A Roma da Era Pallotta é um fiasco - parte 2

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Depois de ler a primeira parte do dossiê, você viu que a Roma apenas teve chance real de título em uma ocasião, na final da Copa da Itália em 2013. A derrota contra a Lazio foi o início de uma série de frustrações, que de alguma forma são coerentes com a história do clube giallorosso.

Pois bem, agora que você já sabe quem a Roma contratou, mandou embora e como terminou cada uma das temporadas sob o comando de James Pallotta, está na hora de analisarmos os fatores extracampo. O que os americanos trouxeram de fato para a Roma, o que é promessa e o que é realidade?

A nova casa sai ou não sai?

Comecemos pelo estádio. Sonho antigo dos romanistas, chegou a ter um projetaço revelado em 2016 e até mesmo um cronograma de obras, mas o caminho até inaugurar o local é longo. A prefeitura de Roma rejeitou o projeto, que terá a injeção de 200 milhões de euros com dinheiro público. Apesar do fato da Roma ter cerca de 1,6 bilhão de euros vindos da iniciativa privada, outros motivos foram citados pela prefeita Virginia Raggi para barrar o andamento em primeira instância. Entre eles, a necessidade de transporte público adequado até o estádio, tendo em vista que o bairro escolhido - Tor di Valle, é bem afastado do centro.

Além destes empecilhos, havia também um problema com a estrutura de encanamentos e o espaço designado para o estacionamento. Por último, existe uma lei que impede a construção de prédios mais altos do que o horizonte da cidade, o que conflitou com os planos de Pallotta para um centro de convenções.

Aparentemente, isso também foi alinhado para o segundo projeto. Com tempo para refazer os termos e se alinhar às exigências da prefeita, a Roma finalmente ganhou sinal verde para dar sequência ao processo, em fevereiro de 2017. Em março, o clube revelou o prazo para a inauguração: na temporada 2020-21. Vamos aguardar.

A perfumaria e o CT

A Roma também saiu do século 20 na gestão Pallotta. Aquele site defasado dos tempos do scudetto foi trocado por um bem melhor, moderno, atualizado e coerente com a imagem que o clube quer passar ao público. Como todo site oficial, o nosso é uma bela de uma assessoria que traz informações de jogos, entrevistas, especiais com jogadores e até mesmo uma seção de gifs (que este blog utiliza vez ou outra). Além da casa nova na internet, a Roma também inaugurou uma rádio oficial. A Roma Radio tem um app e pode ser ouvida em qualquer lugar do mundo, trazendo notícias, conteúdo exclusivo e análises (mas não espere críticas ferrenhas ao time ou à diretoria).

Nas redes sociais, a presença romanista é marcante. Tem fanpage no Facebook, perfis oficiais em vários idiomas no Twitter. De fato a Roma entendeu essa necessidade de se aproximar da torcida. E quem se aproxima, acaba consumindo algo. Aproveitando o embalo, a Roma inaugurou várias filiais da Roma Store, a loja oficial. Os preços ainda são bem salgados para quem não mora na Itália, mas só lá é possível achar produtos como camisas, uniformes de jogo, de viagem, entre outros itens.

Peças como a camisa especial do dérbi (usada apenas em um jogo contra a Lazio na Serie A) saem por 126 euros + frete, uma verdadeira facada no coração dos giallorossi. Não à toa, cresceu bastante o número de peças falsificadas vendidas pelos cantos da internet. Se procurar bem, você descola uma camisa da temporada atual por volta de 60 reais. Bem mais barato do que converter o preço pago na loja oficial e ainda somar frete e impostos.

Por falar em uniformes, a Roma começou uma parceria com a Nike em 2013. Desde o contrato com a Adidas, no início dos anos 90, a Roma não tinha um material esportivo de ponta. Visualmente, as camisas têm sido muito bonitas e até a primeira linha da Nike era fácil de encontrar à venda Brasil afora. Entretanto, as peças desta temporada não chegaram ao país e a fornecedora não soube explicar o motivo. Vieram apenas as horrorosas camisas alaranjadas, o terceiro uniforme atual, que felizmente não é muito usado. Nem mesmo as lojas conveniadas da Nike possuem as camisas em estoque, um verdadeiro desrespeito.

Não podemos nos esquecer da reforma no CT em Trigoria. Agora a Roma tem mais dois campos para treinar e preparar o elenco, algo essencial para o desenvolvimento da equipe. Entretanto, o pessoal de Pallotta se esqueceu de construir um departamento médico adequado. Por este motivo, os atletas precisam realizar exames e outros procedimentos em uma clínica particular chamada Villa Stuart. Foi lá que Florenzi passou pela cirurgia no joelho em suas últimas lesões. Villa Stuart também é a segunda casa de Thomas Vermaelen, que já fez amigos e tem até uma suíte na clínica, tamanha fragilidade física.

Em suma: desde 2012, já ganhamos uma fornecedora de material esportivo de ponta, um site novo e moderno, uma estação de rádio, várias lojas oficiais espalhadas pela Itália, uma casa só nossa para poder deixar o Olimpico no futuro. Foram mudanças positivas e merecem elogios por tornar a Roma mais profissional do que nos tempos da família Sensi. Mas há uma grande diferença entre os tempos de Tio Franco e Tia Rosella: a Roma ainda ganhava alguma coisa nas mãos deles.

O lado tosco da gestão americana

Nem tudo é um mar de rosas para James Pallotta. Pressionado nos últimos anos pelo trabalho que fez à frente da agremiação, o empresário utiliza dos meios de comunicação da Roma para se defender das críticas e passar uma imagem de bom moço, tranquilão, centrado. Quando o presidente fala, parece que tudo está às mil maravilhas. Mas ninguém critica o fato de ele ser ausente na rotina do clube e passar a maior parte de seu tempo em Boston. Ser presidente assim é fácil, terceirizando as responsabilidades e só aparecendo na foto quando algo de bom acontece.


Poucos se lembram que Italo Zanzi, advogado e braço-direito do presidente e ex-CEO do clube, recebia um caminhão de dinheiro para executar sua função e deixou o cargo para "tocar outros projetos importantes". Ele saiu em 2016, abrindo espaço para Mauro Baldissoni, o diretor geral romanista, que também ganha uma fortuna apenas para fazer o papel do cara que diz que está tudo bem nas entrevistas. Olhando de fora, a Roma é maravilhosa. Contudo, enquanto o pessoal gestor não tratar a nossa estrutura como prioridade, vamos seguir com papel secundário na Itália.

Passou despercebido o detalhe que a Roma está sem patrocinador desde a saída da Wind, em 2013. Desde então, estamos sem uma grande fonte de receita, dependendo de ingressos, venda de jogadores e ações de marketing. Marcas como a Linkem (ramo de internet) e a Nissan são parceiras técnicas da Roma, mas, curiosamente, nenhuma delas está presente na camisa. A Linkem patrocina apenas o Primavera, o que não faz muito sentido. Os outros parceiros veiculam suas logomarcas em placas de publicidade no estádio, mas não há nenhum patrocinador máster, que é o que interessa de verdade. Isso afeta diretamente o orçamento para contratações, e vimos neste ano como a escassez de recursos impediu a diretoria de buscar reforços.

A consequência disso é a tendência a pegar jogadores emprestados. Na temporada passada, um caminhão de gente desembarcou em Trigoria: Dzeko, Salah, El-Shaarawy, Rüdiger, Perotti, Szczesny, Digne, uma galera que era titular. Para 2016-17, o investimento feito foi manter quase todos eles (exceto Digne), além de trazer também por empréstimo caras como Mario Rui, Juan Jesus, Federico Fazio, Szczesny, Vermaelen, Bruno Peres e Clément Grenier. Da patota que veio nesta temporada, apenas Fazio, Vermaelen e Bruno Peres se firmaram. Rui é uma porcaria, Juan Jesus não está à altura, Vermaelen nunca joga e Grenier só serve para bater papo no banco de reservas.

O que não dá para amaciar é o fato de que estamos desperdiçando talentos da base. Spalletti poderia muito bem ter complementado o seu elenco com jovens, mas alguém da diretoria achou sensato emprestar a maioria para fora, isso quando não vendia os garotos a preço de banana com cláusula de recompra.

A meninada

Em 2016, o Primavera da Roma venceu a Serie A sob o comando de Alberto De Rossi. Porém, nenhum destes meninos foi utilizado por Spalletti nesta temporada. Eles não são bons o suficiente, ou tem alguém negligenciando o uso da base para fortalecer o time principal? Conhecendo a Roma, sabemos que é a segunda alternativa. O último talento bem aproveitado vindo do juvenil é Florenzi, um jogador acima da média. A questão é: todo menino que sobe ao profissional tem de ser o novo Totti, o novo De Rossi? Agora não se pode mais alegar que não há espaço para eles. Vimos como o plantel de Spalletti é reduzido e quanto isso custou para o desempenho nesta campanha.

O que vai ser feito desses garotos? Marchizza, Capradossi, Nura, D’Urso, Di Livio, Grossi, Spinozzi, Vasco, Antonucci, Ponce, Soleri, Tumminello, Sadiq? Serão emprestados por quanto tempo antes de um teste verdadeiro? Se forem dispensados, que ao menos possam mostrar serviço antes. Estão ignorando a meninada da base e gastando 16 milhões de euros em Gersons, que nunca entram em campo. O pior é que, quando Gerson entra, não sai nada de bom. Alguém errou feio no julgamento para a sua contratação. Entretanto, ainda há uma chance para que o ex-Fluminense se firme. Existe o contexto de adaptação que não pode ser descartado neste caso.

O elenco mutante

Quem contrata bem, não precisa ficar trazendo dezenas de jogadores. Este elenco atual foi montado recentemente. Daremos nomes aos bois: Szczesny, Fazio, Manolas, Rüdiger, Bruno Peres, Emerson, Nainggolan, Strootman, Salah, Perotti e Dzeko. Esta é a base do time titular. Destes daí, apenas Nainggolan, Manolas e Strootman estavam no elenco desde antes de 2015. A reformulação constante impede que outros tenham uma sequência e se identifiquem com a torcida, para dizer o mínimo. De Rossi e Totti, pratas da casa, perderam bastante espaço na temporada, ainda que a ausência de DDR seja em virtude de lesões menos graves. Florenzi, por sua vez, só não joga porque se machucou duas vezes com gravidade.

O efeito prático de mudar sempre o elenco é constantemente estar procurando reposições para vendas (a Roma não segura ninguém), ou para consertar erros de mercado. Provavelmente teremos baixas ao fim da temporada e Manolas parece ser o próximo a se despedir. Juan Jesus não foi bem, Mario Rui idem, Vermaelen foi um desastre nos poucos minutos em que esteve em campo. O meio-campo continua carente de um armador e o ataque precisa de mais um cara de alto nível para o rodízio. Os goleiros e a zaga estão de acordo, mas apresentam problemas similares. Se algum dos titulares ficar de fora, quem entra? Silêncio.

Por fim, Totti

De todos os problemas apresentados, o mais triste é o que envolve Totti, o que vale mais um ponto sensível no dossiê. O capitão está em seu último ano de carreira. Foram 24 anos de serviços prestados como profissional. Ele surgiu durante a Era Giannini e ofuscou o legado de seu ídolo, se transformando na grande bandeira do clube. Não há romanista que não se curve a Totti. Ele é a representação ideal desta camisa, o último remanescente do scudetto de 2001 e será para sempre lembrado pelo seu amor à equipe. Por todo este histórico, é correto dizer que Francesco tem sido desrespeitado desde a volta de Spalletti.

Quem lê o blog já deve ter visto as histórias e brigas entre os dois, algo que gerou um noticiário à parte na cobertura da Roma. Vamos aos fatos: o Capitão já passou dos 40, não aguenta mais jogar 90 minutos. Isso não quer dizer que ele não possa jogar pelo menos 20 a cada rodada. Na cabeça de Spalletti, o camisa 10 não tem condição de oferecer nada ao time. Verdade ou não, deixar Francesco sempre no banco e colocando-o apenas nos 10 minutos finais é uma grande humilhação. Totti ainda é o maior tesouro da Roma, dentro e fora de campo. E se Spalletti achou que seria de bom grado tentar destruir a imagem dele, é porque alguém lá de cima permitiu e endossou a atitude.

Que tipo de clube trata o seu maior ídolo como um merda qualquer? A quem interessava ver o Rei de Roma despido e envergonhado em público? A Roma deu as suas romadas na temporada e, diferentemente de outros tempos, não tinha o seu líder em campo para encarar as derrotas de cabeça erguida. O resultado é uma guerra interna de egos em que Totti perdeu por não poder entrar em campo. Do banco de reservas ele está limitado a fazer caretas para as câmeras e expressar seu descontentamento com a situação.

No site da Roma, vários especiais encheram a bola de Totti, para que quem não acompanha de perto tivesse a sensação de que ele ainda é uma sensação em Roma. Não é. Vai parar de jogar depois de uma última queda de braço com aquele que é o maior traidor da história recente do clube. E não, não estamos falando daquele bósnio lá, obviamente.

A gestão de Pallotta entrará no seu sexto ano ao fim da temporada. De alguma forma, a Roma tem grandes chances de voltar ao status quo na mão dos americanos, começar tudo de novo e do jeito certo. Em 2011, quando Di Benedetto assumiu a bucha, o primeiro treinador escolhido por ele foi Luis Enrique. Para o azar do espanhol, o time em questão era ridículo. Se o técnico resolver voltar, poderá encontrar melhores condições de trabalho e uma estrutura mais digna. Só mesmo a pressão vinda da imprensa romana e da torcida é que não vai cessar.

No mais, a Roma realmente parece um time grande e preparado. Mas só parecer não basta. Em um contexto tão polarizado no futebol italiano, é preciso ser competente de fato, pois as ilusões não duram muito tempo e, como sabemos, no final a Juventus é quem levanta as taças. Até quando?