Muito além das rotações: Zidane precisa aprender com seus erros

Todo técnico de futebol tem um lado Professor Pardal. É aquela parcela de criatividade, de invenção, que faz o treinador testar esquemas táticos, jogadas ensaiadas ou improvisar atletas em posições que os torcedores não imaginariam. Zinédine Zidane já mostrou que é um profissional com essas características, que gosta de ousar. Na temporada passada ele teve sua coragem recompensada com um Real Madrid envolvente, vitorioso e campeão, mas no empate contra o Lavante o que se viu foi exatamente o oposto.


Deixar Casemiro, Isco e Kovacic no banco e investir em uma primeira linha de meio campo formada por Marcos Llorente e Toni Kroos deixou todos preocupados desde o início da partida. Os dois meias, apesar das boas atuações, não ofereciam muitas opções ao setor ofensivo, já que estavam posicionados praticamente em linha, sem encostar muito na frente, o que normalmente acontece no esquema tático do Real Madrid.


Getty Images
Getty Images

Foi essa a expressão de todos os madridistas


Na frente, mais confusão. Ainda que muitos costumem reclamar do desempenho de Benzema, dessa vez não há muito o que criticar. O francês estava isolado, tentando fazer o que podia e, até sair lesionado na metade do primeiro tempo, teve uma atuação de razoável para boa. Na segunda linha do meio campo, responsável por encostar no único atacante e compor o lado ofensivo, mais confusão: Lucas Vázquez pela direita, Marco Asensio no meio, e... Marcelo pelo lado esquerdo! E na lateral esquerda, onde normalmente deveria estar o brasileiro, estava Theo.


A ideia de Zidane, aparentemente, era que o lateral francês e o brasileiro tivessem uma troca e entendimento semelhantes às que Marcelo e Cristiano Ronaldo têm quando estão em campo, mas isso não foi possível simplesmente porque Marcelo NÃO É Cristiano e Theo NÃO É Marcelo. Os dois se revezeram bastante entre o ataque e a defesa e até tiveram bom desempenho - e certamente o rendimento seria melhor caso Theo já fosse um jogador mais experiene dentro da equipe.


O que se via, então, era um time sem criatividade. O meio campo, cheio de excelentes valores individuais, não mostrava entrosamento, não desenvolvia as jogadas e em raras ocasiões conseguia conectar os passes de forma eficiente até chegar ao gol adversário. O gol do Levante ainda no início da partida piorou a situação, deixando tudo muito mais nervoso e com cada um tentando resolver a partida ao seu modo.


Getty Images
Getty Images

Se não fosse o oportunismo de Vázquez, o resultado seria ainda pior


Veio o segundo tempo e, com ele, as mudanças. Isco no lugar de Llorente e Kovacic no lugar de Vázquez podiam até ter surtido algum efeito. O time mostrou-se mais organizado, passou a ter mais volume de jogo e continuou dominando as ações, como já fizera na primeira etapa, mas continuava esbarrando em erros no último passe e, principalmente, a falta de um finalizador lá na frente.


Zidane errou ao manter Theo em campo. Apesar do bom primeiro tempo, o francês pouco fez na etapa complementar e a melhor opção seria ter lançado Isco em seu lugar, voltando com Marcelo para sua posição de origem e mantendo a linha ofensiva com Vázquez, Isco, Asensio e Bale, que entrou no lugar de Benzema, na frente, como referência. A entrada de Kovacic serviu para liberar mais Kroos para chegar na frente, já que o croata oferece maior consistência defensiva que Llorente, então o Real Madrid poderia atacar de forma efetiva com seis jogadores, sufocando o Levante de forma criativa e criando espaços que poderiam resultar em gol.


Getty Images
Getty Images

Nem a entrada de Isco salvou o time


Agora não adianta chorar pelo que já aconteceu. Os quatro pontos que separam o Real Madrid da liderança estão longe de ser desesperadores ou difíceis de ser tirados, mas é essencial que Zidane tenha consciência de seus atos e entenda que errou. As rotações podem e devem continuar, mas é necessário também manter a coerência nas escalações e treinamentos, tirando sempre o melhor de cada atleta.


As invenções são válidas e podem dar certo, mas sem comprometer o desempenho e a classificação do Real Madrid nos campeonatos. Abre o olho, Zidane. Você tem crédito, mas, por favor, não abuse.



Siga Rodrigo Rebelo no Twitter | Siga o Conexão Merengue no Twitter | Curta o Conexão Merengue | Curta o ESPN FC