Benzema: herói ou vilão do Real Madrid?

A segunda rodada do campeonato espanhol reservava um confronto perigosíssimo para o Real Madrid. Há muitos anos o Valencia vem criando dificuldades para a equipe madridista e dessa vez não seria diferente. Com desfalques importantes - Cristiano Ronaldo e Sergio Ramos suspensos e Varane lesionado -, Zidane decidiu improvisar na zaga, recuando Casemiro para o lugar do heroi do minuto 93 e fechando o setor com Nacho. Dessa forma, Isco saiu como titular no meio e Asensio foi o companheiro de ataque de Bale e Benzema.


Individualmente, a coisa funcionou. Casemiro mostrou-se uma opção interessante para a zaga, com antecipações e botes precisos, e Asensio teve um desempenho fabuloso, marcando dois golaços que garantiram o empate merengue. O grande problema foi o jogo coletivo, visto que os dois gols do Valencia saíram de falhas infantis do setor defensivo e muitas outras jogadas dos visitantes mostraram buracos no esquema tático armado por Zidane.


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Enquanto um se destacou, o outro não teve o rendimento desejado


Mas, apesar disso, o resultado poderia ter sido completamente diferente. Isso porque o ataque produziu muitas jogadas de perigo. Produziu bastante. Produziu com sobras! Além dos dois belíssimos gols de Marco Asensio - um potente chute de fora da área, logo no começo da partida, e uma perfeita cobrança de falta já na segunda etapa -, Benzema recebeu uma infinidade de passes que poderiam ter resultado em gol. E nenhuma dessas chances foi aproveitada.


Foram pelo menos SETE oportunidades claras que o francês teve para marcar e todas foram desperdiçadas das mais variadas formas: ele acertou a trave, mandou longe do gol, se enrolou e foi parado pelo goleiro Neto - se antes Diego Alves era o responsável por crescer de forma absurda contra o Real Madrid e fazer defesas milagrosas, agora o posto foi ocupado por outro brasileiro. O próprio Benzema teve noção do quanto a sorte não estava ao seu lado e demonstrou todo seu descontentamento pelas chances perdidas.



Contrariando a opinião de muitos, não sou um dos maiores críticos do francês. Na temporada passada cheguei a defender que ele perdesse a condição de titular para Morata, entretanto também sei reconhecer a importância dele no esquema tático do Real Madrid. Seu entrosamento com Cristiano Ronaldo é mais do que notório e é preciso ter muita má vontade para não admitir isso. Os críticos precisam entender que, mesmo sendo o camisa 9, ele não é a principal peça do ataque madridista. Benzema está ali para ser mais um garçom, com uma clara função de apoiar para que o português decida. E, mesmo que abaixo das expectativas, ele cumpriu bem esse papel na temporada passada.


"Ahh, mas o Morata, mesmo vindo do banco, fez mais gols que Benzema."


Eu sei, hater. Não admitir isso é ir contra fatos. A grande questão é entender como cada um era usado quando estava em campo. Benzema tinha a função já citada acima, enquanto Morata era aproveitado de forma diferente, muitas vezes com o chamado plano B de Zidane. E, mesmo quando saía do banco e marcava, sua entrada marcava uma mudança tática na equipe, passando a atuar de forma mais aguda, procurando o homem de referência do ataque.


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Ambos eram importantes, cada um a seu modo


O que preocupa é até quando essa fase ruim vai durar. O atacante marcou contra o Barcelona, na final da Supercopa da Espanha, passou em branco contra o Deportivo e teve essa atuação abaixo da crítica contra o Valencia. É inegável que o francês não vive seus melhores dias e a escassez de gols é um problema que precisa de muita atenção, sobretudo em partidas em que ele é a referência na frente. A grande questão reside justamente nessas partidas, afinal, para um atacante do seu calibre, é muito pouco que seja apenas uma peça de suporte para Cristiano Ronaldo. Benzema pode - e deve - brilhar mais.


Não se desaprende a jogar da noite pro dia e o atacante já viveu dias melhores com a camisa merengue. Coincidência ou não, desde que passou a ter essa função mais colaborativa, seu rendimento individual diminuiu. Com Ancelotti no comando, na temporada em que o Real Madrid venceu a La Décima, o trio BBC era mais eficiente como um todo, com os responsáveis pela sigla e destacando. De lá pra cá, Bale começou a sofrer mais com lesões e as mudanças no ataque foram constantes. Cristiano passou a ser mais poupado, devido a sua idade - principalmente na temporada passada - e o único que esteve dando a cara à tapa foi o francês.


Não estou dizendo que ele é uma vítima dos fatos. Não é. A fase não é mesmo boa. Mas antes de crucificá-lo, é preciso entender todo o contexto existente. Tudo vai muito além de "Benzema está acabado e não joga nada". Falar assim é reduzir o problema a uma solução teoricamente simples, imediatista e totalmente ingrata, que sacrificaria aquele que é um dos principais jogadores do elenco e, sim, um dos melhores atacantes do futebol mundial. Colocar tudo na conta dele é uma injustiça sem tamanho.


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Sobraram vontade e garra, mas faltou gol


No fim das contas, Benzema não é nem herói nem vilão. É um jogador que se doa e que precisa render mais. Ele não está lá à toa. Zidane não o mantém no time apenas por ser francês. Quem defende essa teoria põe em dúvida o trabalho de um profissional que ganhou quase todos os títulos que disputou e que mantém uma postura ética e correta desde que era jogador. Esse argumento beira a infantilidade.


A atuação contra o Valencia foi revoltante, mas é algo que qualquer atacante está sujeito a passar. Ainda assim, Benzema segue com totais condições de reverter essa condição e voltar a se destacar de forma individual, já que coletiva e taticamente ele permanece sendo extremamente importante.



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