na Serie A
2008-09
2009-10: vice na Serie A + vice na Coppa
2010-11: eliminação para Shakhtar nas oitavas da Liga dos Campeões (duas derrotas, placar agregado 6x2)
2011-12: eliminação para Slovan Bratislava no prelúdio da Liga Europa
2012-13: vice na Coppa contra Lazio
2013-14: vice na Serie A
2014-15: vice na Serie A, Roma 1x7 Bayern, eliminação em casa para Fiorentina (0x3) na Liga Europa
2015-16: Barcelona 6x1 Roma, eliminação em casa para Spezia na Coppa
2016-17: eliminação em casa para Porto no prelúdio da Liga dos Campeões, vice na Serie A, eliminação para Lazio na Coppa
2017-18: em aberto


O grande quase de 2009-10, vencido novamente pela Inter, apresenta-se facilmente como o evento mais traumático. Em meio a este recorte, é claro que houve partidas memoráveis, momentos belos e atletas excelentes. Campanhas incríveis, inclusive – superadas apenas devido à eficiência alienígena da Juventus. Aproximar-se de dez anos sem um mísero título, no entanto, constitui um fato. Contra este fato – ou contra o mensageiro –, o torcedor pode espernear à vontade, mantendo consigo impotência total na alteração do cenário. Quem se anima com coincidências pode gostar do fato de que a Roma campeã italiana em 2001 não conquistava um título desde a Coppa Italia 90-91. Quem não se anima, bom, não tem lá grande culpa.


Passa o tempo, mudam as pessoas. O que você fazia, afinal, em maio de 2008?