Uma vitória que engana e o bobo da corte romanista

Divulgação/Roma
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Daniele e seu segundo gol de pênalti nas últimas rodadas: passeio romanista em Milão pode enganar muita gente


A confiança era tão baixa que eu confesso ter esquecido que a Roma jogava no último domingo, em pleno dia de decisões dos Estaduais país afora. Mas na tarde do San Siro, quem fez a festa foram os visitantes, pelo placar surpreendente de 4x1, com direito a dois de Dzeko e a Lei do Ex revivida por El-Shaarawy. Pois é, amigos, a Roma fez sua parte na rodada, mas ainda falta chão para assegurar a vaga direta para a Champions.


Não vamos nos enganar. Esse placar contra o Milan foi uma fantasia, um sonho de verão, uma patuscada atípica. É verdade que a Roma jogou bem, mereceu levar os três pontos e até poderia ter marcado mais vezes. Contudo, isso é só uma cortina de fumaça para a romada que teremos no próximo domingo, contra a Juventus. E não vai ser só uma ocasião para entregar a faixa e a taça aos rivais, mas sim uma rodada em que perderemos a segunda posição para o Napoli.


O destino é cruel, já sabemos, conhecemos de cor este roteiro divino. Nos dão confiança e um pouco de alegria, só para que tomemos um tombaço e viremos motivos de chacota. Quem é Roma sabe que é esse o curso normal da vida e não adianta espernear. Foi bonito ver Dzeko fazer dois gols, foi lindo testemunhar aquele golaço de El-Shaarawy e mais um pênalti cobrado com competência por De Rossi. Tudo isso para que nosso estimado treinador roubasse a cena após a partida.


Quem não chora, não mama


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Spalletti falou bobagem outra vez. Alguém precisa dar um chá de babacol ao careca


Luciano Spalletti simplesmente não consegue ficar calado. Sempre que há paz, ao menos por alguns minutos, o careca sente uma vontade enorme de aparecer. Desta vez, polemizou ao dizer que “se pudesse voltar no tempo, jamais teria retornado à Roma”. Quem diz isso após uma vitória maiúscula contra o Milan em pleno San Siro? O motivo da declaração é simples e também não traz nenhuma novidade: a pressão por escalar Totti em seus últimos dias como atleta parece ter enlouquecido o treinador. Fato é que, os críticos de Spalletti ganharam mais munição para atirar contra ele.


É preciso reiterar que: ninguém em sã consciência espera que Totti entre e jogue 90 minutos ou que resolva magicamente as partidas em que é chamado ao longo do segundo tempo. Estamos falando da apoteose de um ícone, um cara cheio de defeitos, midiático, que aprendeu a usar a imprensa a seu favor desde os tempos de menino. Mas este cidadão, que dispensa elogios e menções sobre sua qualidade, está indo embora depois de ser tratado como um merda, me perdoem o vocabulário. E que isso só acontece por desmando e arrogância deste senhor lustroso que senta ao banco de reservas.


Totti não precisou fazer muito para ter a torcida e o resto do mundo a seu favor. Spalletti, que poderia ter sido muito mais inteligente, sentiu a pressão e a temperatura do óleo no qual foi frito desde suas primeiras desavenças neste retorno à Roma. Luciano respondeu aos jornalistas em Milão e chamou atenção novamente. Afirmou que é incumbido da tarefa de gerenciar apenas o atleta Totti, não o homem ou o mito. E se engana em pensar dessa forma. Ninguém chega a este clube sem saber e reconhecer que há uma hierarquia oficial e outra paralela. Todavia, Spalletti teve apoio de cima para tentar cortar a cabeça de Totti e disso ninguém há de me convencer do contrário.


Getty Images
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O homem pode até ter perdido a batalha contra o careca, mas a guerra já está no papo desde a primeira desavença


Vamos a mais fatos: Totti já havia anunciado que não jogaria mais uma temporada. Isso foi dito por ele mesmo ao renovar seu último contrato, no ano passado. A imprensa em geral tratou a fala de Monchi, na última semana, como uma “aposentadoria compulsória” de Francesco, que vai se transformar em dirigente do clube a partir do segundo semestre. Até fiquei assustado com a forma como lidaram com esta notícia, que não é de forma alguma um novo elemento na rotina giallorossa.


O que me surpreende e irrita, no entanto, é a inaptidão da diretoria e do próprio Spalletti em conduzir os últimos jogos de Totti. Por diabos, o que custava colocar o homem em campo em um dos maiores estádios do mundo, em um grande jogo que já estava decidido? O capitão, aos risos, posava para a câmera com expressões triunfantes. Mesmo que não fosse para o campo, teria vencido a guerra fria contra Spalletti, que, em virtude do que não conseguiu fazer como treinador e pela péssima gestão de vestiário, sairá derretido de sua segunda passagem por Trigoria. Totti não. Se aposentará sem jogar o que merecia, é verdade, mas deixa o palco como a maior bandeira e uma lenda do futebol italiano.


Spalletti será apenas mais um. O último treinador campeão com a Roma, claro, mas que não tem relevância alguma perto de Francesco. Sua mesquinhez em impedir o ingresso de Totti em campo diz muito mais sobre o seu caráter do que suas opções como comandante. Qualquer outro profissional deixaria um senhor de 40 anos viver seus últimos momentos de esplendor e ser aplaudido até mesmo por adversários. Qualquer outro, menos Luciano Spalletti. Deixo-lhes com outra fala emblemática do careca na entrevista coletiva de domingo:

Quando eu o coloco nos minutos finais, vocês dizem que eu estou fazendo ele de bobo, que me falta respeito. Vamos tentar usar o tempo para concordar com o que devo ou não fazer. Quando assumi a Roma, disse que não era da minha alçada gerenciar o legado de Totti. Da próxima vez, formaremos uma equipe. Teremos uma votação coletiva e os que mais tiverem votos, jogam”, cravou o técnico, provavelmente se achando a pessoa mais perspicaz de toda a Itália. É assim com toda corte. Para cada Rei, existe um bobo.