A Roma da Era Pallotta é um fiasco - parte 1

Divulgação/Roma
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A torcida da Roma permanecerá como o bem mais valioso do clube, mas a relação dos mandatários com a massa giallorossa sofreu abalos nos últimos anos


Não é de hoje que se questiona a verdadeira posição da Roma no cenário italiano. Mais conhecida como a honrosa vice-campeã ano após ano, a equipe capitolina de fato pôde sonhar um pouco mais nesta década, mas os resultados não vieram e é natural que a torcida fique ressabiada com a atual gestão. Depois de dar adeus a mais uma (remota) chance de scudetto, a Roma só tem um objetivo restante na temporada: manter a segunda posição e a vaga direta para a Liga dos Campeões.

Em termos objetivos, a Roma está na mão de americanos desde o dia 16 de abril de 2011. Assumida por um grupo de investimento liderado por Thomas Di Benedetto e James Pallotta, a agremiação giallorossa viveu a esperança de novos tempos. Depois de superar uma grave crise financeira na segunda metade dos anos 2000, os americanos surgiram como a salvação para o sangramento econômico que foi refletido dentro dos gramados.

Antes de iniciar a pesquisa que norteia esta análise, o amigo leitor e romanista deve pensar que sim, nós temos um bom time após tantos anos, que o nível competitivo aumentou e que isso significa que estamos no caminho certo. Mas olhando de forma profunda para o que se fez desde 2011, é possível notar que não saímos da estaca zero. E que se alimentar de vice-campeonatos é uma forma particular de demonstrar o quanto não estamos prontos para ser vencedores. Não quer dizer que tenhamos parado no tempo, mas o buraco é bem mais embaixo.

Pallotta, o atual presidente, está no cargo desde agosto de 2012. Sabendo disso, podemos analisar o seu trabalho e a sua gestão desde a temporada 2012-13. Vamos ter em mãos alguns dados e outros pontos que possam nos orientar até uma conclusão. Nesta primeira parte do balanço, falamos apenas do desempenho do time. Outras questões serão debatidas no próximo post. E claro, o amigo leitor tem toda a liberdade de expressar seus argumentos no campo abaixo.


A única exigência do blog é que os comentários sejam feitos com respeito e educação, já que estamos tratando de um tema sensível. Ponderações e pontos opostos são sempre bem vindos na casa.

O primeiro ano

Pois bem: seria injusto com Pallotta julgar o que aconteceu em 2011-12, quando ele ainda não era o manda-chuva da parada. Partimos de 2012-13 e fazemos uma breve viagem no tempo, para quando a Roma escolheu Zdenek Zeman como seu treinador. Com o velho tcheco, vieram os defensores Dodô e Leandro Castán, do Corinthians, os laterais Federico Balzaretti, do Palermo e Vasilis Torosidis, do Olympiacos; além dos meias Panagiotis Tachtsidis, do Genoa e Michael Bradley, do Chievo. Por empréstimo, vieram o lateral Iván Piris e o atacante Mattia Destro. Fizeram o caminho contrário caras como Juan, Cicinho, Caprari, Stoian, Bertolacci, Fabio Simplício, Borini, Piscitella, Verre, Pizarro, Heinze e Okaka. Uma verdadeira barca.

Foi o último ano de contrato com a patrocinadora Wind, uma empresa de telefonia da Itália. Interessante observar que desde então, nunca mais tivemos outra marca anunciando na nossa camisa, apenas projetos sociais pontuais.


Esta Roma de Zeman vinha mal das pernas e trocou de comando em fevereiro de 2013, após uma goleada sofrida contra o Cagliari. Aurelio Andreazzoli assumiu a bucha, deu um jeito na casa e a Roma foi até a final da Copa da Itália. Tudo isso para perder para a Lazio no dérbi, gol de Lulic, um trauma forte e que se faz presente até hoje. Na Serie A, ficamos em sexto. Não disputamos nenhuma competição europeia.

Injeção de moral

Com a chegada de Rudi Garcia ao comando técnico, a Roma apostou alto em uma campanha digna em 2013-14. Dois anos antes, Garcia tinha sido campeão francês com o Lille, então a diretoria pensou: por que não deixar o homem tentar repetir a façanha aqui? Juntamente com o francês, chegaram vários jogadores: Gianluca Caprari, Valerio Verre, Gianmario Piscitella, Tin Jedvaj, Lukasz Skorupski, Medhi Benatia, Maicon, Kevin Strootman, Morgan De Sanctis, Gervinho, Adem Ljajic, Petar Golubovic (???), Valmir Berisha, Antonio Sanabria e Nemanja Radonjic. Muitos deles nem chegaram a entrar em campo.


Entre os emprestados, uma grata surpresa: Radja Nainggolan, que veio do Cagliari e se firmou rapidamente entre os titulares. Além do Ninja, Michel Bastos, Rafael Tolói, Tomas Vestenicky e Alberto Tibolla desembarcaram em Trigoria. Provavelmente você nem sabe quem os dois últimos são. Ah, sim, tivemos outra barca no caminho para fora do clube: Stekelenburg, Tachtsidis, Barba, Sabelli, Montini, Perrotta (aposentado), Brighi, Marquinhos, Bojan, Osvaldo, Lamela, Júlio Sérgio, Bradley e Burdisso vazaram.

Mesmo com um início maravilhoso de dez vitórias seguidas, a Roma de Garcia fundiu depois da décima rodada e deixou a Juventus ultrapassar. Naturalmente, ficou a ver navios ao fim da temporada. O honroso vice-campeonato animou, assim como a campanha de semifinais na Copa da Itália. A romada na Coppa diante do Napoli por 3-0 no San Paolo, no entanto, foi um belo balde de água fria. Apesar da excelente campanha na Serie A, com 85 pontos, ficamos bem longe dos monstruosos 102 pontos da Juventus.



O despertar da Força

As frustrações, como sempre, impediram a Roma de terminar a temporada de 2014-15 com um sorriso no rosto. O segundo ano de Garcia teve consistência técnica e boas partidas, mas acabou em vice na Serie A, para dizer o mínimo. O elenco mudou demais e teve transferências bizarras, só para dizer no âmbito do elenco profissional: Seydou Keita, Antonio Sanabria, Ashley Cole, Urby Emanuelson, Juan Iturbe, Kostas Manolas, José Holebas, Mapou Yanga-Mbiwa e Seydou Doumbia. Destes daí, apenas Manolas continua até hoje. E temos também os emprestados que chegaram: Salih Uçan, Leandro Paredes, Davide Astori, Victor Ibarbo e Nicolás Spolli.

O dentuço Nico López foi repassado à Udinese, enquanto Taddei saiu para o Perugia e Benatia foi vendido ao Bayern. Ao mesmo tempo, foram emprestados para outros clubes os seguintes atletas: Jedvaj, Tolói, Michel Bastos, Marquinho, Dodô, Alessio Romagnoli, Emanuelson e Destro.

Na tabela, ficamos outra vez em segundo lugar na Serie A, somando 70 pontos, 17 a menos do que a Juventus. Vale lembrar que o fim da temporada teve gostinho especial com a vitória em cima da Lazio e a classificação direta para a Liga dos Campeões. Fomos eliminados nas quartas da Coppa, pela Fiorentina, e na primeira fase da Champions (goleada sofrida por 7-1 contra o Bayern). Pior do que isso: não passamos das oitavas da Liga Europa, pois tomamos uma surra da Fiorentina. Mas 2015 prometia, ô, se prometia.

A volta do careca


Divulgação/Roma
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Elenco curto e más decisões custaram caro a Spalletti em sua segunda passagem no banco romanista


Quando a gente pensava que finalmente ia dar em alguma coisa em 2015-16, a Roma desandou outra vez. O começo de temporada teve uma Juventus péssima e abrindo espaço para a concorrência. No primeiro turno, até chegamos a sonhar com o título, brigando com Inter, Napoli e Fiorentina. Mas uma série de tropeços tiraram a equipe da parte de cima da tabela e Rudi Garcia foi demitido em janeiro de 2016.

O inferno se deu da rodada 12 até a 21 na Serie A, com apenas duas vitórias neste período, incluindo seis empates e duas derrotas. Luciano Spalletti arrumou a casa e nos conduziu a um terceiro lugar, mas o resto da campanha foi um tanto lamentável: eliminação vergonhosa para o Spezia nas oitavas da Coppa e duas derrotas para o Real Madrid nas oitavas da Champions, o que marcou o declínio da Era Totti. Brigas entre o capitão e o técnico foram frequentes e resultaram até mesmo em uma exclusão de Totti do elenco que enfrentaria o Palermo na Serie A. Eventualmente eles se resolveram, mas a guerra fria continua nos bastidores.

Elenco? Senta aí, amigo romanista. Chegaram Iago Falqué e William Vainqueur em definitivo. A turma dos emprestados é que foi grande. Victor Ibarbo voltou e foi acompanhado de Wojciech Szczesny, Mohamed Salah, Edin Dzeko, Antonio Rudiger, Norbert Gyomber, Lucas Digne, Emerson, Stephan El-Shaarawy, Diego Perotti e Ervin Zukanovic. Também compramos o meia Gérson, do Fluminense, que só estreou em 2016-17, mas não foi nada bem.


O grande vacilo, no entanto, ocorreu nas saídas. Os promissores Bertolacci e e Romagnoli foram vendidos ao Milan, Viviani saiu para o Genoa, Lorenzo Pellegrini seguiu para o Sassuolo, além de Yanga-Mbiwa, Gervinho, Destro e Holebas, que foram negociados com outros mercados. Doumbia, Ljajic e Iturbe também saíram temporariamente, mas voltaram no ano seguinte.

Ficamos em terceiro na Serie A, classificando para os play-offs da Liga dos Campeões. O que, como sabemos, foi um péssimo negócio.

Como desmoralizar um ídolo


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Totti no banco: maior ídolo da história da Roma se despede de forma melancólica do futebol


Por fim, analisamos o que já foi feito de 2016-17. Basicamente, a maior oscilação em curto espaço de tempo. Seguimos com Luciano Spalletti no comando, mas as coisas continuaram muito parecidas em Trigoria. Além de perseguir a Juventus por toda a Serie A, mostramos alguma consistência técnica e brilho individual de caras como Dzeko e Nainggolan. Porém, logo cedo, a queda na Champions abalou o barco. Depois de um empate fora, em 1-1, conseguimos perder a cabeça e tomar 3-0 na fuça dentro do Olímpico. Era o começo de um longo sofrimento.

O mercado romanista foi mais uma espécie de manutenção dos emprestados do que necessariamente uma operação de reforço. Rudiger, Salah, El-Shaarawy e Emerson foram oficializados. Alisson chegou. E aí tivemos mais uma tropa de emprestados, já que não havia grana para contratar: Mario Rui, Juan Jesus, Federico Fazio, Szczesny, Thomas Vermaelen, Bruno Peres e Clement Grenier.

A barca dos que se despediram incluiu: aquele bósnio lá (mantendo a coerência), Lucas Digne, Doumbia, Seydou Keita, Maicon, Uçan, De Sanctis, Sanabria, Ljajic, Torosidis e Falqué. A Roma também emprestou para outros clubes o jovem meia Ricci, o zagueirão Castán (volta), Falqué, Zukanovic, Ezequiel Ponce, Sadiq, Gyomber, Vainqueur e Iturbe (amém).

Em campo, a Roma teve de lidar com o elenco curto e sofreu as consequências. No momento mais decisivo da temporada, com Serie A e oitavas da Liga Europa em disputa, o time fraquejou já no segundo de quatro jogos de arrepiar. Vencemos a Inter, mas apanhamos da Lazio, do Napoli e do Lyon. De supetão, fomos eliminados da Coppa e da Liga Europa em um pequeno intervalo. Para piorar, menos de duas semanas depois de se despedir da Coppa, entregamos de bandeja a Serie A para a Juventus quando ainda havia uma pontinha de esperança.

O panorama, por enquanto, é: segundo lugar na Serie A, com vaga direta para a Champions e um futebol convincente. Mas os danos emocionais foram muito maiores e isso tem um efeito negativo no ambiente. É o que pode provocar uma grande ruptura para 2017-18. Sem falar nos vexames que Spalletti fez Totti passar, colocando-o apenas nos cinco ou dez minutos finais de partidas importantes. Além de não conseguir entrar em forma (justamente por não ter minutos), Totti chega a seus últimos jogos como um reserva irrelevante e desprestigiado.

Não está bom para ninguém


Spalletti sai da temporada muito pressionado pelos resultados e dificilmente continuará no clube. A sombra de Luis Enrique é uma ameaça real ao careca, que deve encerrar seu segundo reinado em Roma como uma piada.

Esta foi a primeira parte do balanço da Era Pallotta, no que concerne apenas o desempenho esportivo. Mas como sabemos que um clube não se faz só com jogadores, vamos abranger também o lado de gerenciamento. O que a Roma fez para crescer nestes últimos cinco anos? Tentaremos responder a esta pergunta no próximo texto.