Iturbe ou Schick: o futuro dirá que Schick foi melhor

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Thomas Cole, The Arcadian or Pastoral State, 1834


A Roma fechou uma dessas fronteiras fictícias que chamamos de ciclo. Desfez-se do caríssimo Juan Manuel Iturbe – emprestado ao Tijuana – e acertou a contratação de Patrik Schick. O primeiro, já consolidado como um dos negócios mais patéticos da década na Serie A, desembarcou em Roma em seu apogeu. Era tido como um atacante jovem, em alta. Foi um investimento (muito) acima do habitual e exigiu que os giallorossi vencessem a concorrência de rivais – desconsiderando a hipótese de que estes, antevendo o insucesso do reforço, apenas entraram no negócio para inflacioná-lo e acumular risadas ao fim do dia. Schick se transfere em condições semelhantes, mas o romanista não deve se preocupar – digo, não especificamente com isso –, pois não haverá correspondência entre o desempenho de ambos.


Comecemos por Iturbe. Em seu contrato com o Tijuana, há uma obrigação de compra baseada em alguns méritos desportivos não especificados. Extrai-se o risco de o atacante ainda retornar à capital italiana, dado que absolutamente nada garante um desempenho acima do desastroso por parte de Manu. Mesmo que retorne, no entanto, ele certamente será despachado outra vez, um padrão de ping-pong atrelado à sua carreira. Isso porque nada deu certo para o ex-Cerro Porteño desde que ele assinou contrato com a Roma, em julho de 2014. 68 jogos, 5 gols e 2 empréstimos depois, com seu percurso virtualmente encerrado, começamos a enxergá-lo com a parcimônia que a distância concede. Afinal, a passagem de Iturbe pode ter sido catastrófica, mas será que seu futebol é realmente tão ordinário?


Com certeza. O futebol de Juan Manuel Iturbe é um chorume. O problema – ao menos o maior – não figura no mau uso do atleta, e sim no que o compõe enquanto atleta. Anos atrás, os mais otimistas acreditavam que o paraguaio nascido na Argentina não era utilizado de forma apropriada, ou que seu estilo de jogo não se encaixava com aquele da Roma. Uma falácia que não corresponde às limitações de um atacante burlescamente previsível. Já cedido temporariamente a Bournemouth e Torino, o fato é que Manu Iturbe não vingou em clube algum, exceto no Verona – e por uma temporada. Até mesmo o Porto o havia repassado ao River Plate – e ao próprio Verona – quando teve a oportunidade. Laboriosa é a tarefa de levantar argumentos racionais para acreditar em um sul-americano que não se estabelece na primeira divisão portuguesa.


A qualidade técnica do “Novo Messi” – uma maldição, tal qual “Novo Zidane” – não supera a de Neto Berola, Rildo ou Patito Rodríguez. Trata-se de um ponta completamente despreparado para pensar uma jogada ofensiva. Com a bola, Iturbe é incapaz de um passe minimamente mais complexo, um drible menos previsível ou uma finalização precisa. Perdido em arrancadas sem direção, seu posicionamento é débil, e seu poder de decisão, nulo. O velocista nunca se mostrou apto a qualquer movimento externo a um script datilografado por uma idosa, nem mesmo permitindo a gasta piada do triatleta (“corre, pedala e... nada”), pois um lampejo bruto de plasticidade, como a pedalada, não pertence ao input de movimentos de um ponta que não seria titular em Atlético-PR, Bahia ou Ponte Preta.


Caros são os jogadores que custam muito dinheiro sem terem qualidade à altura”. Ter pagado 24.5 milhões de euros em um atacante com a metade dos recursos de Nikão é uma das grandes piadas da história recente da Roma, e certamente uma lambança pela qual Walter Sabatini responderá por anos, entre um cigarro e outro. Há jogadores providos de maior lucidez na Suburbana de Curitiba, o que de maneira alguma aponto como tentativa de ridicularizá-lo. Trata-se de uma constatação razoável: apesar de esforçado – e não somos todos? –, Iturbe não dispõe de leitura de jogo que o qualifique como um futebolista mais eficiente que Rodrigo Tiuí.


Como a famosa analogia do relógio quebrado, um singular feixe ilumina sua estadia melancólica em Roma: o gol marcado contra a Lazio em maio de 2015, seu segundo e último na competição (!), em bela jogada de Ibarbo (!). Considerando que Yanga-Mbiwa anotou o segundo gol (!), não se discute a condição maluca daquela partida. (Falando em maluquice: Iturbo mal chegou ao México e já se alçou à condição de meme ao perder um gol sem goleiro. O arqueiro adversário havia corrido para o ataque em um escanteio limítrofe. No contra-ataque, o ex-romanista fez isso aqui. Ainda assim, não é lá muito justo julgar um atleta por um lance infeliz, e o texto já estava pronto antes do ocorrido).


Divulgação/Roma
Divulgação/Roma

Iturbe e sua cabeça baixa


Depois de esmiuçar a catástrofe, pensemos no futuro – ou aquilo que os chineses chamam de 將來 (jiānglái). Considerando que estou com preguiça e que a essa altura não deve haver ninguém lendo, observe a trajetória de Schick apenas com base em títulos de notícias da ESPN: 1. “Conheça Schick, desejo de clubes ingleses, italianos e espanhóis”; 2. “Conheça Patrik Schick, 'Ibrahimovic tcheco', novo reforço da Juventus”; 3. “Juventus desiste da contratação de jovem promessa tcheca da Sampdoria”; 4. “Pietro, filho de Otávio Mesquita, celebra 8 anos em mega fest…” opa, como isso veio parar aqui? Enfim, para além dos três primeiros links, recomendo outros três textos deste ESPN FC, os quais reforçam a contextualização do atacante tcheco. “Schick e a síndrome do homem de lata”; “Szczesny e Schick: histórias com finais bem distintos do mercado bianconero” e “A direção da Inter deve desculpas à Sampdoria”.


Em sua temporada de estreia na Serie A, o tcheco anotou 11 gols e 5 assistências em singelos 1.504 minutos, ou seja, menos do que o equivalente a 17 jogos completos – ele entrou em campo 32 vezes. Também fez um golaço gélido com o misto de instinto e frieza de que dispõem poucos finalizadores. Eis, aqui, o ponto nevrálgico: Schick é frio e cínico, carregando aquela arrogância que não se costuma encontrar em Roma. Ele ostenta as feições de quem chega em uma festa, comporta-se como um verdadeiro babaca, arruma brigas e não dá a mínima. É exatamente desse tipo de babaca que a Roma precisa, isto é, em campo. Somando seus atributos mentais à técnica refinada, chegamos no diagrama de Venn da esperança. Não se faz um ataque vencedor com Bojans, Destros e Iturbes. No máximo, faz-se um mingau de café com leite, tamanha a moleza encontrada no poderio ofensivo dos giallorossi ao longo da gestão americana


O canhoto Patrick Schick, enfim, jogará na ponta-direita, ou então como substituto de Dzeko, ou mesmo atrás do centroavante, de maneira mais interna, em caso de mudança de módulo. Apesar de a negociação oficializar um empréstimo, na prática será concretizada uma compra de 22 milhões de euros, com a Sampdoria recebendo 50% do lucro de uma venda futura, caso esta aconteça até fevereiro de 2020. Independentemente do valor da eventual venda, aliás, o clube de Gênova terá direito a um mínimo de 20 milhões de euros. Caso o tcheco não seja negociado até lá, a Roma pagará 20 milhões à Samp da mesma forma, totalizando 42 milhões de euros. As consequências deste acordo repleto de cláusulas ainda não foram computadas por este escriba. De todo modo, há motivo para otimismo. Encerrado um ciclo infeliz e iniciado outro, é justo concluir que a Roma deu um passo à frente. Que comecem os trocadilhos com chique.


P.S: Ano passado, Schick já estava nos planos da Roma, mas Sabatini, o homem que pagou 5 milhões de euros pelo empréstimo de um reserva do Fenerbahçe, dormiu no ponto. A Samp o levou por 4 milhões de euros, ou seja, um décimo de seu valor atual. Acontece.