A Roma é um filme velho e repetido

Divulgação/Roma
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Monchi, o novo diretor-esportivo da Roma, que já começou a trabalhar. Nos próximos meses, a marca do espanhol ficará visível


Está muito claro que, mais do que as limitações de elenco, a Roma tem um sério problema: a mentalidade. Fracassar mais uma vez em uma partida decisiva com o time que tem em mãos não é um sinal de qualidade dos adversários, é um alerta gritante de que há algo muito errado no núcleo desta equipe.

Há que se relatar a tristeza e o desgraçamento mental que uma partida às 7h30 da manhã de um domingo pré-feriado proporciona. Como se fosse fácil para a maioria dos torcedores romanistas, acordar neste horário para ver um fiasco retumbante contra a Lazio é mais uma ferida entre tantas que já acumulamos nesta temporada. Todo jogo decisivo é um sangue a mais que se derrama em vão, como se os jogadores fossem entender a importância de vencer no próximo duelo.

Bem, ao que concerne o dérbi deste domingo, a Lazio mereceu demais vencer, pois esteve mais organizada, mais inspirada e muito menos afetada por pressões externas. Enquanto eles estão tranquilos na ilha da Liga Europa, a Roma tenta levar o seu barquinho furado até a fase de grupos da Liga dos Campeões, usando um baldinho para jogar fora a água que inunda a embarcação. Mas o destino e as atuações recentes nos mostram que o máximo que conseguiremos é chegar na orla da Champions, para morrer de novo na fase preliminar para alguma equipe interessante no cenário internacional.

A Lazio faz com muito pouco o que não estamos conseguindo com pompa, marketing, gestão que fala inglês e trocentas invencionices que iludem a torcida de que somos maiores do que parecemos. A equipe foi incapaz de dar a Totti um último dérbi digno. Como mandante, a Roma só não passou mais vergonha porque o juiz deu uma baita ajuda antes do intervalo: a Lazio teve um pênalti clamoroso não marcado e depois abriu o placar. Já a Roma, precisou de um lance escroto em que Strootman simulou para enganar a todos e causar um pênalti equivocado, sem falar no cartão amarelo para Biglia. De Rossi cobrou e incendiou o estádio, mas não pôde tirar aquele gostinho amargo, aquela vergonha do ar.


É isso mesmo, amigo romanista. Só fizemos um gol contra a Lazio por erro crasso da arbitragem e a simulação de Strootman. Não fosse isso, estaríamos lamentando a grande surra biancocelesti em muitos anos, porque além de faltar sangue ao time de Spalletti, faltou agilidade e raciocínio de Dzeko, neurônios funcionais para Salah e um copo de café para a defesa, sonolenta como nunca. É realmente muito difícil acordar cedo para ver um jogo ridículo daqueles em que só entramos no segundo tempo com alguma coragem porque a Lazio foi assaltada em plena luz do dia.

Vamos com mais essa ferida para as rodadas finais: em todo jogo que vale alguma coisa de fato, a Roma entrega o ouro. Não é mais nenhum absurdo enxergar o Napoli passando e dando tchauzinho. Permitam-me um paralelo com os anos saudosos da Fórmula 1: A Roma é Nigel Mansell no GP do Canadá em 1991, acenando e sorrindo como se a corrida estivesse ganha, até que o motor funde na última volta e um sagaz Nelson Piquet, de Benetton, faz a festa na cara do seu velho rival. O Napoli ficou o campeonato inteiro jogando melhor e atrás na tabela. E nós vamos deixar ele passar no momento crucial, simplesmente porque nos falta motor, cabeça e talvez até culhões.

Monchi, recém-contratado para ser o homem da Roma no mercado de transferências, viu das tribunas o espetáculo lamentável que foi a Lazio doutrinando a sua arquirrival dentro do Olimpico. Ele terá um longo trabalho para analisar quem merece ficar e quem chega na próxima janela. Uma dica ao careca espanhol: demita Luciano Spalletti antes mesmo do fim da temporada. Vamos ver a resposta do elenco mediante este fato. Eu realmente adoraria que essa apatia fosse apenas um protesto organizado pelos jogadores para derrubar o treinador. É a única forma de aceitar o que vimos nesta rodada.

A chance de perdermos para o Milan e para a Juventus é enorme. E com isso, cairíamos para o terceiro lugar. Daí, até o último objetivo da temporada seria queimado por estes vários fatores somados, resumidos em uma palavra só: incompetência. O que precisa acontecer para evitar isso? Porrada no vestiário? Atacante arremessando garrafa na cabeça de companheiro? Tiro para o alto? Ou a tão esperada queda de Spalletti? O pior é que, para isso, a diretoria romanista teria de assumir que errou ao contratar um detrator do Rei, que está ultrapassado e só consegue trazer uma melhora suficiente para nos manter em segundo ou terceiro lugar. Isso nunca vai acontecer.

Por mais urgente, cristalino e óbvio que seja, Pallotta não vai assinar a rescisão do careca antes do fim da Serie A, quando estivermos mergulhados na merda e ele tiver um pretexto para trocar de comando. E tenho certeza que Monchi já viu que este é o grande problema da Roma: o sub-aproveitamento dos principais atletas. Erro bom é erro sustentado até as últimas consequências, né, Pallottão? Por sorte, chegará uma proposta de outra equipe e Luciano vai vazar de Trigoria. Esse é o sonho, essa é a primeira medida para a próxima temporada.

Em linhas gerais, estamos ainda mais pressionados para vencer todas as rodadas restantes. Segurar o vice está muito além da questão de honra. É pura sobrevivência. É a forma de garantir um dinheiro valioso na reformulação de elenco que teremos. Outro desastre como foi contra o Porto seria trágico para a gestão e para o próprio clube, que estagnaria totalmente. Mas a esperança volta, ela sempre volta.

Ano que vem vai ser a mesma coisa, amigos leitores. Contagiados pelas contratações e pelo ar de mudança, esperaremos ao menos uma campanha de quartas de final na Champions, uma participação na final da Copa da Itália e uma arrancada menos tumultuada na Serie A, peitando de fato a Juventus. O final disso aí todo mundo já sabe, é como dar um spoiler de “O Sexto Sentido”. Estamos cansados de saber que o Bruce Willis já estava morto desde o início da trama.