O Gol de Schrödinger e outras histórias

Getty Images
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Ninguém sabe e ninguém viu o futebol ontem


Por fim, a alegria voltou nos gramados Argentinos. Depois de meses e meses de paralisação, seja pelo calendário, seja pela greve dos Agremiados, entidade sindical dos jogadores de futebol da Argentina, a bola voltou a rolar nos relvados do país. Já era hora. Mesmo a causa sendo nobre (dívida com os jogadores) e a solução (saldar o débito com o dinheiro da recisão do Futbol Para Todos) estar sempre ao alcance dos cartolas, que são de uma incompetência onipresente, não dava mais para esperar. O acordo que selou o fim da greve sai num momento onde os times precisam jogar pela Libertadores e amistosos já não servem mais. 


Em se tratando do nosso Millonario, os jogadores ficaram devendo para o torcedor. O empate sem gols com o Unión de Santa Fé, em pleno Monumental, foi um verdadeiro desastre de atuação do River. O arqueiro Batalla foi o melhor em campo, salvando duas oportunidades claras do conjunto Tatengue. A maior emoção do torcedor foi ver o zagueiro Lollo, o Roque Santeiro de Nuñez, aquele que foi sem ter sido e acabou voltando. Ele foi o retrato fiel de um time sem vícios: não bebe, não fuma e não joga. Quase comprometeu, esteve mal e desatento, mas, é claro, seria obtuso cobrar um jogador que ficou tanto tempo sem atuar, assim como é fora de propósito pagar US$2,6 milhões num zagueiro lesionado, de 29 anos, com nome de chocolate. Mayada e Casco cumpriram bem a função de não deixar que saíssem as bolas que recebiam nas laterais do campo. De resto, foram burocráticos e medrosos. 


No meio, Auzqui, o recém-chegado, Nacho Fernández, Arzura e Pity Martínez não produziram nada de impacto na criação. Pareciam que todos estavam ao celular, usando as redes sociais para distribuir likes e comentários, tamanha era a desatenção. Nacho ainda subiria de produção no segundo tempo, gerando inclusive o gol de Schrödinger, aquele que ninguém sabe se foi gol ou não, que é impossível de validar, mas que, pelo mesmo princípio, não pode ser invalidado. Ele acertou o famoso pombo-sem-asa a 35 metros de distância, a pelota chocou-se com o a parte de baixo do travessão, beijou a grama perto da linha do arco e subiu. Tal qual o gato do experimento do físico austríaco, ninguém pôde abrir a caixa - pedir ajuda à tecnologia na hora -, ficando a discussão para sempre se foi ou não tento Millonario. Merecido não seria. A volta do Indio Rojas (todo mundo chama de Chino, mas eu prefiro Indio) foi apenas protocolar. Não fez quase nada no pouco tempo que esteve no gramado.


Na frente, Mora, cada vez mais distante do jogador fundamental que foi em 2015, decepcionou. Driussi, sem Alario, mostrou que perde a referência e fica menos letal. A entrada do parceiro favorito no lugar de Auzqui não surtiu o efeito esperado. O zero continuou no placar, na nota da atuação do River e nas chances de brigar por alguma coisa no campeonato. Resta agora aguardar o debut na Libertadores, dia 15, na Colômbia, e torcer por um time mais ousado, disposto e goleador. As voltas de Moreira na lateral, Maidana na zaga e Ponzio no meio devem dar mais vida ao time, que já começa o ano pressionado.