Sergio Ramos congelou o inferno de Napoli

Durante a semana, muito se falou do inferno que aguardava o Real Madrid no San Paolo, para a partida de volta do confronto com o Napoli nas oitavas de final da Champions League. E o inferno ardeu em brasa no primeiro tempo. Os endiabrados Hamšík, Insigne e Mertens - com auxilio de Diawara - colocaram fogo no jogo.


O final do primeiro tempo foi como uma intervenção divina para o Madrid, que sucumbia ao ambiente dantesco preparado para ele no sul da Itália. Individualmente, Pepe e Ramos - essa dupla monumental - fizeram de tudo para consertar os erros de todo um sistema defensivo que entrou em pane com a assustadora intensidade napolitana. Era necessário ajustar quase tudo no intervalo.


A grande equipe montada por Sarri expôs todas as suas qualidades nos 45 minutos iniciais. Uma pressão pós-perda sufocante que obrigou o Madrid a muitos chutões, à espera de um milagre do trio BBC na frente. Uma forma um tanto quanto heterodoxa de se criar chances em um time com Toni Kroos e Luka Modrić no meio-campo. Os dois não viram a cor da bola no primeiro tempo.


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Golpe de misericórdia


Oportunidades de gol, apenas em erros do Napoli na saída de bola. Em uma delas, Cristiano Ronaldo perdeu ótima chance após receber de Benzema. Nas outras, Bale quis resolver sozinho quando deveria ter escolhido o passe. Momentos como esses foram raros, pois a posse produtiva só aparecia no lado azul. Se alguém olhasse para a TV em intervalos regulares, veria um treino de ataque contra defesa.


Para aproveitar os buracos que se formavam pela péssima recomposição madridista, Mertens e cia exploraram ao máximo a entrelinha. Foi o epicentro das velozes triangulações napolitanas, catalisadas pela movimentação em ritmo alucinante do setor ofensivo. O gol não poderia sair em jogada diferente, concluída por um dos melhores jogadores da temporada europeia. E ainda teve bola na trave antes do árbitro interromper a tormenta. O mapa de calor do primeiro tempo é esclarecedor ao ilustrar um Real Madrid majoritariamente acuado em seu campo de defesa.


Houve um momento de reflexão durante o intervalo. Aquele não era o time 11 vezes campeão da Champions. Aqueles não eram os jogadores com pelo menos dois títulos europeus cada - à exceção de Keylor Navas, com um. Questionamentos a Zidane foram feitos. A entrada de Isco era necessária para ligar meio e ataque? Sem substituições, a equipe voltou com outra postura.


A salvação, para surpresa de ninguém, veio com Sergio Ramos. Logo no começo do segundo tempo, o zagueiro colocou o Napoli contra as cordas com o gol de empate, e depois levou os italianos a nocaute com mais um golpe aéreo. Pouco importa que a Uefa tenha creditado como gol contra de Mertens. Sabemos quem estava lá para decidir. O inferno havia sido congelado. Em ambos os gols, entrou novamente em ação a conexão Kroos-Ramos, responsável por tirar o Madrid do sufoco em diversos momentos da temporada.


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Caixão fechado e provocação


Engana-se quem pensa que a participação de Ramos foi decisiva apenas no ataque. Embora os haters gostem de diminuir sua qualidade defensiva, pois não aguentam ele marcando um gol decisivo atrás do outro, o jogo de ontem foi uma boa mostra de sua soberania como zagueiro. Ganhou todos os duelos aéreos, executou oito interceptações e afastou quatro bolas, cumprindo uma de suas atuações mais completas nos últimos anos, justo em um jogo desse porte, com as exigências envolvidas. Sergio Ramos não representa o Real Madrid. Sergio Ramos é o Real Madrid.


No fim, ainda houve tempo para Morata anotar mais um tento após sair do banco. Na comemoração, provocou o antigo rival pedindo silêncio. É impressionante a capacidade que o canterano tem para marcar com poucos minutos em campo.


Zidane precisa aprender com os erros do tenebroso primeiro tempo. De agora em diante, serão desafios cada vez mais difíceis em busca de La Duodécima e La Liga. Sua equipe enfrenta sérios problemas quando encara um time que adianta as linhas e pressiona a saída de bola. É possível fazer mais, dada a qualidade técnica dos jogadores responsáveis por essa fase do jogo.