Um Real Madrid de La Liga em noite de Champions

Desde a chegada de Zidane, o Real Madrid alterna entre duas faces da mesma moeda: o time dos jogos grandes e o das rodadas rotineiras de La Liga. A primeira versão geralmente aparece na Champions League e traz à tona todos os aspectos que fazem desta equipe uma das mais vitoriosas da história do clube. Todos esperavam mais uma grande noite europeia no Santiago Bernabéu contra o Tottenham, mas a moeda caiu do outro lado.


O Real Madrid doméstico ganhou uma Liga com diversas vitórias na conta do chá – à base da magia de Isco, da estrela de Sergio Ramos e dos gols de Morata. Na Duodécima Champions, por outro lado, provou superioridade tática, técnica, coletiva e individual diante dos principais adversários do continente.


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Erros a corrigir


Começou outra temporada e o panorama foi semelhante. Atuações irretocáveis nas Supercopas e muito sofrimento com equipes inferiores no campeonato espanhol. Desta vez, porém, sem os resultados positivos de outrora – precisou de quatro partidas para vencer a primeira em casa. No duelo mais desafiador da jornada até então, bateu o Borussia Dortmund com autoridade no Signal Iduna Park. E tome mais sofrimento em La Liga.


A notável dualidade, porém, não se manteria para sempre. O início foi animador contra o ótimo time de Pochettino, mas os ingleses não se assustaram e neutralizaram as principais ações ofensivas do Madrid. Encontraram, também, uma via expressa pela esquerda da defesa madridista. Marcelo estava sozinho para conter os avanços em velocidade de Aurier, Sissoko e cia. Kane criava um caos quando caía pelo lado para ampliar a superioridade. O gol deles, obviamente, saiu por ali.


Os espaços nas beiradas do campo para os rivais explorarem os contragolpes é um filme repetido de 2016/17. Aí reside a principal debilidade do 4-3-1-2. Mesmo com Isco posicionado à esquerda quando a equipe detém a bola, a recomposição defensiva não é a mesma de um extremo de origem. O meia é fundamental sem a bola e gera ocasiões em roubadas de bola na intermediária, mas conter avanços laterais não é a dele.


É normal observar superioridade do Real Madrid em posse de bola e ocasiões de gol, mas a equipe não consegue impor uma superioridade flagrante. Esse foi o cenário com Valencia, Levante, Betis, Espanyol e Tottenham. Todos esses se sentiram cômodos sem a bola e tiveram poucas dificuldades para criar. Uma vitória, três empates e uma derrota. É o que acontece quando não se constrói um jogo orgânico que faça do triunfo mera consequência.


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Keylor, assim como Lloris, manteve o empate no placar


A solução passa, então, para as individualidades. E nenhuma delas apareceu em sua melhor versão nessa noite de Champions. Sergio Ramos não foi dominante como de costume, Varane esteve errático, Marcelo sofreu atrás e gerou pouco na frente. Casemiro, Kroos, Modrić e Isco não se conectaram. E Cristiano Ronaldo – com exceção do pênalti – e Benzema foram infelizes nas conclusões – graças a Lloris, na maior parte das ocasiões.


Deixei, de propósito, o jovem Achraf por último. O lateral-direito demorou a sentir o ritmo da partida, mas mostrou personalidade e enorme potencial. Zidane foi corajoso ao deixar Nacho – opção mais segura – no banco. O marroquino precisa de sequência para suprir a perda de Carvajal, que não tem previsão de volta, e entrar em uma pedreira dessas molda o desenvolvimento do jogador.


Como destaquei no último texto – que, aliás, foi há muito tempo, peço perdão pelo vacilo – e no vídeo de análise da vitória sobre o Dortmund, o treinador francês tem a missão de extrair o melhor Real Madrid de forma linear, não apenas nos grandes jogos. Como vimos contra o Tottenham, essa dualidade pode complicar o time a médio e longo prazo.